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Quase 40% dos deputados reeleitos foram fiéis a Lula e a Bolsonaro

31 ago 2026 - 17h15
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Resumo
Levantamento revela que 114 deputados reeleitos (quase 40%) mantiveram fidelidade às gestões de Jair Bolsonaro e Lula, apoiando o Planalto em ao menos 70% das votações. Ligado ao Centrão, o grupo garantiu vitórias cruciais em reformas econômicas e no orçamento para ambos os governos. No entanto, essa adesão caiu sob Lula em temas ambientais e do agronegócio, evidenciando o pragmatismo e a inclinação conservadora do bloco, que controla posições-chave e recursos no Congresso.

Dos 312 parlamentares que atuaram nas duas gestões, 114 acompanharam o Planalto em pelo menos 70% das votações. Apoio foi maciço em pautas econômicas, mas diminuiu em áreas como agricultura e segurança.Apesar de representarem agendas políticas muito distintas, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contaram com o apoio de um mesmo grupo de parlamentares para aprovar propostas do governo no Congresso. Levantamento da DW mostra que mais de um terço dos deputados que atuaram nos dois mandatos presidenciais acompanhou a orientação do Executivo em ao menos 70% das votações.

Ao todo, 114 parlamentares seguiram a orientação do Planalto nos dois períodos, de um universo de 312 que participaram de votações em ambos os governos, incluindo suplentes. Os votos pró-Lula foram calculados do início de sua terceira gestão até julho de 2026.

A fidelidade desse grupo supera com folga a média da Câmara. Eles acompanharam Bolsonaro em 89% das votações disputadas e Lula em 80%. Entre os demais parlamentares, os índices foram de 66% e 61%, respectivamente.

A adesão se concentrou nas pautas econômicas e de governabilidade e diminuiu em temas ligados a costumes, meio ambiente, defesa e questão fundiária.

O apoio foi decisivo para aprovar pautas centrais de cada gestão. Na reforma da Previdência, uma das principais vitórias do governo Bolsonaro, o grupo votou com o Executivo em 92% das ocasiões. No arcabouço fiscal, peça-chave da política econômica de Lula, a adesão chegou a 95%. Na reforma tributária, ficou em 92%. Nos três casos, os demais deputados registraram índices entre 66% e 70%.

A DW analisou 2.021 votações nominais realizadas nas duas gestões, envolvendo projetos de lei, leis complementares, PECs e medidas provisórias, em que houve ao menos 10% de divergência entre os votos, excluindo, portanto, deliberações praticamente consensuais.

Partidos sustentaram os dois governos

Consideradas as bancadas, sete partidos votaram com os dois presidentes em mais de 65% das votações disputadas. Lideram a lista Solidariedade (83% com Bolsonaro e 81% com Lula), Republicanos (92% e 71%), PSD (87% e 73%), Podemos (84% e 73%), PP (93% e 65%), Avante (74% e 80%) e MDB (84% e 69%). O União Brasil teve adesão menor a Lula, de 57%.

O cálculo reúne os votos dos deputados de cada partido em cada governo, considerando a legenda à qual pertenciam no momento da votação. Nos casos de fusões ou mudanças de nome, os votos foram atribuídos à sigla atual.

Juntas, essas legendas controlam cerca de 200 das 513 cadeiras da Câmara, mais do que PT e PL somados. Nenhuma lançou um candidato competitivo à Presidência da República nas eleições mais recentes. No Legislativo, porém, elas concentraram todos os presidentes da Câmara e do Senado desde 2019: Rodrigo Maia (DEM, atual União Brasil), Arthur Lira (PP), Hugo Motta (Republicanos), Davi Alcolumbre (DEM/União Brasil) e Rodrigo Pacheco (PSD).

O grupo também se destaca pela capacidade de reter seus quadros. Dos 114 deputados identificados no levantamento, 33 trocaram de partido entre o governo Bolsonaro e a legislatura atual. Em pelo menos 85% dos casos, as mudanças ocorreram dentro do mesmo bloco político. Houve migrações, por exemplo, do PP para o União Brasil, do Republicanos para o PSD e do PSC para o MDB. Apenas três parlamentares saíram efetivamente desse grupo, todos em direção à base governista de Lula, filiando-se ao PSB ou ao PDT.

A evolução do Centrão

A consolidação de um grupo de centro no Legislativo brasileiro remonta à Assembleia Constituinte de 1987. Organizado para frear propostas da Comissão de Sistematização, o bloco se apresentou como "centro democrático" e passou a compor a base de sustentação do governo José Sarney (1985-1990), explica o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

"Naquela época pegava mal falar que era de direita por conta da associação da direita com a ditadura militar. Quem era de direita se dizia de centro. Isso produziu um padrão que depois se perpetuou", afirma.

Presente nas negociações entre Executivo e Legislativo desde então, o grupo que hoje recebe o rótulo de Centrão ganhou novas características ao longo das décadas e passou a ocupar posição central num Congresso cada vez mais fortalecido.

