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Por que o Brasil deve olhar para a nova estratégia de fertilizantes da União Europeia

A principal contribuição europeia está na mudança de visão: os fertilizantes deixam de ser só um tema agrícola e passam a integrar as agendas de política industrial, energia, inovação e segurança nacional

15 jul 2026 - 05h47
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O mercado mundial de fertilizantes atravessa uma fase de elevada volatilidade de preços, refletindo um ambiente internacional marcado por sucessivas crises.

Nos últimos anos, a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia e a intensificação dos conflitos no Oriente Médio evidenciam a vulnerabilidade das cadeias globais de insumos agrícolas, ampliando as incertezas quanto à disponibilidade, aos custos de produção e à segurança do abastecimento.

Para dimensionar tal volatilidade, o Banco Mundial registrou, em seu Fertilizer Price Index, uma trajetória de forte alta entre 2020 e 2022, com crescimento de 104% em 2021 e de 55% em 2022.

Após os preços atingirem patamares historicamente elevados, observou-se um período de correção entre 2022 e 2024, com quedas de 35% em 2023 e de 23% em 2024.

Contudo, em 2025, os preços voltaram a subir, registrando alta de 18% em relação a 2024. Para 2026, ainda em andamento, a expectativa aponta para uma nova elevação expressiva, superior a 30%.

O problema é que a elevada volatilidade dos preços dos fertilizantes - em especial do nitrogênio, fósforo e potássio - aumenta a incerteza sobre os custos de produção, reduz a capacidade de planejamento dos produtores rurais e, em última instância, coloca em risco a produtividade agrícola e a segurança alimentar global.

Logo, percebe-se que os fertilizantes deixaram de ser apenas insumos indispensáveis à produção agrícola para assumirem uma posição estratégica na segurança alimentar, na política agroindustrial e na competitividade internacional.

Porém, tal percepção exige uma mudança de paradigma na atuação dos governos, ao tratar os fertilizantes não somente como bens comerciais, mas como ativos estratégicos para a resiliência das cadeias produtivas, a estabilidade econômica e a soberania nacional.

Foi essa mudança de perspectiva que levou o Brasil a lançar, em 2022, o Plano Nacional de Fertilizantes 2050. Agora, em 2026, a Comissão Europeia seguiu caminho semelhante ao apresentar um Plano de Ação sobre Fertilizantes para os 27 países-membros da União Europeia (UE). A diferença é que o plano europeu, elaborado quatro anos depois, está mais alinhado aos novos desafios geopolíticos globais.

O plano brasileiro e europeu

Tanto o Brasil quanto a UE enfrentam o desafio de reduzir sua dependência de importações em um mercado global de fertilizantes concentrado em poucos fornecedores.

Enquanto o Brasil consome cerca de 8% da produção mundial de fertilizantes, ocupando o quarto lugar global, sua produção nacional é insuficiente para acompanhar o crescimento da produtividade agrícola. Assim, o Brasil importa de 80% a 85% dos fertilizantes.

A UE, por sua vez, mantém significativa dependência dos nutrientes críticos utilizados na produção dos fertilizantes. Cerca de 30% do nitrogênio, 70% do fósforo e 40% do potássio usados no bloco europeu são provenientes de importações.

Enquanto o plano brasileiro tem como prioridade central reduzir a vulnerabilidade externa e fortalecer a produção nacional de fertilizantes, o plano europeu tem uma orientação mais ampla, voltada não somente ao abastecimento, mas também à segurança econômica, à transição energética e à autonomia produtiva.

Essa diferença é relevante para o Brasil. Observar o plano europeu não significa copiar suas políticas, mas compreender como um dos principais mercados consumidores de produtos agropecuários está reposicionando os fertilizantes dentro de uma agenda estratégica mais ampla, capaz de influenciar regras, exigências e expectativas internacionais.

Da descarbonização à competitividade internacional

O primeiro aspecto que merece atenção é a relação entre fertilizantes e descarbonização industrial.

O Plano Nacional de Fertilizantes 2050 já reconhecia a importância da amônia verde e dos fertilizantes de baixa emissão de carbono. Porém, em 2022, essa agenda era prospectiva.

Agora, em 2026, a UE deu um passo além ao incorporar a descarbonização da produção de fertilizantes às normativas comerciais europeias, integrando definitivamente esse setor à sua estratégia climática.

Tal movimento tem implicações diretas para o Brasil. O próprio plano brasileiro reconhece a elevada dependência da produção de nitrogenados e os altos custos do gás natural, fatores que reduzem a competitividade da indústria brasileira.

Enquanto o plano europeu acelera a produção de amônia a partir de hidrogênio renovável e estimula investimentos em fertilizantes de baixo carbono, o Brasil precisará atualizar seu plano com incentivos claros aos nitrogenados verdes, evitando que novos investimentos fiquem defasados diante das exigências internacionais.

Nesse cenário, o Brasil possui uma vantagem relevante: sua liderança em Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN). Enquanto a estratégia brasileira busca ampliar essa tecnologia, o plano europeu avança ao transformar práticas sustentáveis em ativos econômicos por meio da certificação e da valorização ambiental, gerando oportunidades e vantagens comerciais.

Economia circular e uma governança para os fertilizantes

Um segundo ponto em que a estratégia europeia oferece lições importantes é a economia circular de nutrientes.

Durante várias décadas, resíduos urbanos e agroindustriais foram tratados como passivos ambientais. O plano europeu propõe uma nova visão: esses materiais passam a ser fontes estratégicas de nitrogênio e fósforo, reduzindo a dependência de importações.

A estratégia brasileira já reconhece os fertilizantes organominerais, bioinsumos e resíduos agroindustriais como oportunidades para a agricultura brasileira. Também aponta que a integração entre agricultura, saneamento e gestão de resíduos ainda é limitada.

Enquanto isso, o novo plano europeu progride ao criar regras que facilitam a entrada de nutrientes reciclados no mercado de fertilizantes, com padrões técnicos e estímulo ao uso em larga escala.

Para o Brasil, tal experiência pode acelerar seus objetivos. O reaproveitamento de resíduos da pecuária, agroindústria e centros urbanos pode reduzir custos logísticos, fortalecer economias regionais e ampliar a oferta de fertilizantes.

Outro ponto relevante é a transparência do mercado. A volatilidade dos preços mostrou que agricultores muitas vezes decidem sem informações atualizadas sobre estoques, comércio e disponibilidade de insumos.

A UE respondeu fortalecendo os observatórios de mercado. O caso europeu mostra que dados em tempo real podem melhorar a governança, acelerar respostas a crises e apoiar uma gestão logística mais eficiente.

O Brasil também reconheceu esse problema ao propor o Sistema Nacional de Informação sobre Fertilizantes, cuja implementação ainda é um desafio.

Uma perspectiva para o futuro

Assim sendo, a principal contribuição europeia está na mudança de visão: os fertilizantes deixam de ser só um tema agrícola e passam a integrar as agendas de política industrial, energia, inovação e segurança nacional.

Por isso, atualizar o plano brasileiro não significa abandonar seus objetivos, mas adaptá-los às transformações recentes de um mundo mais complexo, ampliando o debate para além da simples garantia de abastecimento.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Filipe Prado Macedo da Silva não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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