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Quando a política adoece o cidadão: ansiedade, apatia e ataques de pânico aumentam durante campanhas eleitorais

Com as redes sociais, eleições extremamente disputadas podem gerar comportamentos de hipervigilância, preocupação constante em relação às pesquisas eleitorais, aos debates, às notícias e às possíveis consequências do resultado das urnas

14 out 2026 - 08h30
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Resumo
Disputas eleitorais marcadas por polarização e hostilidade afetam a saúde mental da população, provocando ansiedade antecipatória, insônia, alterações no apetite, apatia e até ataques de pânico em indivíduos vulneráveis. Estudos mostram que a sobrecarga de notícias e a incerteza geram estresse coletivo e prejuízos no cotidiano. Para mitigar esses impactos, especialistas recomendam limitar o consumo de informações, manter a rotina e buscar auxílio profissional se o sofrimento persistir.

As eleições constituem um dos momentos mais importantes da vida democrática. Entretanto, quando a disputa eleitoral se transforma em um confronto marcado por intensa polarização, hostilidade, desconfiança institucional e incerteza quanto ao futuro, seus efeitos podem ultrapassar o campo político e alcançar diretamente a saúde mental da população.

A expectativa de uma vitória ou derrota eleitoral, particularmente quando os indivíduos atribuem ao resultado consequências decisivas para suas condições de vida, pode desencadear manifestações significativas de ansiedade antecipatória, alterações do humor, apatia e, em indivíduos vulneráveis, ataques de pânico.

Ansiedade antecipatória

A ansiedade antecipatória caracteriza-se por um estado persistente de apreensão diante de acontecimentos futuros percebidos como ameaçadores ou imprevisíveis.

Em eleições extremamente disputadas, essa antecipação pode adquirir características de hipervigilância. Além disso, pode gerar preocupação constante em relação às pesquisas eleitorais, aos debates, às notícias e às possíveis consequências do resultado das urnas.

Sob a perspectiva neurobiológica, esse processo envolve circuitos cerebrais relacionados à detecção de ameaças, à regulação emocional e à avaliação da incerteza. E esse processo inclui a amígdala, a ínsula, o córtex pré-frontal e estruturas relacionadas à resposta ao estresse.

A ativação persistente desses sistemas pode contribuir para alterações autonômicas e neuroendócrinas, particularmente envolvendo o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

Embora essas respostas sejam inicialmente adaptativas, sua manutenção prolongada pode comprometer o equilíbrio emocional e o funcionamento cotidiano.

A expectativa ansiosa prolongada não se limita a sentimentos subjetivos de preocupação. Ela pode produzir repercussões cognitivas, emocionais, comportamentais e somáticas.

Entre as manifestações mais frequentes estão dificuldades de concentração, redução da capacidade de manter a atenção, irritabilidade, oscilações do humor, fadiga e alterações do sono.

A concentração pode ser prejudicada pela competição entre as demandas habituais da vida e os pensamentos recorrentes sobre o cenário político.

O indivíduo passa a consultar compulsivamente notícias, pesquisas e comentários nas redes sociais. E encontra dificuldade para se dedicar ao trabalho, aos estudos e às relações interpessoais.

A sobrecarga de informações, frequentemente contraditórias, pode intensificar a sensação de incerteza e favorecer interpretações catastróficas.

Alterações no sono, apetite e libido

As alterações do sono merecem atenção especial. A insônia inicial, caracterizada pela dificuldade de adormecer, pode resultar da persistência de pensamentos antecipatórios. Despertares noturnos, sono fragmentado e sensação de descanso insuficiente também podem ocorrer.

A privação de sono compromete a regulação emocional, aumenta a irritabilidade e reduz a capacidade de lidar com situações estressantes.

E esse comprometimento acaba estabelecendo um círculo de retroalimentação entre ansiedade e insônia.

Outras manifestações incluem alterações do apetite, tanto por redução quanto por aumento da ingestão alimentar, frequentemente associadas a mudanças no comportamento emocional.

A libido também pode sofrer modificações, particularmente redução do desejo sexual. E isso ocorre em decorrência da preocupação persistente, da fadiga, da tensão psicológica e das alterações do sono.

Entretanto, essas manifestações são inespecíficas e não devem ser automaticamente atribuídas ao contexto eleitoral sem uma avaliação clínica adequada.

