Reerguer Ucrânia custará US$ 588 bilhões, diz Banco Mundial
No quarto aniversário da invasão russa, prejuízo da guerra chega a um terço do PIB de 2025. Governo se vê sob pressão para assinar acordo de cessar-fogo.Prestes a entrar no seu quinto ano, a guerra deixa um rastro de destruição cada vez maior na Ucrânia. A reconstrução deverá custar 588 bilhões de dólares (R$ 3 trilhões) ao longo de uma década, de acordo com a mais recente estimativa oficial, publicada nesta segunda-feira (23/02), véspera do quarto aniversário da invasão russa.
O valor é quase três vezes o Produto Interno Bruto (PIB) nominal do país em 2025, que desconsidera a inflação. Em comparação ao mesmo cálculo do ano passado, houve aumento de 12%, puxado em parte pelo sistemático desmantelamento da infraestrutura energética pela Rússia.
O novo estudo coassinado por Banco Mundial, Organização das Nações Unidas (ONU), Comissão Europeia e o governo ucraniano ainda não inclui a ofensiva russa contra o sistema de energia de 2026. Os ataques deixaram dezenas de milhares de pessoas sem aquecimento, eletricidade e água no inverno mais frio em décadas.
De acordo com a estimativa, a quinta publicada desde o começo da guerra, os danos diretos em quatro anos equivalem a 195 bilhões de dólares (R$ 1 trilhão). O valor é mais que o dobro em comparação ao cálculo de 2022, o primeiro ano do conflito. Os setores mais afetados são moradia, transporte e energia.
"O dano é imenso e aumenta continuamente", disse o relatório. Os prejuízos se concentram no Leste da Ucrânia e na região ao redor da capital, Kiev. Cerca de 75% dos danos foram registrados nas áreas de linha de frente do conflito
Pressão por cessar-fogo
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, enfrenta crescente pressão dos Estados Unidos para aceitar um acordo de cessar-fogo, com dolorosas concessões de territórios capturados pelas forças russas. Negociações da semana passada falharam em alcançar uma decisão.
Em fevereiro de 2022, a invasão russa foi o estopim para o maior fluxo de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Mais de 6 milhões de ucranianos vivem fora do país, e outros 4,6 milhões estão deslocados internamente, afirmou o relatório.
A guerra também impôs um enorme custo à economia da Ucrânia, com seu PIB real (considerando a inflação) agora 21% menor em termos reais do que em 2021.
Se a guerra continuar neste ano, o crescimento do PIB da Ucrânia deve se limitar a 2%. O crescimento poderia subir modestamente para 4% em 2027 e 4,5% em 2028 se um cessar-fogo estivesse em vigor até o fim do ano.
"Em meio a ataques russos sem precedentes contra a infraestrutura energética e residências em toda a Ucrânia neste inverno, nosso povo demonstra resiliência, nossos empresários continuam trabalhando. Ainda conseguimos nos recuperar rapidamente e continuar nos desenvolvendo", disse a primeira-ministra da Ucrânia, Yulia Sviridenko.
Danos sociais e econômicos
Os danos foram maiores no setor habitacional, com 14% de todas as moradias danificadas ou destruídas — ou seja, cerca de 3 milhões de unidades. Em seguida, vêm as ferrovias e outros elementos do setor de transportes, que somaram 40,3 bilhões de dólares (R$ 200 bilhões) em danos, disse o relatório.
O setor de energia sofreu quase 25 bilhões de dólares (R$128 bilhões) em danos, com alguns cidadãos enfrentando interrupções no fornecimento de eletricidade de até 18 horas por dia.
O relatório estimou as perdas socioeconômicas em 667 bilhões de dólares (R$ 3,4 trilhões), um aumento de 13% em relação ao ano passado, refletindo a extensa e prolongada interrupção da atividade econômica, dos serviços públicos e dos empregos.
O governo da Ucrânia já vem adotando medidas para atender às necessidades de reconstrução, destinando 15,25 bilhões de dólares (R$ 78 bilhões) para este fim em 2026. O país e seus parceiros já gastaram 20,3 bilhões de dólares (R$ 105 bilhões) desde fevereiro de 2022 em reparos urgentes para vários setores, incluindo habitação.
Para Matthias Schmale, coordenador humanitário da ONU na Ucrânia, será fundamental para o futuro da Ucrânia tomar medidas que apoiem a população. Dentre elas, ele citou atrair refugiados de volta, reintegrar veteranos e ampliar a participação das mulheres na força de trabalho.
"O ativo mais crítico da Ucrânia são as suas pessoas", disse ele. "A recuperação deve ser centrada nas pessoas e baseada na comunidade."
Reforma na economia
A Ucrânia pode cobrir cerca de 40% de suas crescentes necessidades de reconstrução por meio do setor privado, prosseguiu o relatório, caso realizasse reformas específicas para atrair investimentos de capital em setores produtivos, como agricultura, indústria e turismo.
"O antigo modelo econômico da Ucrânia, com sua fraca concorrência, grande economia informal e forte presença do Estado, não gerará o dinamismo empresarial necessário para a recuperação", disse o relatório.
A União Europeia (UE) já sinalizou que continuará atuando no apoio à reconstrução da Ucrânia, incluindo pela mobilização de investimentos privados e pelo incentivo a reformas. Não há data clara, entretanto, para que a Ucrânia passe a integrar o bloco.
ht/ra (Reuters, dpa, ots)