Reduzir preços nos EUA, elevar na Europa: como funciona a nova estratégia de Trump para medicamentos
Lançamento da plataforma TrumpRx e acordos firmados com grandes farmacêuticas estão entre as táticas do governo para reduzir preços dos remédios no mercado interno
Em 5 de fevereiro de 2026, Trump lançou oficialmente a plataforma TrumpRx, apresentada como ferramenta para garantir descontos ao consumidor na compra de medicamentos prescritos por meio de cupons digitais utilizáveis em farmácias credenciadas. A plataforma redireciona pacientes a ofertas negociadas com fabricantes, prometendo reduções em relação aos preços de lista. A cobertura da imprensa destacou tanto a promessa de alívio imediato no custo de vida quanto dúvidas sobre o alcance real dos descontos, já que muitos se aplicam sobretudo a compras fora de planos de seguro.
O lançamento ocorre após uma série de acordos firmados ao longo de 2025 entre a Casa Branca e grandes farmacêuticas, entre elas Amgen, Bristol Myers Squibb, GSK, Merck, Novartis, Sanofi, Genentech, além de Pfizer e Eli Lilly. Segundo o governo, os entendimentos envolvem compromissos de adoção de referências de preço alinhadas ao princípio da Nação Mais Favorecida (MFN), ampliação de canais de venda direta e promessas de expansão da produção e de investimentos em território norte-americano. Os termos completos, porém, não foram divulgados. Parlamentares e organizações como a Public Citizen recorreram à Freedom of Information Act (FOIA) para solicitar acesso aos contratos, alegando que a falta de transparência impede avaliar o alcance efetivo das reduções anunciadas.
A estratégia havia sido antecipada semanas antes, em 21 de janeiro, no Fórum Econômico Mundial em Davos. Na ocasião, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos não continuariam "subsidiando o resto do mundo" no mercado farmacêutico. Segundo ele, os americanos pagam mais para que outros países paguem menos — um paralelo explícito com o debate sobre burden-sharing na segurança europeia. Haveria também um desequilíbrio na distribuição dos custos da inovação farmacêutica.
Trump argumentou que reduzir preços nos Estados Unidos exigiria rever o padrão internacional de precificação. Mencionou ter pressionado o presidente Emmanuel Macron e sinalizou a possibilidade de impor tarifas caso países europeus não aceitassem pagar mais pelos medicamentos. A política de saúde foi convertida, assim, em instrumento de pressão econômica internacional.
Essa ofensiva se apoia na reinterpretação do princípio da Nação Mais Favorecida. Tradicionalmente associado à não discriminação no sistema multilateral de comércio, o conceito passou a significar que empresas deveriam vender nos Estados Unidos pelo menor preço praticado em outros mercados desenvolvidos, sob ameaça de medidas comerciais ou regulatórias. O que se apresenta como política doméstica de redução de preços assume, desse modo, dimensão internacional: redefinir quem paga, sob quais condições e sob a influência de qual poder de mercado.
Por que os medicamentos são mais caros nos Estados Unidos?
Trump parte de um dado real: os Estados Unidos pagam entre 2,5 e 3 vezes mais por medicamentos de marca do que países comparáveis da OCDE. Essa diferença, porém, decorre de fatores estruturais internos.
O sistema americano é fragmentado e altamente intermediado. Fabricantes definem preços de lista elevados e negociam descontos confidenciais com Pharmacy Benefit Managers (PBMs), que administram benefícios para seguradoras e empregadores. O paciente, muitas vezes, paga com base no preço nominal. A ausência de negociação centralizada, como ocorre em sistemas nacionais europeus, reduz o poder de barganha agregado.
Além disso, o mercado americano funciona como principal plataforma de monetização inicial da inovação farmacêutica. Muitos novos medicamentos são lançados primeiro nos Estados Unidos, onde a escala e a rapidez regulatória permitem recuperar investimentos de alto risco em pesquisa e desenvolvimento. Parte relevante dessa inovação é financiada com recursos públicos, sobretudo pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Ainda assim, propostas recentes de contenção orçamentária tensionam essa base científica.
Ao atribuir o problema principalmente a um desequilíbrio externo, a Casa Branca desloca o foco da estrutura doméstica para a distribuição internacional de preços. A estratégia deixa de ser reforma interna do sistema de compras e passa a ser tentativa de redistribuir custos por meio de pressão externa.
Pressões sobre Big Pharma: reshoring e eleições
Ao longo de 2025, a política foi conduzida por meio de ordens executivas, cartas a CEOs e negociações que vinculavam redução de preços a compromissos de investimento produtivo doméstico. A precificação passou a caminhar paralelamente à reindustrialização.
Esse movimento ganhou base institucional com o National Biotechnology Initiative Act of 2025, que estruturou coordenação federal para fortalecer competitividade, segurança econômica e biomanufatura doméstica. O Act prevê incentivos à reconversão de parques industriais, mitigação de riscos em cadeias de suprimento envolvendo "foreign adversaries" e simplificação regulatória para acelerar escala produtiva. Ao enquadrar a biotecnologia como questão de segurança econômica, desloca também o eixo transatlântico do debate, convertendo decisões sobre produção e regulação em matéria de soberania estratégica.
