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Trump cimenta projeto político com arquitetura monumental

1 jun 2026 - 12h10
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Para especialistas, obras servem mais a propósitos pessoais do que ao interesse público. Republicano recorre a manual de regimes autoritários, da Alemanha Nazista à União Soviética.Nos Estados Unidos de Donald Trump, o termo "projeto de vaidade" (do inglês "vanity project") reaparece sempre que o presidente apresenta um novo plano para dar à capital, Washington D.C., uma repaginada de alto custo. Embora o conceito seja nebuloso entre especialistas, ele se refere, em geral, à construção de monumentos para atender aos desejos de uma liderança política, sem benefício claro para a sociedade.

Plano de Trump para construir um novo salão de bailes na Casa Branca gerou de controvérsia nos EUA
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Foto: DW / Deutsche Welle

As propostas do governo do republicano na capital americana incluem um arco do triunfo de 100 milhões de dólares (cerca de R$ 505 milhões), um salão de baile bilionário na Casa Branca e uma reforma de 13 milhões de dólares (cerca de R$65 milhões) do espelho d'água do Memorial Lincoln.

Não raro, as ideias enfrentam resistência de preservacionistas, urbanistas e instituições culturais, numa cidade onde a arquitetura tem importância simbólica para a identidade nacional dos Estados Unidos.

Para Sarah Moser, professora de geografia da Universidade McGill e uma das principais especialistas em novas capitais, as propostas buscam demonstrar força política, testar aliados e deixar um legado duradouro.

"As intenções por trás do 'embelezamento' e o dinheiro gasto com ele funcionam como um termômetro dos valores e dos modos de governar para o resto do país", afirma.

Interesse público ou projeto político?

Nem todo empreendimento amplo ou caro — em diferentes épocas ou países — está automaticamente sujeito ao rótulo de "projeto de vaidade".

Segundo Esra Akcan, professora de arquitetura da Universidade Cornell, é a intenção que distingue o interesse público da vaidade política. "Um projeto político de vaidade deveria gerar mais oposição, porque envolve uma situação em que um líder usa sua posição e o dinheiro dos contribuintes para construir um monumento que atende ao próprio ego, e não a um serviço público", afirma.

Para ela, o sinal de alerta mais claro surge quando "quando a grandiosidade e o tamanho se tornam a principal força motriz do projeto, em vez de uma resposta a uma necessidade".

Projetos financiados pelo Estado que oferecem moradia social equitativa, praças e parques públicos ou escolas e universidades "são programas muito diferentes de palácios governamentais superdimensionados e cercados, construídos para a família e os amigos de um governante e que drenam os recursos de um país em favor de uma elite restrita", ela acrescenta.

Prática de regimes autoritários

Historicamente, governantes de diferentes épocas usaram monumentos arquitetônicos para projetar autoridade, legitimidade ou identidade nacional, a exemplo dos regimes totalitários do século 20 na Alemanha, na Itália e na antiga União Soviética (URSS).

No caso alemão, por exemplo, entram na lista a Chancelaria de Adolf Hitler em Berlim; o campo de comícios de Zeppelinfeld, em Nuremberg; e o nunca construído Salão do Povo, uma cúpula planejada para comportar 180 mil pessoas. Todos eles foram concebidos para impressionar visitantes pelas suas dimensões.

O arquiteto de Hitler, Albert Speer, recordou em seu livro de memórias que "ele queria o maior de tudo para glorificar suas obras e ampliar seu orgulho". Ele se inspirou no antigo Altar de Pérgamo — escavado no que hoje é a Turquia e reconstruído em Berlim — e o ampliou para o vasto Zeppelinfeld usado durante os comícios nazistas.

Já na França do século 17, Luís 14 transformou um antigo pavilhão de caça em Versalhes, um dos maiores complexos palacianos da Europa. O desenho colocava o rei literalmente no centro do palácio, e a vida na corte girava em torno dele — dos rituais diários às decisões políticas. Versalhes tornava impossível ignorar seu papel central.

Alguns líderes modernos também invocaram precedentes antigos, como as pirâmides, para justificar projetos ambiciosos, inclusive movidos por ambições pessoais ou políticas. Mas Akcan alerta contra simplificações históricas.

"Colocar projetos modernos financiados pelo Estado e monumentos antigos, como as pirâmides [do Egito], na mesma categoria é uma falsa equivalência", afirma, observando que as pirâmides pertenciam a sistemas de crenças e estruturas político-econômicas completamente diferentes.

Cidades que demonstram poder

Não apenas monumentos isolados, mas visões urbanas inteiras podem estar atreladas a projetos políticos, inclusive no presente. "Criar uma cidade inteira é a demonstração máxima de poder e uma manifestação física de ideologia", aponta Moser.

Ela cita Masdar City, em Abu Dhabi, promovida como a primeira cidade do mundo com emissão zero de carbono e lixo zero. O projeto atraiu atenção global e ajudou a reposicionar a capital dos Emirados Árabes Unidos como "hipermoderna e tecnologicamente sofisticada", mesmo após o recuo de alguns planos originais.

Em Mianmar, a capital planejada Naypyidaw utiliza imagens budistas em edifícios governamentais. A linguagem visual, analisa Moser, apresenta o Estado como enraizado em uma identidade religiosa única, sinalizando inclusão para alguns grupos, enquanto exclui implicitamente outros, como a minoria muçulmana rohingya.

Akcan alerta, por sua vez, para uma tendência entre democracias de adotar táticas arquitetônicas do manual autoritário, incluindo a execução de projetos ambiciosos sem licitações, ampla participação ou consenso institucional. "Muitos desses projetos violam leis e códigos de zoneamento de seus próprios sistemas jurídicos", afirma ela, citando como exemplo o palácio governamental do presidente Recep Tayyip Erdogan, o Ak Saray.

Tampouco esta tendência é nova. Pedro, o Grande, fundou São Petersburgo em 1703 como a "janela da Rússia para a Europa". Brasília simbolizou uma identidade moderna e pós-colonial. E Astana, no Cazaquistão, reflete a visão do ex-presidente Nursultan Nazarbayev, por meio de uma combinação de escala monumental, simbolismo étnico e arquitetura futurista.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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