Cientistas alertam para El Niño de 'forte intensidade' nos próximos meses
Modelos internacionais projetam chuvas acima da média no Sul; foco das autoridades será antecipar ações preventivas nas cidades
Cientistas do Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex), da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), emitiram um alerta para a intensificação do El Niño nos próximos meses. Os modelos climáticos internacionais apontam que o fenômeno pode atingir uma intensidade de "forte a muito forte", empurrando volumes de chuva significativamente acima da média para a Região Sul do país.
A grande mudança desta vez não está apenas no termômetro do Oceano Pacífico — que precisa registrar um aquecimento igual ou superior a 0,5ºC para configurar o El Niño —, mas na forma como as autoridades planejam receber o evento. A meta do Ciex é usar o cruzamento de dados para desenhar ações preventivas antes que a chuva comece, rompendo com a postura puramente reativa que marcou o desastre de maio de 2024.
Para entender o tamanho do desafio, um estudo publicado em 2025 pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS jogou luz sobre o comportamento dos rios da região. Ao analisar quase meio século de dados em 788 estações de monitoramento na América do Sul, os pesquisadores descobriram que o El Niño funciona como um "turbo" nas bacias hidrográficas: sob a influência do fenômeno, o risco de enchentes na Bacia do Prata dispara em até 160%.
O estudo traz um detalhe técnico crucial: o impacto do El Niño é sentido de forma muito mais agressiva na vazão dos rios do que no acumulado de água que cai das nuvens. Isso significa que mesmo que o volume de chuva pareça controlável, a resposta dos rios tende a ser desproporcional e muito mais rápida.
Apesar dos dados robustos, a comunidade científica faz questão de acalmar os ânimos já que o aquecimento no Pacífico não é sinônimo de tragédia contratada. O El Niño não joga sozinho. Para que um desastre aconteça, é necessária uma combinação de fatores locais, como a umidade prévia do solo, o nível em que os rios já se encontravam e a velocidade com que a chuva se distribui — detalhes que a meteorologia ainda não consegue cravar para os próximos meses.
O cenário atual, portanto, não é de pânico, mas de vigilância rigorosa. Desde 2006, mesmo os episódios mais fracos de El Niño têm se mostrado capazes de bagunçar o clima global e potencializar extremos de calor e umidade. Para o Rio Grande do Sul, o recado da ciência é claro: a natureza está armando o cenário, e o tempo ganho com a antecipação dos dados deve ser transformado em preparação nas cidades.
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