Uma breve história de como Berlim virou um reduto da esquerda na Alemanha
Desde o século 19, Berlim consolidou-se como reduto da esquerda devido ao forte movimento operário, à influência marxista e a históricas rebeliões populares. Mesmo após a repressão nazista e a divisão da Guerra Fria, a tradição contestatória ressurgiu com as revoltas estudantis dos anos 1960. Hoje, essa herança revolucionária permanece ativa na luta contra a gentrificação e a crise habitacional, impulsionando partidos e movimentos radicais na política da capital alemã.
Ainda na década de 1840, foi fundada em Berlim uma das primeiras organizações operárias da Alemanha. Cidade foi palco de revoltas de trabalhadores e estudantes e até hoje preserva ideias revolucionárias.Berlim tem a reputação de ser uma cidade turbulenta. Quando Joseph Goebbels foi nomeado líder distrital do Partido Nazista em 1926, ele descreveu a atual capital alemã como "a cidade mais vermelha da Europa depois de Moscou". Da Revolução dos Alfaiates de 1830 e das barricadas de 1848 ao surgimento de uma vasta classe trabalhadora industrial no final do século 19, revolução, protesto e rebelião estão profundamente enraizados na história da cidade.
Enquanto o futuro filósofo alemão e socialista revolucionário Karl Marx ainda cursava o ensino médio na pequena cidade de Trier, na Província do Reno da Prússia, Berlim se tornava rapidamente um centro do movimento operário do país. Durante a Revolução de Março de 1848, uma tentativa fracassada de criar um Estado-nação alemão democrático, foi fundada a Fraternidade Geral dos Trabalhadores, uma das primeiras organizações operárias a atuar na Alemanha.
Nas décadas de 1870 e 1880, grandes fábricas, da metalúrgica à indústria têxtil, estavam instaladas na cidade. O aumento da população operária impactou também a cultura política local.
"Ela se tornou mais popular em um sentido positivo: afastando-se da política tradicional e elitista dos liberais burgueses que por muito tempo dominaram Berlim, e caminhando para a inclusão de trabalhadores, pois ao menos os homens agora também eram eleitores importantes", conta o historiador Axel Weipert.
Surgimento de um movimento trabalhista radical
O movimento trabalhista de Berlim se radicalizou com o tempo, em parte como resposta à repressão severa imposta pelo chanceler Otto von Bismarck. Embora Bismarck tenha criado o primeiro Estado de bem-estar social moderno para tentar conter a crescente popularidade do movimento socialista, também introduziu leis que proibiam organizações socialistas e comunistas, jornais, reuniões públicas e sindicatos independentes.
Após a renúncia de Bismarck em 1890, as leis antissocialistas foram revogadas e as ideias de Karl Marx e de seu companheiro socialista revolucionário Friedrich Engels se tornaram a ideologia do que Weipert descreve como um "verdadeiro movimento de massas" em Berlim.
O Partido Social-Democrata (SPD), o mais antigo da Alemanha, foi criado em 1875 a partir da fusão da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães com o Partido Operário Social-Democrata. Antes da Primeira Guerra Mundial, o SPD obtinha em Berlim percentuais de votos muito superiores aos registrados em outras partes do país.
Em 1914, o movimento trabalhista sofreu um grande descrédito quando a liderança do SPD e os sindicatos decidiram não se opor à guerra defendida pelo último imperador da Alemanha, Guilherme 2º. Mas, a partir de 1916, Berlim se tornou o centro de greves operárias em massa contra o conflito.
Uma das primeiras paralizações foi contra o julgamento do ativista socialista antiguerra Karl Liebknecht. Junto com Rosa Luxemburgo e outros radicais de esquerda, Liebknecht fundou em Berlim a Liga Espartaquista, um grupo clandestino que mais tarde se transformaria no Partido Comunista da Alemanha (KPD).
Impulsionados pelo desgaste provocado pela guerra, pela grave escassez de alimentos e pela ruína econômica, cerca de meio milhão de trabalhadores berlinenses aderiram à Greve de Janeiro de 1918. Com o apoio da Liga Espartaquista, a paralisação foi liderada pelos Delegados Revolucionários, uma rede clandestina de operários e sindicatos de fábricas de munições e metalúrgicas. O mesmo grupo foi a força motriz na derrubada do imperador, em 9 de novembro de 1918.