A lógica se repetiu em outros setores. Em maio de 2025, Trump ameaçou a , Trump ameaçou a Apple com tarifas caso mantivesse produção no exterior, exigindo maior fabricação doméstica.
Em ambos os casos, o acesso ao mercado americano e a ameaça comercial funcionam como instrumentos de realinhamento corporativo. Em ano eleitoral, a estratégia cumpre dupla função: sinaliza ação contra o custo de vida e reforça a narrativa de reshoring e geração de empregos. O TrumpRx situa-se nesse cruzamento entre política social, política industrial e cálculo eleitoral.
O precedente remonta à Operation Warp Speed, que combinou financiamento público, aceleração regulatória e compromissos produtivos domésticos.
Reações internacionais e resistência doméstica
A proposta de "reequilíbrio" gerou resistência fora dos Estados Unidos. Governos europeus reiteraram que suas políticas de precificação são definidas por critérios nacionais de saúde pública e sustentabilidade fiscal. Há receio de que a compressão internacional de preços leve empresas a elevar valores iniciais ou priorizar lançamentos no mercado americano.
A Public Citizen ingressou com ação judicial para exigir a divulgação dos acordos firmados com Pfizer e Eli Lilly, alegando falta de transparência.
Nos Estados Unidos, a estratégia enfrenta críticas semelhantes. Parlamentares democratas divulgaram dados indicando aumentos de preços em centenas de medicamentos no início de 2026, apesar dos anúncios presidenciais. O senador Ron Wyden acusou o governo de não cumprir sua promessa. Os senadores Richard Durbin, Peter Welch e Elizabeth Warren enviaram carta ao Office of Inspector General do HHS questionando sobre possíveis conflitos de interesse e sobre a conformidade da iniciativa com normas anticorrupção. Para esses críticos, acordos executivos pontuais não substituem reforma estrutural do sistema de precificação.
O efeito global do MFN sobre preços e acesso
A aplicação do MFN incide diretamente sobre sistemas públicos europeus baseados em negociação centralizada e avaliação de custo-efetividade. Se o menor preço europeu passar a ancorar o mercado americano, empresas podem reagir elevando preços nesses países ou retardando lançamentos, pressionando orçamentos públicos e tensionando a sustentabilidade fiscal de sistemas universais de saúde.
Em escala mais ampla, a redução das diferenças internacionais de preços pode afetar estratégias de precificação diferenciada em países de renda média e baixa (tiered pricing). Iniciativas globais de acesso dependem de subsídios cruzados, nos quais preços mais altos em mercados desenvolvidos compensam valores reduzidos em países mais pobres, como ocorre na GAVI Vaccine Alliance.
Ao estreitar a margem para variações internacionais, políticas como o MFN não apenas redistribuem custos entre EUA e Europa, mas alteram o equilíbrio que sustenta o financiamento global da inovação e o acesso a medicamentos. O efeito potencial não é apenas comercial, mas estrutural: redefinir quem paga, quem negocia e sob quais condições o mercado farmacêutico opera internacionalmente.
De política doméstica de preços a instrumento de poder econômico internacional
À luz desses efeitos distributivos e das tensões já visíveis nas relações com aliados europeus, o TrumpRx deve ser compreendido menos como política setorial e mais como parte do projeto econômico de Trump para reposicionar os Estados Unidos na hierarquia global de formação de preços. Ao condicionar cortes domésticos a aumentos na Europa e vincular preços à ampliação da produção em território norte-americano, ele desloca o conflito do plano regulatório para o da coerção econômica direta.
Em vez de enfrentar as estruturas internas que sustentam preços elevados, como a fragmentação do sistema e o poder dos intermediários privados, o ajuste é projetado para fora. Sob ameaça de tarifas e retaliações, busca-se transferir a outros países parte dos custos absorvidos pelo mercado americano, aprofundando tensões transatlânticas e reintroduzindo assimetrias nas relações entre aliados.
A estratégia combina coerção comercial, exigências de reshoring industrial e cálculo eleitoral, convertendo o acesso ao mercado dos Estados Unidos em instrumento de disciplina externa. O TrumpRx integra um repertório mais amplo de pressão econômica no qual tarifas e restrições são mobilizadas para reordenar cadeias globais.
Esse movimento também responde às pressões internas geradas pela política tarifária de 2025, que alimentou inflação e elevou o custo de vida. Ao apresentar o TrumpRx como mecanismo de redução imediata de preços, Trump busca compensar os efeitos distributivos da guerra comercial e reposicionar-se politicamente diante do eleitorado afetado. A política de medicamentos opera, assim, como resposta econômica e instrumento de mobilização eleitoral.
Ao comprimir diferenças internacionais de preços por meio de pressão unilateral, o projeto altera o arranjo distributivo que sustenta tanto a rentabilidade da inovação quanto o financiamento cruzado do acesso global. O que está em disputa não é apenas o nível de preços, mas o controle das regras que organizam lucros, riscos e custos no sistema internacional.
Nesse sentido, o TrumpRx marca uma inflexão na economia política do setor farmacêutico: o uso explícito do poder de mercado dos Estados Unidos para impor ajustes externos e redefinir, sob lógica nacional, a distribuição internacional dos custos da inovação
Edna Aparecida da Silva não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.