Prática centenária entre pescadores e botos vira Patrimônio Cultural do Brasil
No território gaúcho, um dos principais pontos é a foz do Rio Tramandaí, no Litoral Norte, onde pescadores aguardam, às margens do estuário, o momento em que os botos indicam a presença de cardumes
A tradicional pesca cooperativa entre pescadores artesanais e botos no Sul do Brasil foi reconhecida nesta terça-feira (11) como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão foi tomada durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância máxima deliberativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A prática, registrada no Livro dos Saberes do Iphan, ocorre principalmente em áreas do litoral do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. No território gaúcho, um dos principais pontos é a foz do Rio Tramandaí, no Litoral Norte, onde pescadores aguardam, às margens do estuário, o momento em que os botos indicam a presença de cardumes.
Nesse tipo de pesca, os cetáceos ajudam a conduzir os peixes até perto da costa. Quando o cardume está encurralado, o boto salta ou faz movimentos característicos na água, sinalizando aos pescadores o momento ideal para lançar as redes. O método exige experiência e conhecimento acumulado sobre os hábitos dos animais, além da leitura das marés, dos ventos e das características do ambiente estuarino.
Segundo o parecer técnico apresentado pelo conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o reconhecimento se justifica pela relevância histórica, cultural e socioambiental da prática. O documento destaca que se trata de um saber tradicional transmitido entre gerações e desenvolvido em estreita relação com o território e a natureza.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, afirmou que o registro amplia a compreensão de patrimônio cultural ao considerar também as relações entre seres humanos e outras espécies. Para ele, o reconhecimento reforça a necessidade de uma visão integrada entre cultura, meio ambiente e sustentabilidade.
O diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, Deyvesson Gusmão, destacou que a atual gestão ampliou investimentos em políticas voltadas à valorização de saberes tradicionais, com maior colaboração entre universidades públicas e organizações da sociedade civil.
Apesar do reconhecimento, pescadores alertam para o risco de desaparecimento da prática caso o habitat dos animais não seja preservado. O pescador artesanal Reinaldo Florentino, que atua na atividade, afirma que hoje cerca de 16 a 18 botos ainda interagem regularmente com os pescadores. Segundo ele, a relação criada ao longo dos anos é próxima e afetiva. "Quando morre um boto, é como perder alguém da família", disse.
A preocupação aumenta diante da situação da espécie. Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o boto-de-Lahille — espécie envolvida na pesca cooperativa — de vulnerável para em perigo de extinção. Estima-se que existam cerca de 330 indivíduos no mundo, a maioria no litoral sul do Brasil.
Além da foz do Rio Tramandaí, a prática também ocorre com frequência no Complexo Lagunar do sul de Santa Catarina, especialmente na região de Laguna. Registros ocasionais também foram observados nos estuários dos rios Mampituba, no Rio Grande do Sul, e Araranguá, em Santa Catarina. Desde 2018, a pesca com botos já é considerada patrimônio imaterial catarinense pela Fundação Catarinense de Cultura.
A atividade acontece principalmente durante o outono, entre maio e julho. Nesse período, pescadores se posicionam nas margens dos estuários aguardando o comportamento dos botos, que conduzem os cardumes até a área de pesca. Os animais são reconhecidos individualmente pelos pescadores e recebem nomes próprios, muitas vezes inspirados em características físicas ou comportamentais.
A morte de alguns desses botos ao longo dos anos mobilizou comunidades locais. Em Laguna, por exemplo, a morte da fêmea Caroba, em 2022, levou à criação de um santuário em homenagem aos animais que participaram da tradição.
Com o reconhecimento nacional, a expectativa é que a pesca cooperativa entre humanos e botos ganhe maior visibilidade e medidas de proteção, preservando uma prática cultural que também depende diretamente da conservação dos ecossistemas costeiros do Sul do país.