"Porque sim" não é resposta: os riscos de se deixar levar pela esperança e atropelar o rigor científico
O alarde sobre a polilaminina é um exemplo de como a Ciência não pode se mover apenas pelo entusiasmo que a esperança traz
Na década de 1990, como muitos da minha geração, cresci assistindo aos programas infantis da TV Cultura. Trago vivos na memória o brilho hipnótico das cores primárias que iniciavam a transmissão e uma frase repetida à exaustão por um personagem do Castelo Rá-Tim-Bum, o Telekid, encarregado de esclarecer dúvidas dos outros personagens: "porque sim não é resposta". Sem que eu percebesse à época, isso se tornaria quase um princípio metodológico. Aquela pedagogia lúdica ajudou a formar meu olhar como pesquisador, pai e professor nas áreas de Etnobiologia e Ecologia Numérica.
Hoje enfrentamos uma urgência digital que atropela o letramento científico da população e afeta a sociedade de diversas formas. O episódio mais recente foi o alarde em torno da polilaminina. A possibilidade de que essa molécula seja eficaz para ajudar pacientes com lesões medulares graves a recuperar circuitos neurológicos - algo que ainda será testado com protocolos rigorosos em seres humanos - ocupou as manchetes. Mas a Ciência - especialmente a Medicina, que impacta diretamente a vida de milhões de pessoas - não pode se mover apenas pelo entusiasmo que a esperança traz.
O entusiasmo dos pesquisadores em relação a essa molécula, como vimos repercutir na imprensa, não pode superar a incerteza que estrutura o método científico. Em qualquer área - seja na Ecologia, na Etnobiologia ou na Medicina - é preciso avaliar hipóteses com testes rigorosos e controle de variáveis capazes de fornecer um certo grau de confiança.
A Ciência ensina que nem todo resultado que parece promissor no começo realmente se confirma depois. Pense em algo simples do dia a dia, como preparar um café filtrado. Não basta jogar água quente no pó e esperar o melhor resultado; existe um processo - escolher o grão, torrar, moer, colocar no filtro e só então passar a água. Cada passo influencia o resultado final.
Na Ciência acontece algo parecido quando queremos saber se um tratamento realmente funciona: surge uma ideia, que precisa ser testada com cuidado e comparada com situações em que o tratamento não é usado, para verificar se o efeito é real ou poderia ter ocorrido de qualquer forma. É aí que entra uma ferramenta que funciona como um medidor de confiança: a estatística. Um número bastante citado nas pesquisas, o famoso "p menor que 0,05", não é uma prova absoluta de que algo funciona; ele apenas indica que há uma chance relativamente pequena de aquele resultado não ter aparecido por acaso.
A busca pelo engajamento nas redes sociais
Sem esse tipo de cuidado, poderíamos comemorar descobertas que são apenas coincidências. Além disso, os pesquisadores precisam equilibrar dois riscos: acreditar em algo que não funciona ou deixar passar algo que poderia funcionar. Por isso, seguir todas as etapas da Ciência não é uma mera burocracia, mas uma forma de responsabilidade com a vida das pessoas. Na Medicina, isso é ainda mais sério, porque anunciar um tratamento antes da hora pode gerar esperança em pessoas que já estão enfrentando situações muito difíceis.
Mais um agravante estrutural é a forma como a informação científica circula na internet e nas redes sociais. As plataformas digitais são desenhadas para maximizar engajamento e velocidade, não necessariamente compreensão. Nesse ambiente, conceitos fundamentais da ciência, como incerteza estatística, limitações metodológicas ou necessidade de replicação, disputam espaço com narrativas curtas, simplificadas e emocionalmente apelativas. O resultado é um ecossistema de informação em que a viralização frequentemente antecede a validação.