Para a cientista política Graziella Testa, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o bloco ressurgiu com uma nova roupagem em 2015, durante a presidência de Eduardo Cunha na Câmara e o processo que culminou no impeachment de Dilma Rousseff. A partir daí, o Congresso ampliou seu poder sobre o Executivo, tanto pela capacidade demonstrada de afastar um presidente eleito quanto pelo controle crescente sobre a alocação de recursos orçamentários.

Como a DW mostrou, as mudanças nas emendas parlamentares ao longo da última década transferiram para a cúpula do Congresso protagonismo nas negociações com o Planalto. No governo Michel Temer(MDB), avalia Testa, a convergência entre Executivo e Legislativo foi mais natural, já que o presidente governava com apoio de sua própria base congressual.

Emendas de relator ampliam poder do Centrão

A autonomia do Centrão ganhou novo impulso a partir de 2019. No governo Bolsonaro, a execução obrigatória das emendas de bancada se somou à expansão das emendas de relator, mecanismo que ficou conhecido como Orçamento Secreto.

Nos primeiros anos de mandato, Bolsonaro optou por não formar uma coalizão tradicional. "Embora ele tenha trazido para dentro do governo pessoas de outros partidos, elas não estavam ali como representantes dessas legendas, mas como escolhas pessoais do presidente. Ele abdicava de coordenar o processo legislativo", avalia a cientista política Andrea Marcondes de Freitas, da Unicamp e pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop).

Para governar, Bolsonaro passou a depender da influência do então presidente da Câmara, Arthur Lira, que acumulou um nível de poder inédito no cargo. Em 2022, Lira chegou a patrocinar um grupo de trabalho para discutir a adoção do semipresidencialismo, ampliando o poder do Congresso, mas a proposta não avançou.

Lula enfrenta um cenário distinto. Embora tenha incorporado partidos de centro e de direita ao governo, isso não se traduziu automaticamente em apoio no Congresso, o que resultou em sucessivas crises de governabilidade.

Ideologia e fisiologia

Para Couto, o fortalecimento do poder do Centrão sobre o orçamento produziu um efeito paradoxal. "Como ele tem mais poder orçamentário, não depende tanto de fazer concessões substantivas ao Executivo para obter sustentação. Esse Congresso ultrafisiológico pode ser também mais ideológico porque não precisa fazer concessões. Então o cenário para um presidente desalinhado [ao Centrão] se torna ainda mais complicado."

Os especialistas concordam que, apesar do rótulo, o Centrão não atua como um bloco único. "A palavra Centrão dá uma ideia de coesão, mas esse centro não é nada coeso", afirma Freitas. "Isso permite que alguns desses partidos estejam com um governo, outros com o outro, sem que o conjunto completo esteja integralmente em qualquer um dos lados."

Na prática, diz ela, trata-se de um grupo de siglas dispostas a negociar independentemente com quem ocupa a Presidência da República. "Dentro desse grupo há evangélicos, representantes da bancada da bala e do agronegócio. Como o Congresso vota temas muito variados, existe a possibilidade de apoiar governos diferentes em pautas diferentes."

O levantamento da DW ilustra esse comportamento. Quando as votações são separadas por tema, a fidelidade dos 114 parlamentares aos dois governos permanece praticamente igual em algumas áreas e cai drasticamente em outras.

O grupo apoia as duas gestões em projetos ligados à indústria, comércio e serviços (95% com Bolsonaro e 94% com Lula), transportes (91% e 89%), finanças públicas e orçamento (90% e 89%) e trabalho (90% e 85%).

Em outras áreas, porém, o comportamento muda. Os índices de apoio a Bolsonaro superam 85% em temas como defesa, agricultura, meio ambiente e estrutura fundiária. Já no governo Lula, a adesão cai para 69% em meio ambiente, 50% em defesa, 36% em agricultura e apenas 16% em estrutura fundiária, categoria que inclui a demarcação de terras indígenas.

Do lado do vencedor

Para Testa, os números levantados pela DW mostram a capacidade do grupo de apoiar governos de diferentes orientações.

"Em alguns casos, pode render muitos votos apoiar Bolsonaro, ser extremamente conservador ou até reacionário na pauta de costumes, desde que isso implique ser eleito e levar recursos para sua base. Essa turma que era superfiel ao Bolsonaro pode vir a ser superfiel ao Lula."

Mas o cenário é assimétrico, diz Freitas. "Nenhum dos dois lados tem maioria no Legislativo, o que torna possível construir uma base com esse centro. Mas é importante lembrar que esse centro está um pouco mais à direita. Por isso, essa construção tende a ser mais difícil para um partido de esquerda do que para um partido de direita."

Às vésperas da disputa presidencial de 2026, nem Lula nem Flávio Bolsonaro conseguiram obter declarações explícitas de apoio desses partidos, que preferiram manter margem de manobra. "Republicanos e PP estavam com Jair Bolsonaro. Nesta eleição, não estão com Flávio Bolsonaro. É mais um sinal de para onde eles podem caminhar no próximo período", completa Couto.

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