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Terremotos agravam ainda mais a crise humanitária na Venezuela

Os terremotos vêm em um momento politicamente delicado para a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez

26 jun 2026 - 19h14
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A Venezuela apresenta uma vulnerabilidade bem documentada a terremotos. O país está situado na fronteira entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul, o que pode resultar em tremores frequentes e já provocou catástrofes históricas decorrentes de terremotos. Mas a experiência de um "duplet", um par de terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 com 40 segundos de intervalo, em 24 de junho, foi uma tragédia rara.

Partindo de um epicentro na cidade de San Felipe, no noroeste do país, o impacto varreu a costa caribenha da Venezuela com força devastadora. A histórica cidade portuária e turística de La Guaira, onde vivem cerca de 200 mil pessoas, foi declarada zona de desastre.

Na capital Caracas, que fica a aproximadamente 30 km de La Guaira, prédios desabaram nos subúrbios outrora prósperos de Altamira, San Bernardino, Baruta e Chacao. O aeroporto nacional, Maiquetia, também foi fechado devido aos danos extensos.

Embora tenha havido alguns focos de resiliência, estima-se que dois terços dos residentes venezuelanos vivam em assentamentos informais. Isso é resultado da rápida urbanização da Venezuela nas décadas de 1960 e 1970 e da escassez de moradias que se seguiu.

Oficialmente, pelo menos 235 pessoas morreram e outras 30 mil estão desaparecidas. O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima que até 10.000 pessoas possam ter morrido em um desastre dessa magnitude.

Um mapa da Venezuela.
Um mapa da Venezuela.
Foto: The Conversation
Os dois terremotos atingiram o noroeste da Venezuela, com o impacto sentido ao longo da costa caribenha do país.Peter Hermes Furian / Shutterstock

Os terremotos acrescentam uma nova e trágica dimensão à crise humanitária já existente no país — uma crise que esgotou gravemente a capacidade do Estado e da sociedade venezuelanos de se prepararem e responderem a desastres naturais.

Os anos da presidência de Nicolás Maduro, que se estenderam de 2013 até sua destituição pelos EUA sob a mira de armas em janeiro de 2026, foram marcados pelo colapso econômico. A hiperinflação, a escassez de produtos e a repressão autoritária a protestos contribuíram para uma situação em que aproximadamente um quarto da população fugiu do país nos últimos anos.

A fragilidade econômica da Venezuela é, em última instância, resultado da incompetência política e da corrupção. Mas ela foi agravada pelas sanções financeiras e petrolíferas esmagadoras impostas pelos EUA durante o primeiro mandato de Donald Trump.

O regime abrangente de sanções fez com que, nos últimos nove anos, a Venezuela ficasse isolada dos mercados financeiros e de energia. Muitas de suas exportações e importações foram posteriormente bloqueadas.

Somado à contínua má gestão e ao subinvestimento em infraestrutura e serviços públicos que foram nacionalizados pelo antecessor de Maduro, Hugo Chávez, isso levou a um acúmulo de problemas que se estendem por todo o setor público. Entre eles estão hospitais com falta de medicamentos, pessoal, energia elétrica e água.

No momento, a energia e a atenção estão voltadas para os esforços de busca e resgate. Mas este é um momento politicamente delicado para a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Cada etapa da resposta humanitária traz sérios desafios logísticos.

Há escassez de equipamentos mecânicos para auxiliar nas operações de recuperação, em grande parte devido à falta de peças de reposição e de diesel. Há poucas ambulâncias, os hospitais estão sobrecarregados e os abrigos seguros para os deslocados são limitados. O acesso a alimentos e água potável está gravemente comprometido, e são previstas chuvas fortes.

Ao mesmo tempo, as Forças Armadas, a polícia e a guarda nacional da Venezuela estão em estado de alerta desde o retorno de Trump ao cargo. Seu foco principal tem sido respostas defensivas ao que, pelo menos até a captura de Maduro, era uma invasão militar dos EUA amplamente antecipada.

Isso ocorreu em detrimento do aprimoramento das habilidades necessárias para implementar a estrutura global "WASH" de resposta a desastres naturais, por meio do fornecimento de água potável, da construção de latrinas de emergência e da promoção de práticas de higiene seguras. Existe, portanto, um risco muito real de doenças e escassez de alimentos nos próximos dias e semanas, sem apoio externo urgente.

A possibilidade de desordem, saques e uma degradação ainda maior da situação de segurança é outra grave preocupação. Desde a destituição de Maduro, o setor de segurança pró-governo da Venezuela não foi testado por protestos ou manifestações da oposição.

Mas as cadeias de comando foram interrompidas na turbulência da mudança política, e a confiança do público nas Forças Armadas é baixa.

Os EUA têm a chave

Os EUA são o árbitro final da capacidade de resposta da Venezuela. Tendo assumido o controle da receita de exportação de petróleo da Venezuela após a tomada do poder com a captura de Maduro e ainda mantendo um regime de sanções, os EUA ditam quais recursos podem ser recebidos e como devem ser gastos.

E embora a Venezuela tenha exportado cerca de 100 milhões de barris de petróleo desde a destituição de Maduro, no valor estimado de US$ 8 bilhões (cerca de R$ 41 bilhões), o governo Trump não revelou publicamente quanto de receita realmente arrecadou.

Também não divulgou quanto dessa receita foi repassado aos poucos para Caracas. O acesso restrito a esses fundos impedirá o desembolso de ajuda financeira e humanitária às áreas afetadas pelo terremoto.

Trump anunciou que US$ 150 milhões em assistência serão mobilizados para a Venezuela e que os Departamentos de Guerra e de Estado dos EUA estão coordenando o apoio humanitário. Esses recursos têm que ser recebidos rapidamente para que a frustração popular com o processo de mudança de regime promovido pelos EUA não se transforme em revolta generalizada, e para que os planos dos EUA de deportar migrantes venezuelanos continuem em andamento.

Daqui para frente, sem dúvida haverá grande atenção voltada para o legado de corrupção e subinvestimento que tornou a Venezuela tão catastroficamente vulnerável e debilitada diante dos terremotos.

Isso inclui a qualidade dos edifícios entregues no âmbito da Gran Misión Vivienda Venezuela, a missão de construção de moradias lançada por Chávez em 2011, que afirma ter entregue mais de 1 milhão de novas moradias. Mas tal investigação será complexa, enfrentará resistência política e, atualmente, está bem baixo na lista de prioridades.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Julia Buxton não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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