Sírios refugiados no Líbano voltam para a Síria fugindo da guerra
Mais de 1 milhão de sírios encontraram no Líbano refúgio nos anos de guerra civil. Agora, com os ataques de Israel ao Líbano, centenas de milhares têm retornado a um país sem Bashar al-Assad, mas muito precarizado.Bombardeios obrigaram o sírio Imad Omar Qashit a abandonar sua casa mais uma vez. Há 14 anos, ele fugiu da Síria para o Líbano. Desta vez, ele fez o caminho contrário.
"Quando mísseis israelenses destruíram casas inteiras no meu bairro, na cidade de Tiro, no sul do Líbano, decidimos que era hora de salvar nossas vidas novamente", disse o homem de 52 anos à DW.
No início de março, o Líbano foi arrastado para a guerra contra o Irã depois que o grupo local Hezbollah, apoiado pelo Irã, disparou foguetes contra Israel, supostamente em retaliação ao assassinato do líder iraniano.
Na quinta-feira (16/04), um cessar-fogo de dez dias entre Israel e o Líbano foi mediado pelos Estados Unidos. Até então, mais de 227,5 mil pessoas haviam cruzado os três pontos oficiais de passagem do Líbano para a Síria, de acordo com os números mais recentes da Organização Internacional para as Migrações (OIM) das Nações Unidas. A grande maioria, 95%, era de sírios, enquanto 5% eram cidadãos libaneses.
As autoridades de saúde do Líbano afirmam que o número de mortos nos ataques de Israel à milícia do Hezbollah é de cerca de 2.196. O ministério não fornece uma divisão por nacionalidade, e as estimativas de quantos sírios estão entre os mortos e feridos variam amplamente, de 39 a 315. De acordo com a agência da ONU para refugiados, Acnur, mais de 1 milhão de refugiados sírios ainda estão registrados no Líbano, fora os milhares que permanecem sem documentação e, por isso, fora das estatísticas oficiais.
Crise prolongada
Quando Qashit e sua família chegaram de volta à sua cidade natal, Maarat al-Numan, perto de Aleppo, encontraram sua casa completamente destruída. Era o resultado da guerra civil no país, encerrada em dezembro de 2024, depois que uma coalizão de grupos rebeldes derrubou Bashar al-Assad, que permaneceu 24 anos no poder.
"Não há casas para alugar, pois a cidade inteira está destruída", disse Qashit à DW. Por enquanto, eles estão hospedados na casa da irmã dele.
Outro sírio, Mohammad Jassem al-Brouk, fugiu dos ataques israelenses no Líbano há duas semanas. "A passagem de fronteira estava extremamente lotada e levou um dia inteiro para atravessar", disse à DW.
Quando finalmente chegou à casa de sua família na cidade de Qusair, perto de Homs, ele encontrou apenas os escombros da casa. Sem outra opção, Brouk desmontou a barraca que trouxera do campo de refugiados no Líbano, montou-a e agora vive nela. Apesar da falta de moradia, ele não tem intenção de voltar para o Líbano.
No início de abril, uma pesquisa realizada pela Acnur revelou que cerca de metade dos sírios entrevistados também afirmaram que pretendem permanecer a longo prazo na Síria, apesar dos desafios econômicos e dos serviços públicos limitados.
"Os sírios estão voltando porque o Líbano se tornou inviável, não porque a Síria esteja pronta para recebê-los", resume Nanar Hawach, analista sênior para a Síria do International Crisis Group. "O governo consegue controlar a fronteira, mas não tem resposta para o que acontece depois disso." Na opinião dele, a leva de centenas de milhares de repatriados não deve ser interpretada como um sinal de que as condições dentro da Síria melhoraram.
O legado da guerra
A Síria continua a lutar contra o legado de mais de uma década de conflito. Apesar do levantamento das sanções e do retorno da Síria à comunidade internacional, confrontos sectários e instabilidade política ainda agravam os problemas do país.
Os serviços básicos, incluindo educação, saúde e infraestrutura, continuam limitados, e a situação humanitária para cerca de 26 milhões de pessoas é desastrosa. A avaliação de danos do Banco Mundial estima os custos totais de reconstrução em cerca de 216 bilhões de dólares (cerca de R$ 1,1 trilhão).
De acordo com a ONU, cerca de 15,6 milhões de sírios precisam de assistência humanitária, e 13,3 milhões vivem em situação de insegurança alimentar. Uma grave seca em 2025 devastou 95% das culturas de sequeiro (dependentes da água da chuva, sem irrigação artificial), observa o relatório de avaliação da segurança alimentar da ONU de 2025.
"A Síria já se encontrava em uma crise humanitária prolongada antes dessa nova onda de retornos", disse Hiba Zayadin, pesquisadora sênior da divisão do Oriente Médio e Norte da África da Human Rights Watch, à DW. "Simplesmente não há infraestrutura para absorver um grande número de pessoas, muitas das quais partiram sem nada e estão retornando para a mesma situação."
Risco de artefatos não detonados
Mas essas não são as únicas questões. A Síria também é um dos países mais contaminados do mundo quando se trata de resíduos explosivos. "Anos de bombardeios aéreos, combates terrestres e o uso de munições de fragmentação em várias províncias deixaram vastas áreas repletas de munições não detonadas, minas terrestres e dispositivos explosivos improvisados", continuou Zayadin.
"O perigo é muito real", confirmou Iain Overton, diretor executivo da organização britânica Action on Armed Violence (AOAV), que registra evidências de violência armada contra civis em todo o mundo.
Ele também alertou que a contaminação por munições não detonadas continua particularmente grave em áreas que passaram por combates prolongados e mudanças nas linhas de frente, incluindo partes de Raqqa, Deir el-Zour, Aleppo, Idlib e as zonas rurais de Homs e Hama.
"Essas são precisamente as áreas para as quais muitos refugiados estão retornando", disse Overton à DW, acrescentando que crianças e repatriados que não estão familiarizados com ambientes contaminados são especialmente vulneráveis.
"Mesmo sem conflitos em curso, o legado da violência explosiva continua a matar e ferir", disse Overton, acrescentando que a tendência está piorando. Em 2024, a AOAV registrou 238 incidentes com munições não detonadas, causando 508 vítimas. Destas, 479 eram civis. Em 2025, esse número aumentou drasticamente para 794 incidentes e 1.537 vítimas, sendo 1.424 civis.
Para Qashit e sua família, que retornaram recentemente do Líbano, essa é apenas mais uma coisa com que se preocupar. "Meus filhos não reconheceriam minas não detonadas ao brincar ao ar livre."
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