Da unidade da esquerda à divisão
Na cidade caótica e devastada pela guerra, tomada por uma revolução violenta, a Revolta Espartaquista de 1919 foi lançada para derrubar o governo provisório da Alemanha e estabelecer uma república de conselhos de trabalhadores. O movimento foi violentamente reprimido, o que deixou dezenas de mortos. Liebknecht e Luxemburgo foram assassinados por integrantes de milícias paramilitares de direita. O episódio marcou para sempre a esquerda política.
Como capital da recém-fundada República de Weimar, Berlim permaneceu um centro de efervescência política radical no período entre guerras. Isso era especialmente visível em bairros com grande concentração de cortiços, como Wedding, Kreuzberg e Neukölln, onde milhares de operários viviam em condições precárias. As numerosas fábricas de grande porte da cidade também criavam interesses comuns e estabeleciam as bases para a ação coletiva.
O "Maio Sangrento" de 1929 foi marcado por ataques brutais a manifestações ilegais do Dia do Trabalhador, que deixaram mais de 30 mortos. O chefe de polícia de Berlim ligado ao SPD havia proibido todos os protestos no 1º de Maio, decisão desafiada pelo KPD. Em resposta, a polícia abriu fogo contra os manifestantes nas ruas e também atirou em prédios residenciais, principalmente nos bairros operários de Wedding e Neukölln.
Durante a Grande Depressão, entre 1929 e 1933, o SPD perdeu grande parte de seu apoio com o avanço do desemprego na cidade. "O desemprego é crucial", explica Pamela Swett, historiadora da Universidade de Rhode Island. "Desvinculados do ritmo da vida cotidiana, os homens buscaram novos vínculos, novas formas de encontrar autoestima e companheirismo."
Alguns aderiram ao KPD, que ficou conhecido como o "Partido dos Desempregados". Outros se juntaram a grupos paramilitares de extrema direita, como a Sturmabteilung (SA), do Partido Nazista.
Dos protestos estudantis à crise habitacional
Depois que os nazistas chegaram ao poder em 1933, muitos líderes do movimento trabalhista foram mortos ou exilados. Após a Segunda Guerra Mundial, Berlim foi dividida entre dois sistemas políticos distintos. Berlim Oriental tornou-se a capital da República Democrática Alemã (RDA) comunista. Isolada da República Federal da Alemanha, Berlim Ocidental passou por um processo de desindustrialização, o movimento trabalhista enfraqueceu e o SPD se inclinou para a direita.
Durante a Guerra Fria, muitos jovens de esquerda se mudaram para Berlim Ocidental para evitar o serviço militar. Isso intensificou o movimento estudantil, cujo centro era a Universidade Livre de Berlim. O arborizado sudoeste da cidade foi palco de históricos protestos contra o que era percebido como autoritarismo do governo e a presença de ex-funcionários nazistas em posições de poder. O assassinato do estudante Benno Ohnesorg por um policial durante uma manifestação contra a visita do xá do Irã, em 1967, radicalizou uma geração que lideraria os amplos protestos de 1968.
No início da década de 1970, a escassez de moradias levou parte do movimento estudantil, além de aprendizes e jovens famílias migrantes, a ocupar prédios vazios em Berlim Ocidental. "Era uma rebelião da classe trabalhadora contra a habitação capitalista", afirma Ralf Hoffrogge, historiador do movimento trabalhista na Universidade Livre de Berlim.
Hoje, à medida que a gentrificação avança pela cidade, Berlim abriga os movimentos de inquilinos mais fortes e radicais da Alemanha. Em um referendo realizado em 2021, 59% dos eleitores aprovaram a expropriação de imóveis pertencentes a empresas privadas do setor imobiliário. Hoffrogge participou da campanha e escreveu um livro sobre como a crise habitacional se tornou um catalisador para um "renascimento socialista" na cidade.
"Não se trata de inquilinos de Berlim contra proprietários de Berlim, mas de inquilinos contra o capital global. Acho que as pessoas começaram a perceber essas contradições e é por isso que conceitos políticos baseados em classe estão voltando a ganhar popularidade", afirmou Hoffrogge.
A atual crise habitacional dominou a atual campanha eleitoral estadual. Neste domingo (20/09), os moradores da cidade vão às urnas para eleger a nova Assembleia Legislativa, que definirá o próximo prefeito da cidade-estado.
Pesquisas recentes colocam o partido A Esquerda aparece com uma pequena vantagem, com 21% das intenções de voto, contra 20% da conservadora União Democrata-Cristã (CDU) e 18% da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Logo atrás vêm os Verdes, com 16%, enquanto o SPD, que governou Berlim durante quase 22 anos consecutivos, registra apenas 12%.
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