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Talibã sobrevive a cinco anos de isolamento e reconsolida poder no Afeganistão

15 ago 2026 - 07h27
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Desde que grupo voltou ao poder em agosto de 2021, conflitos armados arrefeceram e direitos das mulheres foram desmantelados. Governo só é reconhecido pela Rússia, mas outros poderes mantêm laços pragmáticos com Cabul.Nos cinco anos desde o retorno do Talibã ao poder, que se completam neste sábado (15/08), o aniversário da queda de Cabul, o Afeganistão assistiu ao arrefecimento dos conflitos armados e à estabilização do contexto de segurança. Mas as restrições impostas a mulheres e meninas, somadas às preocupações ligadas ao terrorismo, comprometem as perspectivas de longo prazo no país, na avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU).

Afeganistão experimentou estabilização da segurança interna sob cinco anos de Talibã
Afeganistão experimentou estabilização da segurança interna sob cinco anos de Talibã
Foto: DW / Deutsche Welle

Pouco mais da metade das mulheres afegãs (52%) agora sai de casa apenas uma ou duas vezes por mês, apontaram dados divulgados nesta semana pela ONU Mulheres. Elas vivem no único país a proibir meninas de frequentar o ensino médio e mulheres de irem às universidades. Em contraste, 96% dos homens disseram deixar suas residências diariamente.

"Meia década após a tomada do poder pelo Talibã, em agosto de 2021, o Afeganistão desmontou sistematicamente os direitos de metade de sua população, tornando-se um caso isolado no mundo, sem paralelo na era moderna," afirmou, em comunicado, a agência dedicada à promoção da igualdade de gênero.

Segundo a Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (Unama), as restrições geram custos sociais e econômicos, sendo um dos principais obstáculos para a ampliação das relações internacionais do governo afegão e a atração de investimentos. Isso apesar de a redução dos conflitos ter aberto oportunidades de recuperação econômica e de costura de alianças regionais.

"A paz e a prosperidade sustentáveis exigem mais do que a ausência de conflito", afirmou em comunicado de sexta-feira Georgette Gagnon, representante especial adjunta da ONU para o Afeganistão e chefe interina da Unama. As limitações ao espaço cívico e à liberdade de expressão também reduzem a capacidade do país de se beneficiar da cooperação internacional, de acordo com a Unama.

O Afeganistão continua politicamente fechado, sem eleições nem Parlamento eleito, outro ponto sensível para a comunidade internacional. As principais decisões se concentram em torno do líder supremo talibã, Hibatullah Akhundzada. Não há oposição com capacidades para disputar o poder, enquanto os meios de comunicação trabalham sob fortes restrições.

Exclusão das mulheres

Desde que voltou ao poder em agosto de 2021, o Talibã impediu cerca de 2,4 milhões de afegãs de frequentar o ensino médio, reportou nesta semana a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

As autoridades emitiram mais de 100 decretos voltados contra mulheres e meninas desde que assumiram o poder, institucionalizando a discriminação e aprofundando o que a ONU Mulheres classifica como a mais grave crise de direitos das mulheres no mundo.

Medidas adotadas neste ano aboliram a igualdade jurídica entre homens e mulheres perante a lei, reforçaram a autoridade masculina dentro do casamento e dificultaram o acesso das mulheres ao divórcio. O Talibã sustenta que respeita os direitos das mulheres de acordo com sua interpretação da lei islâmica e da cultura afegã.

As mulheres também seguem amplamente excluídas da economia. Apenas 7% delas estão empregadas, em comparação com 84% dos homens, ainda segundo a ONU Mulheres.

Crise humanitária e endividamento

Além disso, o Afeganistão vive uma crise humanitária. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) calculou que 47% dos menores de idade apresentavam quadro de desnutrição no primeiro trimestre deste ano.

A situação é agravada pela falta de financiamento dos programas internacionais de ajuda, pelas colheitas insuficientes em decorrência das secas e pelo retorno de quase 5,9 milhões de pessoas ao país desde setembro de 2023.

Ao mesmo tempo, o Talibã conseguiu evitar o colapso que muitos previam como consequência do seu isolamento. A economia cresceu 4,8% em 2025, segundo o Banco Mundial — o que, entretanto, não foi suficiente para absorver o aumento da população, levando a uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Assim, o Afeganistão produz mais do que há alguns anos, enquanto seus habitantes dispõem, em média, de menos recursos. A contradição se reflete nos lares, onde mais de 80% das famílias estão endividadas e a ampla maioria não consegue atender às necessidades básicas.

Ambiguidade diplomática

Homens que, há cinco anos, figuravam em listas de sanções e recompensas internacionais hoje ocupam gabinetes do governo. Antigos comandantes da insurgência talibã recebem delegações estrangeiras, assinam concessões de mineração e negociam acordos de repatriação com autoridades europeias.

A Unama pede à comunidade internacional que mantenha uma relação "pragmática e baseada em princípios" com as autoridades talibãs, argumentando que o diálogo continua sendo necessário para a estabilidade doméstica e uma eventual reintegração do Afeganistão a nível global.

O regime construiu relações de trabalho com diversos países, incluindo membros da União Europeia (UE) e Reino Unido, para tratar, entre outros, da contenção às ameaças jihadistas. A melhora da segurança interna convive com o terrorismo, uma fonte de tensão com os países vizinhos.

Mas só a Rússia reconhece oficialmente o governo talibã. Muitos países ocidentais condicionam qualquer passo nessa direção à implementação de reformas internas, especialmente na área dos direitos humanos.

Neste ano, autoridades do Tajiquistão, Turcomenistão, Quirguistão, Uzbequistão e Cazaquistão se reuniram em Cabul. Os países da Ásia Central, sem acesso ao mar, buscam rotas comerciais através do Afeganistão para alcançar portos marítimos.

A China, por sua vez, mantém contatos diplomáticos e econômicos regulares com o governo talibã. Já a Índia, que evacuou sua embaixada em agosto de 2021, primeiro restabeleceu a presença técnica, antes de voltar a elevar sua representação ao status de embaixada em 2025.

O Talibã, assim, reduz seu isolamento a cada novo movimento de aproximação diplomática. Ao mesmo tempo, possibilita a seus interlocutores evitar assumir o custo político de uma normalização plena.

O primeiro "Emirado talibã" durou cinco anos, entre 1996 e 2001, e terminou com a invasão americana do Afeganistão. O segundo, iniciado quando o Talibã tomou Cabul numa ofensiva relâmpago contra o governo apoiado pelos Estados Unidos, está prestes a superar essa marca.

ht (EFE, AFP, Reuters, dpa)

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