Desinteresse, apatia e resignação

Entretanto, nem todos os indivíduos respondem à tensão política com maior ativação emocional. Alguns desenvolvem uma reação aparentemente oposta. Isto é, desinteresse, afastamento das discussões, redução da participação social e sensação de impotência diante dos acontecimentos.

Essa apatia pode representar uma resposta ao esgotamento emocional provocado pela exposição prolongada a conflitos e informações negativas.

Quando a pessoa percebe que não possui controle sobre acontecimentos considerados ameaçadores, pode surgir uma atitude de resignação ou desengajamento.

É importante, contudo, distinguir esse comportamento de manifestações clínicas de depressão, especialmente quando acompanhado de anedonia, perda persistente de motivação e prejuízo funcional.

Ataque de pânico

Em indivíduos predispostos, a tensão eleitoral também pode funcionar como fator precipitante de ataques de pânico.

Esses episódios caracterizam-se pelo surgimento abrupto de medo intenso ou desconforto. E pode vir acompanhado de manifestações autonômicas e cognitivas.

As manifestações podem incluir palpitações, sensação de falta de ar, tontura, tremores, sudorese e medo de perder o controle.

O ataque de pânico não significa necessariamente a presença de transtorno de pânico. Pode ocorrer em diferentes condições psiquiátricas e em situações de estresse intenso. Entretanto, a recorrência dos episódios, associada ao medo persistente de novas crises e a comportamentos de evitação, exige investigação clínica especializada.

Eleições estão afetando a saúde mental em todo o mundo

A relação entre eleições e saúde mental não constitui apenas uma hipótese teórica. Estudos científicos demonstram associações mensuráveis entre acontecimentos eleitorais, sofrimento psicológico e alterações do funcionamento cotidiano.

Uma investigação publicada na revista Economics & Human Biology, utilizando dados populacionais dos Estados Unidos, identificou aumento progressivo de sintomas moderados a graves de ansiedade e depressão. A pesquisa foi realizada nas semanas anteriores à votação seguido de redução após o pleito, durante as eleições presidenciais de 2020.

Os resultados sugerem que a expectativa eleitoral pode constituir um fator relevante de estresse psicológico coletivo. Mas não permite concluir que todos os sintomas observados tenham sido causados exclusivamente pelas eleições.

Outro estudo investigou 543 participantes residentes dentro e fora dos Estados Unidos durante o mesmo processo eleitoral.

Os pesquisadores observaram redução significativa da duração e da eficiência do sono, acompanhada de aumento do estresse e de emoções negativas. Esses resultados reforçam a associação entre acontecimentos políticos de grande repercussão e alterações do equilíbrio psicofisiológico.

É importante ressaltar que a literatura ainda não permite estimar com segurança a frequência de ataques de pânico, alterações da libido ou modificações do apetite especificamente atribuíveis às disputas eleitorais.

Tais manifestações são clinicamente plausíveis no contexto do estresse e da ansiedade, mas exigem investigações epidemiológicas específicas.

A prevenção dessas manifestações não implica afastamento da vida política ou indiferença diante dos acontecimentos nacionais. A participação democrática é legítima e pode representar uma importante expressão de pertencimento social.

O problema surge quando a experiência política passa a dominar continuamente os pensamentos, comprometer o sono, deteriorar as relações pessoais e transformar adversários em inimigos.

A exposição excessiva às redes sociais, particularmente a conteúdos alarmistas, informações falsas e discursos agressivos, pode ampliar a percepção de ameaça.

Estabelecer períodos definidos para acompanhar notícias, preservar atividades profissionais e recreativas, manter relações interpessoais e respeitar os horários de sono são medidas potencialmente protetoras.

Quando a ansiedade, a apatia ou os ataques de pânico se tornam persistentes e incapacitantes, é fundamental procurar avaliação profissional. A identificação precoce de transtornos de ansiedade, depressão e alterações do sono permite intervenções adequadas e reduz o risco de agravamento.

Finalmente, é necessário compreender que a democracia pressupõe divergências, mas não deveria exigir sofrimento psíquico permanente de seus cidadãos.

A capacidade de conviver com a incerteza é importante. Além disso, reconhecer a legitimidade das diferenças e preservar os vínculos humanos constitui não apenas uma virtude democrática, mas também um importante componente da saúde mental coletiva.

Uma eleição decide os rumos políticos de uma nação, mas não deveria determinar o equilíbrio emocional de seus cidadãos. A preservação da saúde mental precisa estar acima das disputas partidárias.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Antonio Egídio Nardi recebe financiamento da FAPERJ, CNPq, CAPES.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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