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Redes sociais alternativas e novos conceitos de comportamento digital podem ensinar como resistir às big techs

Adotar práticas no dia a dia que levem a uma vida digital menos dependente das big techs é uma tarefa árdua, mas não impossível, e da qual pode depender a nossa soberania no futuro, como já mostraram as eleições de 2026

30 out 2026 - 06h59
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Resumo
A crescente influência das big techs na política e no comportamento social expõe ameaças à soberania digital e à autodeterminação informacional. Diante da manipulação algorítmica e da vigilância predatória, fortalece-se o movimento de resistência algorítmica. Essa resposta combina medidas defensivas, como a proteção da privacidade e o uso de navegadores seguros, a ações produtivas, a exemplo do letramento digital e da adesão ao Fediverso — redes abertas e comunitárias livres de controle corporativo.

Às vésperas das eleições de 2026, o debate sobre os interesses dos Estados Unidos de Donald Trump na política brasileira ganhou dimensões globais. Na briga política, econômica e ideológica que cercou a disputa pela presidência da segunda maior economia das Américas, algumas das redes sociais mais importantes do mundo não esconderam o esforço que fizeram para desequilibrar a disputa em favor de um dos lados.

A despeito do resultado final da disputa pela presidência, ficou evidente que a divulgação sem controle de desinformação e fake news de conteúdo político em redes como Facebook, Instagram e Whatsapp ajudou a eleger um Congresso Nacional, diversas Assembleias Legislativas e governos estaduais Brasil afora de perfil ultraconservador, e com forte presença de extremistas.

Foi o ápice até agora de uma agressão sistemática e silenciosa à soberania do país que vem ocorrendo através do poder dos algoritmos. Um movimento que não começou hoje nem vai acabar amanhã. Que já havia sido exposto, por exemplo, em 2023, quando o Google se posicionou publicamente contra o Projeto de Lei das Fake News, criticando-o em suas páginas de busca e investindo mais de R$ 500 mil em anúncios.

Se escândalos assim assustam, imagine os que ocorrem no silêncio dos mecanismos de distribuição e engajamento de conteúdo que regem essas plataformas? As mesmas que, já há alguns anos, usamos diariamente para buscar entretenimento, comunicação, trabalho e, cada vez mais, adquirir informação?

Estratégias que influenciam decisões

Pesquisas recentes já demonstram que as redes sociais das big techs contam com poderosas estratégias computacionais e de design capazes de moldar nossa atenção e influenciar decisões. Uma delas é o uso de interfaces que direcionam escolhas através do estímulo à rolagem infinita e dos conteúdos direcionados — conceito da ciência comportamental conhecido como digital nudging.

Outra estratégia é o uso de algoritmos - cada vez mais avançados e menos transparentes - que monitoram nossas ações dentro dessas plataformas a ponto de nos conhecer melhor do que nós mesmos - e então nos vender produtos, ideias e comportamentos com eficiência, alcance e controle jamais vistos.

Se todo esse cenário de vigilância influencia nossas micro-decisões cotidianas, inclusive políticas, o horizonte que se desenha não parece animador… A inteligência artificial estadunidense sendo imposta em cada pequeno software e dispositivo; a crescente construção de data centers que consomem quantidades massivas de energia e água; big techs se consolidando como monopólios que determinam quem tem voz nas plataformas digitais… É tudo tão opressor que nos deixa com a sensação de impotência em relação ao futuro. Certo?

Errado.

A resistência algorítmica existe e se fortalece

Nos últimos anos, muitos dos trabalhos sobre interação entre humanos e computadores dos quais participei como jornalista e militante de tecnologias abertas têm girado em torno da seguinte questão: que práticas podemos adotar no dia a dia para uma vida digital menos dependente das big techs? A tarefa é árdua, mas não impossível. Já há bons exemplos na busca desse ideal. Métodos didáticos que nos permitem começar imediatamente. Pelos celulares que estão dentro de nossos bolsos, ou sendo usados agora para ler este artigo.

Os acontecimentos recentes que ajudaram a alterar o destino das eleições para presidente no Brasil confirmam que a ideia de soberania digital nunca esteve tão presente no imaginário coletivo (o que é muito bom). Ainda assim, a expressão ainda guarda um conceito amplo e de múltiplas interpretações.

Um recente debate sobre o tema ocorrido entre pesquisadores do Ministério de Ciência,Tecnologioa e Inovação (MCTI) e do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos trouxe uma série de possíveis definições para soberania digital baseadas na literatura especializada.

