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Uma breve história de como Berlim virou um reduto da esquerda na Alemanha

19 set 2026 - 13h11
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Resumo
Desde o século 19, Berlim consolidou-se como reduto da esquerda devido ao forte movimento operário, à influência marxista e a históricas rebeliões populares. Mesmo após a repressão nazista e a divisão da Guerra Fria, a tradição contestatória ressurgiu com as revoltas estudantis dos anos 1960. Hoje, essa herança revolucionária permanece ativa na luta contra a gentrificação e a crise habitacional, impulsionando partidos e movimentos radicais na política da capital alemã.

Ainda na década de 1840, foi fundada em Berlim uma das primeiras organizações operárias da Alemanha. Cidade foi palco de revoltas de trabalhadores e estudantes e até hoje preserva ideias revolucionárias.Berlim tem a reputação de ser uma cidade turbulenta. Quando Joseph Goebbels foi nomeado líder distrital do Partido Nazista em 1926, ele descreveu a atual capital alemã como "a cidade mais vermelha da Europa depois de Moscou". Da Revolução dos Alfaiates de 1830 e das barricadas de 1848 ao surgimento de uma vasta classe trabalhadora industrial no final do século 19, revolução, protesto e rebelião estão profundamente enraizados na história da cidade.

Polícia apanha fogo causado por explosão de coquetel molotov jogado durante ação de desocupação de imóveis em Berlim em 1990
Polícia apanha fogo causado por explosão de coquetel molotov jogado durante ação de desocupação de imóveis em Berlim em 1990
Foto: DW / Deutsche Welle

Enquanto o futuro filósofo alemão e socialista revolucionário Karl Marx ainda cursava o ensino médio na pequena cidade de Trier, na Província do Reno da Prússia, Berlim se tornava rapidamente um centro do movimento operário do país. Durante a Revolução de Março de 1848, uma tentativa fracassada de criar um Estado-nação alemão democrático, foi fundada a Fraternidade Geral dos Trabalhadores, uma das primeiras organizações operárias a atuar na Alemanha.

Nas décadas de 1870 e 1880, grandes fábricas, da metalúrgica à indústria têxtil, estavam instaladas na cidade. O aumento da população operária impactou também a cultura política local.

"Ela se tornou mais popular em um sentido positivo: afastando-se da política tradicional e elitista dos liberais burgueses que por muito tempo dominaram Berlim, e caminhando para a inclusão de trabalhadores, pois ao menos os homens agora também eram eleitores importantes", conta o historiador Axel Weipert.

Surgimento de um movimento trabalhista radical

O movimento trabalhista de Berlim se radicalizou com o tempo, em parte como resposta à repressão severa imposta pelo chanceler Otto von Bismarck. Embora Bismarck tenha criado o primeiro Estado de bem-estar social moderno para tentar conter a crescente popularidade do movimento socialista, também introduziu leis que proibiam organizações socialistas e comunistas, jornais, reuniões públicas e sindicatos independentes.

Após a renúncia de Bismarck em 1890, as leis antissocialistas foram revogadas e as ideias de Karl Marx e de seu companheiro socialista revolucionário Friedrich Engels se tornaram a ideologia do que Weipert descreve como um "verdadeiro movimento de massas" em Berlim.

O Partido Social-Democrata (SPD), o mais antigo da Alemanha, foi criado em 1875 a partir da fusão da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães com o Partido Operário Social-Democrata. Antes da Primeira Guerra Mundial, o SPD obtinha em Berlim percentuais de votos muito superiores aos registrados em outras partes do país.

Em 1914, o movimento trabalhista sofreu um grande descrédito quando a liderança do SPD e os sindicatos decidiram não se opor à guerra defendida pelo último imperador da Alemanha, Guilherme 2º. Mas, a partir de 1916, Berlim se tornou o centro de greves operárias em massa contra o conflito.

Uma das primeiras paralizações foi contra o julgamento do ativista socialista antiguerra Karl Liebknecht. Junto com Rosa Luxemburgo e outros radicais de esquerda, Liebknecht fundou em Berlim a Liga Espartaquista, um grupo clandestino que mais tarde se transformaria no Partido Comunista da Alemanha (KPD).

Impulsionados pelo desgaste provocado pela guerra, pela grave escassez de alimentos e pela ruína econômica, cerca de meio milhão de trabalhadores berlinenses aderiram à Greve de Janeiro de 1918. Com o apoio da Liga Espartaquista, a paralisação foi liderada pelos Delegados Revolucionários, uma rede clandestina de operários e sindicatos de fábricas de munições e metalúrgicas. O mesmo grupo foi a força motriz na derrubada do imperador, em 9 de novembro de 1918.

