Rodei 1.300 km entre SP e RJ com um carro elétrico e a bateria não foi o problema
Volvo EX90 mostra que é plausível ir de São Paulo ao Rio de Janeiro sem recarregar, mas que a viagem elétrica ainda cobra tempo nos eletropostos
Em teste de 1.300 km entre São Paulo e Macaé (RJ), o elétrico Volvo EX90 provou que a autonomia já permite viagens longas, cumprindo o trajeto SP-Rio sem recargas. O SUV destacou-se pelo conforto, silêncio e eficiência energética equivalente a 40,5 km/l. Contudo, a infraestrutura ainda dita o ritmo: foram necessárias três recargas, somando R$ 693,55 e 4h15 parado. A experiência mostra que a bateria não é mais o grande problema em viagens, mas sim o planejamento e o tempo de espera nos eletropostos.
Viajar de carro elétrico ainda é uma pequena prova de confiança. Não exatamente no carro, mas na soma entre autonomia, planejamento, carregadores disponíveis, tempo de espera e o 'FOMO' natural de ver a porcentagem da bateria caminhando rumo ao zero.
Por isso, o teste feito pelo Jornal do Carro com o Volvo EX90 trabalhou um roteiro mais realista do que um simples passeio urbano. Saímos de São Paulo, cruzamos a Dutra para chegar ao Rio de Janeiro e, depois, seguimos até Macaé (minha cidade natal) para passar dois dias no município e voltar para casa.
A bateria de 111 kWh e autonomia de 459 km segundo o Inmetro chegou ao Rio de Janeiro com 16% restantes, o que reforça uma conclusão relevante para quem ainda enxerga o elétrico como carro estritamente urbano. Em condições reais de estrada, é plausível fazer o trecho entre as duas maiores cidades do país sem parar em eletroposto.
Só que a minha viagem não acabava no Rio. O destino final era Macaé, Norte Fluminense, cerca de 186 km adiante. Esse detalhe muda bastante a história, porque transforma uma viagem SP-RJ, de pouco mais de 430 km, em um deslocamento até o interior do Estado, já na casa dos 600 km.
A infraestrutura no trecho da BR-101 que liga Rio de janeiro e Macaé ainda é algo incipiente. Por isso, e por ter apenas 16%, optei por parar na Zona Sul da capital para fazer uma recarga em estação rápida de 120 kW. O Volvo EX90, bom frisar, suporta carregamento em corrente contínua de até 250 kW, podendo garantir um 10% a 80% em 30 minutos.
No entanto, o que é vendido pelas especificações técnicas nem sempre se aplica ao mundo real. Para recuperar de 16% a 100% de alcance, o Volvo EX90 teve de ficar por 96 minutos na estação. Ou seja, minha "pausa para o lanche" passou da 1 hora e meia.
Muitos baldes de café depois, retomei o volante e rodei os 186 km restantes até Macaé. Cheguei à cidade que atende sob a alcunha de 'Princesinha do Atlântico' com 42% de autonomia. E olha que trabalhei direitinho a aplicação de peso no pedal do acelerador.
Conforme mencionei anteriormente, rodei por dois dias na cidade litorânea. Quando jovem tinha ojeriza ao aspecto provinciano de Macaé, admito. Todos sabem o que você come, com quem você dorme e de quem você herdou os genes -- sejam recessivos ou dominantes.
Mas é aquilo. O tempo passa. Nada como uns anos afastado para reconsiderar certas coisas. Tenho, hoje, relação agridoce com a cidade. Evito passar em frente às residências das namoradas da adolescência (e da idade adulta também), mas gosto de circular pelas Praias dos Cavaleiros e do Pecado, pela Lagoa de Imboassica e até mesmo esticar no belo Mar do Norte.
Por isso, rodei 104 km na cidade. Ou seja, antes de tomar o caminho de volta parei em estação localizada em posto no bairro da Cancela Preta. Sob chuva fina, esta recarga de 21% a 100% levou 77 minutos para ser completada.
No retorno, 'toquei' até Itatiaia, no Sul Fluminense, e decidi parar em uma das estações do Graal com 18%. Esta última pausa para recarga até 100% tomou 82 minutos de viagem.
Encarei trânsito muito, muito pesado na Dutra e cheguei em casa com 26%. Nesse ponto, o elétrico joga a favor. No anda e para, há menos desperdício de energia do que em um carro a combustão.
O consumo médio ficou em 22 kWh/100 km. Traduzindo para uma linguagem mais familiar ao consumidor, isso dá cerca de 4,5 km/kWh. Em equivalência energética, considerando aproximadamente 8,9 kWh por litro de gasolina, o número corresponderia a algo em torno de 40,5 km/l. Não é uma comparação direta de custo, mas ajuda a dimensionar a eficiência energética do conjunto.