Além disso, a circulação da Ciência passou a operar dentro de uma lógica de mercado da atenção. Descobertas científicas tornam-se produtos simbólicos que disputam visibilidade pública. Títulos exagerados, promessas de cura e narrativas heroicas geram cliques, prestígio e capital de reputação. O problema é que essa dinâmica pode incentivar a antecipação de conclusões ainda frágeis. Tudo isso reforça a necessidade de prudência metodológica, que deveria ser a marca do conhecimento científico. Nos dias atuais, ela é percebida como lentidão, quando na verdade é o mecanismo que protege a sociedade de interpretações equivocadas e expectativas infladas.
É nesse contexto que declarações apriorísticas de uma pessoa com autoridade científica podem confundir a audiência. No caso da polilaminina, quando um cientista que integra o projeto afirma que não teria coragem de realizar um estudo com o rigor científico necessário - duplo-cego e randomizado, com um grupo tomando a molécula em questão e outro usando placebo -, cria-se um problema metodológico e ético relevante, que merece reflexão.
É preciso fazer a lição de casa
Ensaios clínicos controlados não são um obstáculo moral à Ciência; eles são o instrumento que impede confundir ideias promissoras com evidências não comprovadas. A relativização desse princípio, amplificada pela mídia, transmite à sociedade uma imagem distorcida sobre como a eficácia de um tratamento é estabelecida.
Um exemplo claro desse problema pode ser visto na história recente das pesquisas sobre lesão medular. No começo dos anos 2000, um tratamento com transplante de macrófagos autólogos (células do sistema imunológico do próprio paciente tratadas em laboratório e reinseridas no corpo) gerou um entusiasmo enorme - algo muito parecido com o que vemos hoje em torno da polilaminina. Em experimentos com ratos, os resultados pareciam muito bons, e quando os primeiros testes em humanos foram feitos, os números chamaram bastante atenção: mais de 37% dos pacientes com lesão completa melhoraram de uma classificação A para C, mais que o dobro do que os estudos anteriores indicavam como esperado, cerca de 15% (Knoller et al., 2005).
À primeira vista, parecia uma grande confirmação de que o tratamento funcionava. Mas os pesquisadores decidiram ir com calma, porque sabiam que aquele resultado poderia estar influenciado por vários fatores: o número pequeno de participantes, diferenças entre os pacientes e características específicas de cada lesão, por exemplo. Nem todas as lesões classificadas como A eram iguais: algumas maiores, outras menores, algumas receberam cirurgia mais cedo e cuidados diferentes antes do tratamento. Em vez de parar aí, a equipe fez o que a Ciência pede: seguir testando de forma mais rigorosa, controlando variáveis.
Assim, foi realizado um estudo maior, com 50 pacientes divididos em dois grupos: um que recebeu o tratamento padrão junto com os macrófagos e outro que recebeu apenas o tratamento padrão). E foi então que veio a surpresa: cerca de 25% dos pacientes que receberam macrófagos autólogos melhoraram, enquanto no grupo que recebeu apenas o tratamento padrão, cerca de 59% apresentaram melhora significativa. Ou seja, nesse estudo mais cuidadoso, o grupo que não recebeu os macrófagos teve uma recuperação mais que duas vezes maior do que o grupo que recebeu o tratamento experimental.
Esse exemplo é didático por duas razões. Primeiro, mostra como resultados preliminares promissores podem ser influenciados por acaso estatístico ou por características específicas da amostra. Segundo, evidencia por que os ensaios clínicos controlados são indispensáveis. Sem eles, poderíamos ter concluído, de forma equivocada, que aquela intervenção era altamente eficaz. É justamente por isso que os estudos de fase 2 são tão importantes. Eles existem para proteger a ciência e os pacientes, não para atrasá-la. É preciso percorrer todo o caminho experimental antes de transformar esperança em evidência. Ignorar esse processo não acelera descobertas; apenas aumenta o risco de erro.
No fim das contas, a responsabilidade do cientista na esfera pública é semelhante àquele antigo papel pedagógico do Telekid: explicar que Ciência é processo, não espetáculo, e não é porque funcionou em testes iniciais que o "porque sim" serve como resposta.
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