Da unidade da esquerda à divisão

Na cidade caótica e devastada pela guerra, tomada por uma revolução violenta, a Revolta Espartaquista de 1919 foi lançada para derrubar o governo provisório da Alemanha e estabelecer uma república de conselhos de trabalhadores. O movimento foi violentamente reprimido, o que deixou dezenas de mortos. Liebknecht e Luxemburgo foram assassinados por integrantes de milícias paramilitares de direita. O episódio marcou para sempre a esquerda política.

Como capital da recém-fundada República de Weimar, Berlim permaneceu um centro de efervescência política radical no período entre guerras. Isso era especialmente visível em bairros com grande concentração de cortiços, como Wedding, Kreuzberg e Neukölln, onde milhares de operários viviam em condições precárias. As numerosas fábricas de grande porte da cidade também criavam interesses comuns e estabeleciam as bases para a ação coletiva.

O "Maio Sangrento" de 1929 foi marcado por ataques brutais a manifestações ilegais do Dia do Trabalhador, que deixaram mais de 30 mortos. O chefe de polícia de Berlim ligado ao SPD havia proibido todos os protestos no 1º de Maio, decisão desafiada pelo KPD. Em resposta, a polícia abriu fogo contra os manifestantes nas ruas e também atirou em prédios residenciais, principalmente nos bairros operários de Wedding e Neukölln.

Durante a Grande Depressão, entre 1929 e 1933, o SPD perdeu grande parte de seu apoio com o avanço do desemprego na cidade. "O desemprego é crucial", explica Pamela Swett, historiadora da Universidade de Rhode Island. "Desvinculados do ritmo da vida cotidiana, os homens buscaram novos vínculos, novas formas de encontrar autoestima e companheirismo."

Alguns aderiram ao KPD, que ficou conhecido como o "Partido dos Desempregados". Outros se juntaram a grupos paramilitares de extrema direita, como a Sturmabteilung (SA), do Partido Nazista.

Dos protestos estudantis à crise habitacional

Depois que os nazistas chegaram ao poder em 1933, muitos líderes do movimento trabalhista foram mortos ou exilados. Após a Segunda Guerra Mundial, Berlim foi dividida entre dois sistemas políticos distintos. Berlim Oriental tornou-se a capital da República Democrática Alemã (RDA) comunista. Isolada da República Federal da Alemanha, Berlim Ocidental passou por um processo de desindustrialização, o movimento trabalhista enfraqueceu e o SPD se inclinou para a direita.

Durante a Guerra Fria, muitos jovens de esquerda se mudaram para Berlim Ocidental para evitar o serviço militar. Isso intensificou o movimento estudantil, cujo centro era a Universidade Livre de Berlim. O arborizado sudoeste da cidade foi palco de históricos protestos contra o que era percebido como autoritarismo do governo e a presença de ex-funcionários nazistas em posições de poder. O assassinato do estudante Benno Ohnesorg por um policial durante uma manifestação contra a visita do xá do Irã, em 1967, radicalizou uma geração que lideraria os amplos protestos de 1968.

No início da década de 1970, a escassez de moradias levou parte do movimento estudantil, além de aprendizes e jovens famílias migrantes, a ocupar prédios vazios em Berlim Ocidental. "Era uma rebelião da classe trabalhadora contra a habitação capitalista", afirma Ralf Hoffrogge, historiador do movimento trabalhista na Universidade Livre de Berlim.

Hoje, à medida que a gentrificação avança pela cidade, Berlim abriga os movimentos de inquilinos mais fortes e radicais da Alemanha. Em um referendo realizado em 2021, 59% dos eleitores aprovaram a expropriação de imóveis pertencentes a empresas privadas do setor imobiliário. Hoffrogge participou da campanha e escreveu um livro sobre como a crise habitacional se tornou um catalisador para um "renascimento socialista" na cidade.

"Não se trata de inquilinos de Berlim contra proprietários de Berlim, mas de inquilinos contra o capital global. Acho que as pessoas começaram a perceber essas contradições e é por isso que conceitos políticos baseados em classe estão voltando a ganhar popularidade", afirmou Hoffrogge.

A atual crise habitacional dominou a atual campanha eleitoral estadual. Neste domingo (20/09), os moradores da cidade vão às urnas para eleger a nova Assembleia Legislativa, que definirá o próximo prefeito da cidade-estado.

Pesquisas recentes colocam o partido A Esquerda aparece com uma pequena vantagem, com 21% das intenções de voto, contra 20% da conservadora União Democrata-Cristã (CDU) e 18% da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Logo atrás vêm os Verdes, com 16%, enquanto o SPD, que governou Berlim durante quase 22 anos consecutivos, registra apenas 12%.

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