O custo, por sua vez, mostra outra parte da realidade. Foram três recargas em estações de 120 kW: uma de R$ 265,96, com 96 minutos de parada; outra de R$ 237,28, com 77 minutos; e uma terceira de R$ 190,31, com 82 minutos. Somadas, as cobranças deram R$ 693,55 e 255 minutos conectado ao carregador, ou 4h15 parado ao longo da experiência.
É aí que aparece a grande diferença entre a ficha técnica e o uso real. O EX90 tem bateria grande, boa autonomia e capacidade de carregamento rápido, mas a velocidade efetiva depende da potência da estação, da curva de recarga, da temperatura da bateria e do percentual inicial e final de cada parada. Em resumo, o carro está pronto para jornadas mais longas, mas a infraestrutura ainda dita o ritmo.
Também vale uma ressalva importante. Eu viajei sozinho e isso, evidentemente, favorece o consumo. Não havia mais ocupantes a bordo, nem excesso de bagagem. Em um carro de 2.712 kg, qualquer variação de peso, uso do ar-condicionado, velocidade média, relevo e trânsito pode mudar o resultado.
A bordo, porém, o Volvo EX90 faz a parte dele com sobras. O SUV é daqueles carros que tornam a viagem muito melhor. Trata motorista e passageiros com um nível de conforto que muda a percepção de tempo.
Os bancos dianteiros têm ajustes elétricos, memória, aquecimento, ventilação e função de massagem, o que faz diferença real depois de 300 km ou 400 km de estrada. A posição de dirigir também ajuda. É alta, ampla e com boa visibilidade.
O EX90, bom dizer, vem com suspensão a ar, capaz de adaptar a altura da carroceria conforme a condição de uso. Em uma viagem longa, o efeito prático é notório. O SUV filtra bem irregularidades, passa sensação de controle e não cansa o motorista.
O silêncio interno é outro dos pontos altos do EX90, tanto pelo baixo ruído do conjunto elétrico quanto pelo bom trabalho de vedação acústica. Some a isso ar-condicionado digital de quatro zonas, teto panorâmico e sistema de som Bowers & Wilkins, e o resultado é um automóvel que transforma deslocamento longo em uma experiência muito menos desgastante.
Além disso, a direção elétrica garante boa progressividade, enquanto a suspensão e a tração integral trabalham para equilibrar conforto, estabilidade e eficiência. Para completar, mesmo com muita força disponível, o EX90 prefere entregar uma condução linear, estável e previsível.
E força, amigo, é o que não falta. O Volvo EX90 vem com dois motores elétricos que rendem 517 cv de potência e 91 kgfm de torque. A aceleração de 0 a 100 km/h em 4,9 segundos está ali, disponível, mas não é o ponto central da experiência. Em uma viagem como essa, o que mais importa é a forma como o carro transforma centenas de quilômetros em uma sequência menos cansativa.
O EX90 mede 5,03 metros de comprimento, 2,11 m de largura, 1,74 m de altura e 2,98 m de entre-eixos. É um SUV de ótimo porte, com cabine ampla e proposta familiar. Ao mesmo tempo, as dimensões cobram atenção em manobras, vagas apertadas e uso urbano, especialmente em uma cidade de ruas mais estreitas e trânsito intricado como Macaé.
A central multimídia com tela vertical de 14,5 polegadas concentra boa parte dos comandos, há painel digital de 9 polegadas, head-up display, Google integrado, Apple CarPlay, além de um pacote robusto de assistências de condução.
O porta-malas tem capacidade para 697 litros. Como eu estava sozinho, esse latifúndio sobrou. Mas, para uma viagem em família, especialmente para quem vai ao interior, leva mala, sacola, compra, presente e sempre volta com mais coisa do que levou, o número passa a ser parte importante da equação.
No fim, a viagem deixou duas respostas. A primeira é de que sim, já dá para ir de São Paulo ao Rio de Janeiro com um carro elétrico sem recarregar. Pelo menos, claro, em um modelo com a capacidade do Volvo EX90 e em uma condição favorável.
A segunda é de que para ir além, como fiz até Macaé, o planejamento continua obrigatório. Não por medo de ficar parado no acostamento, mas porque cada recarga ainda precisa entrar na conta do tempo total de viagem.
O Volvo EX90 prova que autonomia não é mais a vilã absoluta. O SUV entregou conforto exemplar, rodou mais de 1.300 km sem drama e mostrou que o uso real pode se aproximar bastante do prometido quando há bateria suficiente, planejamento e uma condição de carga menos exigente. O único porém, ao menos por ora, são os minutos perdidos no caminho.
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