Proliferação de drones fortalece autonomia de grupos aliados do Irã
Produção própria de drones, transferência de tecnologia e treinamento promovidos pelos iranianos têm permitido que aliados regionais do regime operem com muito mais independência, mudando dinâmicas militares.Quando os Estados Unidos e Israel começaram a atacar o Irã no fim de fevereiro, iniciando a guerra em curso, esperavam enfraquecer tanto a República Islâmica quanto seu chamado "Eixo da Resistência" no Oriente Médio. O bloco reúne grupos paramilitares aliados de Teerã, como o Hamas, em Gaza, o Hezbollah, no Líbano, os houthis, no Iêmen, e milícias no Iraque.
A premissa era que "um ator externo poderia provocar um colapso catastrófico no regime iraniano e em sua rede de aliados no Oriente Médio" ao atingir "os líderes certos, instalações de armas e linhas de abastecimento", definiu Peter Salisbury, pesquisador do centro de estudos americano Century International e principal autor do relatório recém-publicado "Beyond the Axis" ("Além do Eixo").
Apesar de os EUA e Israel terem alcançado muitos desses objetivos militares, as forças iranianas conseguiram continuar lançando ataques com drones contra países do Golfo vizinhos e embarcações no estreito de Ormuz. Seus aliados no Líbano e no Iêmen intensificaram retaliação contra Israel e ataques contra a navegação comercial no mar Vermelho.
Autonomia operacional
Alguns estudiosos questionam a definição corrente desses países como "representantes" do Irã (em inglês, "proxies"). O termo sugere uma relação de comando e controle entre Teerã e os integrantes desse eixo, o que não acontece, segundo Wolf-Christian Paes, pesquisador associado do think tank International Institute for Strategic Studies e um dos colaboradores do relatório "Beyond the Axis".
"A proliferação de drones é um bom exemplo disso", disse à DW. Há alguns anos, Teerã transferiu sistemas completos e o treinamento necessário a seus aliados. "Hoje essas milícias conseguem fabricar seus próprios drones, com base em projetos iranianos, mas com a maior parte das peças vinda de países que não o Irã", afirmou Paes.
Segundo o relatório, publicado após dois anos de pesquisa, esses grupos conseguem adquirir diretamente de fabricantes chineses grandes quantidades de motores para o drone Shahed-136.
"A tecnologia de uso dual [que pode ser usada tanto para fins civis como militares] já é difícil de controlar por natureza. Sem um centro tradicional de contrabando, rastrear a cadeia de suprimentos é como procurar uma agulha em um palheiro", disse Paes à DW, acrescentando que China, Rússia e também Omã não fizeram até agora esforços efetivos para controlar a circulação desses itens.
De acordo com o documento, os incidentes de conflito envolvendo drones em todo o mundo passaram de 140 em 2016 para mais de 58 mil em 2025, um aumento de 41.000%.
Mudança nos vínculos
"A capacidade crescente dos parceiros do Irã de fabricar e operar drones de forma independente também está mudando a natureza de sua relação com Teerã", afirmou à DW Neil Quilliam, pesquisador associado do programa para Oriente Médio e Norte da África do centro de estudos britânico Chatham House.
Na avaliação dele, a milícia houthi no Iêmen ilustra essa tendência. O grupo agora possui um nível de autonomia operacional que seria difícil imaginar há uma década. "O Irã e o Hezbollah libanês ajudaram a estabelecer as bases dos programas de drones e mísseis dos houthis, enquanto anos de conflito e isolamento os obrigaram a desenvolver capacidades de produção doméstica", disse à DW.
Durante a guerra em Gaza, de 2023 a 2025, os houthis atacaram Israel e também a navegação internacional no mar Vermelho com drones e mísseis, uma demonstração de apoio aos palestinos em Gaza. Durante a guerra no Irã, entre fevereiro e abril de 2026, os houthis retomaram os ataques.
O relatório observa ainda que, desde pelo menos 2022, um pequeno grupo de oficiais houthis de alto escalão em Sana construiu relações ao longo das costas africanas do mar Vermelho e do golfo de Áden. "Redes de contrabando houthi estão agora presentes na Somália, Djibuti, Eritreia e Sudão", afirma o documento.
A milícia Hezbollah, no Líbano
Durante muitos anos, o Hezbollah libanês foi o aliado mais bem equipado de Teerã, em grande parte devido à proximidade geográfica com Israel. Um dia depois de o Hamas atacar Israel, em 7 de outubro de 2023, o Hezbollah abriu uma segunda frente no norte israelense, o que evoluiu para uma guerra no Líbano.
"Os esforços israelenses para enfraquecer a liderança e a infraestrutura militar da organização criaram uma situação em que a assistência iraniana se tornou essencial para sua recuperação", afirmou Quilliam.
Um cessar-fogo firmado em novembro de 2024 desmoronou no início de março de 2026, quando o Hezbollah atacou Israel com drones e mísseis em retaliação ao assassinato por Israel do líder iraniano Ali Khamenei, a quem o grupo também jurava lealdade. Desde então, a frente libanesa tornou-se um tema central nas negociações de paz entre os EUA e Teerã.
"A participação do Hezbollah ao lado do Irã durante o conflito recente, somada à insistência de Teerã de que qualquer acordo de cessar-fogo incluísse o Líbano, demonstrou como os dois continuam estreitamente ligados", disse Quilliam.
Hamas em Gaza e grupos paramilitares no Iraque
Como consequência da prolongada campanha militar israelense em Gaza, o acesso de Teerã a Gaza e ao Hamas foi reduzido, afirmou Quilliam. "Isso não deve ser confundido com um declínio permanente da relevância iraniana, já que as relações, redes de treinamento e conhecimento técnico desenvolvidos ao longo de décadas não desapareceram", disse à DW.
Na avaliação dele, os laços entre Teerã e o Hamas mostram como a cooperação militar pode sobreviver mesmo quando a influência política recua temporariamente.
No Iraque, observou Quilliam, os grupos armados ligados a Teerã precisam equilibrar os interesses locais iraquianos com suas conexões com o Irã. Embora uma maior autossuficiência em drones lhes dê meios mais independentes de projetar poder e ampliar influência, "o desafio para Teerã está cada vez mais em coordenar um número crescente de atores cujos interesses coincidem apenas parcialmente", afirmou.
Segundo ele, o Irã mantém influência por meio de relações políticas, treinamento, compartilhamento de inteligência e coordenação estratégica entre todos esses grupos. "Mas influência não é a mesma coisa que controle", disse à DW.
"Um novo tipo de desafio"
Salisbury, da Century International, concorda que o Irã continua sendo o elo mais poderoso e relevante para esses grupos armados, mas afirma que a relação entre Teerã e seus aliados transformou-se em uma de interdependência mútua.
"Capacidades, dados e necessidades estratégicas fluem em múltiplas direções", afirmou.
Tudo isso torna mais difícil para os adversários do Irã desmantelar essas redes?
"Olhando para o futuro, a consequência mais significativa da proliferação de drones no chamado 'Eixo da Resistência' pode ser o surgimento de múltiplos centros de conhecimento especializado dentro do que antes era visto principalmente como um sistema liderado pelo Irã", afirmou Quilliam à DW. "Isso torna essa rede mais ampla e resiliente, mais difícil de desarticular e mais imprevisível."
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