Uma delas refere-se à "capacidade do estado de exercer controle jurídico, técnico e operacional sobre ativos digitais e infraestruturas críticas que desempenham papel essencial para o funcionamento da sociedade, da economia e da democracia brasileira, e que configura-se como elemento central para a preservação do direito à autodeterminação informacional, tanto em sua dimensão individual quanto coletiva."

Minha pesquisa refere-se especificamente ao chamado direito à autodeterminação informacional. Ele estabelece, em linhas gerais, que cada pessoa é sujeito ativo na gestão de suas informações, não mera fonte passiva de coleta de dados por empresas ou governos.

Embora a nossa Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) preveja este fundamento, faltam ainda medidas práticas e estruturais de conscientização, educação e proteção digital no Brasil. No entanto, movimentos que chamamos de resistência algorítmica têm nos apresentado possíveis caminhos.

Para as sociólogas Jocelyn Hollander e Rachel Einwohner, a palavra "resistência" refere-se a ações intencionais tomadas em oposição a um status quo, decorrentes da recusa de certo grupo de pessoas em se conformar com normas sociais impostas. Na esfera digital, Emiliano Treré e Tiziano Bonini, no livro Algorithms of resistance, definem "resistência algorítmica" como uma forma de "habitar as fissuras das infraestruturas algorítmicas", reafirmando que o pensamento humano pode e deve limitar a influência dos sistemas que tentam automatizar e manipular nosso comportamento.

A socióloga Stefania Milan classifica essa resistência em duas categorias: a "defensiva" e a "produtiva". A primeira foca na proteção das pessoas contra a infraestrutura de dataficação em andamento, e se divide nas seguintes abordagens: autodefesa, que utiliza VPNs, aplicativos criptografados e navegação anônima; subversão, focada em desestabilizar sistemas via sabotagem ou poluição de dados deliberada, e evitação, que define a recusa ou redução da presença digital na sociedade através de boicotes, ocultação de rostos em câmeras ou desconexão de plataformas predatórias.

Já a resistência produtiva visa à mudança das normas da sociedade orientada por dados. Engloba letramento (educação sobre privacidade e criptoparties), contra-imaginação (narrativas que contestam discursos algorítmicos) e campanhas de pressão política para mudar regras, informar o público e promover litígios estratégicos. Tais abordagens dialogam com movimentos sociais de paises em desenvolvimento, como o Brasil, que apoiam governantes e legisladores favoraveis a uma maior independência de tecnologias estrangeiras.

Escolha tecnológica como ato de soberania

Tais práticas nos incita a adotar o hábito da criticidade tecnológica, cujas escolhas podem ser melhor guiadas a partir de três pilares: proteção da privacidade através de softwares abertos auditáveis; contestação da manipulação informacional que influencia decisões políticas e de consumo; e recuperação da agência cognitiva dos usuários, impedindo que filtros e nudges digitais determinem o acesso ao conhecimento. Por exemplo, a simples troca de navegador em seu celular pode ser um excelente começo rumo à soberania nossa de cada dia.

Outra estratégia que une resistência defensiva e produtiva é o uso de servidores comunitários para criar infraestruturas digitais autônomas, com normas de governança próprias e design que reflita valores locais. Um exemplo é o Fediverso, conjunto de plataformas construído com software livre desde 2008 cujas redes sociais descentralizadas podem ser alternativas às das big techs. Com o protocolo ActivityPub, usuários em diferentes redes - que tem como exemplos a Mastodon, a Pixelfed e a Peertube) podem interagir livremente, via feed cronológico, sem algoritmos, anúncios ou vigilância.

No Brasil, perfis como o Organica.Social, uma das maiores instâncias criadas por movimentos sociais em 2025, possui regras estabelecidas pela comunidade. Não há uma empresa de código fechado que controla a postagem ou bloqueio de conteúdos — como ocorrido com o vídeo do Revelando Brasil —, mas um grupo de colaboradores que contribui ativamente na moderação mediante regras estabelecidas pela instância, sempre em diálogo com os usuários.

Tais exemplos tornam a soberania palpável: não trata-se de um destino técnico, mas construção cotidiana onde cada escolha consciente é um ato de resistência. A dependência estrangeira de décadas não será desfeita abruptamente, mas alternativas viáveis provam que o caminho é possível — pequenas práticas individuais e coletivas que, somadas, podem ajudar a reconfigurar o ecossistema digital brasileiro.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Rogério Bordini não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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