Por que a reunificação das Coreias parece mais distante do que nunca
A reunificação das Coreias é cada vez mais improvável devido ao desinteresse mútuo e a barreiras estruturais. Enquanto jovens sul-coreanos temem os altos custos econômicos da integração e veem o Norte como ameaça distante, Pyongyang formalizou o abandono da meta de união pacífica ao classificar o Sul como rival hostil. O abismo econômico entre os países e o conflito de interesses geopolíticos envolvendo Estados Unidos, China e Rússia tornam a manutenção do status quo a opção mais estável.
Trinta e cinco anos após a reunificação alemã, sul-coreanos e norte-coreanos têm cada vez menos interesse em viver sob um mesmo Estado. Diferenças políticas, econômicas e geopolíticas tornam a união um objetivo remoto.A história da Coreia do Sul e da Coreia do Norte, duas nações que compartilham história, idioma e grande parte de sua herança cultural, soa familiar para os alemães.
O país europeu passou décadas dividido por regimes opostos até que mudanças geopolíticas permitiram a reunificação pacífica da Alemanha Oriental e da Alemanha Ocidental, em 1990.
Apenas dois anos depois, o então chanceler federal alemão Helmut Kohl visitou a Zona Desmilitarizada (DMZ, na sigla em inglês) da Península Coreana e manifestou a esperança de que as duas Coreias também estivessem reunificadas até o fim da década.
Isso nunca aconteceu. Cerca de 35 anos após a Alemanha realizar o sonho da reunificação, Seul e Pyongyang continuam profundamente divididas por seus sistemas políticos, suas economias e alianças geopolíticas.
Em viagem para a Coreia do Sul, na sexta-feira passada, o atual chanceler alemão, Friedrich Merz, ecoou o desejo expresso por Kohl em 1993, enquanto observava a DMZ.
"Nós, alemães, sabemos o quanto a divisão de um país é dolorosa", afirmou Merz em mensagem publicada nas redes sociais. "Também sabemos que aqueles que permanecem firmes em seus valores e têm coragem para o diálogo podem derrubar muros."
"Desejamos ao povo coreano a unidade na liberdade", disse Merz.
Para analistas que acompanham o dia a dia da política intercoreana, no entanto, isso soa como um sonho distante.
Jovens sul-coreanos questionam reunificação
Enquanto as duas Coreias continuam observando uma à outra com desconfiança através da DMZ, suas diferenças profundas em riqueza e liberdade política ficam evidentes.
Mas talvez o principal problema seja que nenhum dos dois lados parece desejar a reunificação.
"O sentimento mudou nas últimas duas décadas", afirmou Choo Jae-woo, professor de política externa da Universidade Kyung Hee, à DW. "Os sul-coreanos mais jovens veem a Coreia do Norte apenas como outro país que por acaso fica ao nosso lado, é pobre e representa uma ameaça, sem qualquer vínculo sentimental com ele, ao contrário das gerações mais velhas."
"Cada vez mais pessoas perguntam por que deveriam se preocupar com a reunificação", afirmou.
Um estudo do Instituto de Estudos para a Paz e a Unificação da Universidade Nacional de Seul, divulgado em setembro, indicou que 39,1% dos sul-coreanos acreditam que a reunificação é impossível, a maior proporção desde o início da pesquisa, há cerca de duas décadas.
Muitos entrevistados demonstraram preocupação com os enormes recursos necessários para reconstruir a infraestrutura da Coreia do Norte, incluindo estradas, hospitais, escolas e todos os demais elementos exigidos por uma sociedade moderna em funcionamento.
Oficialmente, o governo sul-coreano não abandonou a reunificação como objetivo nacional. A Constituição do país continua prevendo uma união pacífica baseada em liberdade e democracia. Choo observa, porém, que os governos recentes promovem essa ideia com muito menos frequência do que no passado.
Coreia do Norte rejeita abertamente ideia de unidade
A Coreia do Norte tem sido muito menos discreta sobre sua posição.
"Em dezembro de 2023, o líder norte-coreano Kim Jong-un anunciou mudanças na Constituição, deixando de lado a possibilidade de uma reunificação pacífica", observa Choo. "A Coreia do Sul passou então a ser vista como uma rival hostil, e ele deixava claro não ter mais a menor intenção de unir os dois países."
A Constituição revisada da Coreia do Norte foi aprovada em março de 2026, e o regime de Kim passou a eliminar de forma agressiva todas as referências à reconciliação e à unidade nacional.
"A Coreia do Norte não poderia deixar mais claro que não tem intenção alguma de se aproximar da Coreia do Sul", afirmou Mason Richey, professor de ciência política e relações internacionais da Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, em Seul. Na Coreia do Sul, analistas, autoridades e boa parte da população "reviram os olhos" sempre que a questão da reunificação volta ao debate, observa.
Obstáculos políticos e econômicos
Além da falta de interesse dos dois lados, há uma série de desafios adicionais que precisariam ser superados, disse Richey.
O regime norte-coreano deseja preservar seu próprio poder e prestígio, o que inevitavelmente estaria ameaçado caso um sistema democrático fosse adotado em um país reunificado.
Reduzir a enorme diferença de desenvolvimento econômico entre Norte e Sul seria uma tarefa gigantesca que colocaria enorme pressão sobre a Coreia do Sul, mesmo com apoio externo, afirmou o pesquisador.
Ele observa ainda que, embora a Alemanha reunificada tenha conseguido aproximar os níveis de desenvolvimento de suas regiões, a Alemanha Oriental de 1990 ainda era substancialmente mais desenvolvida do que a Coreia do Norte é hoje.
Quem se opõe a uma Coreia unificada?
Segundo estatísticas de 2024 do Banco da Coreia, o Produto Interno Bruto (PIB) nominal da Coreia do Norte foi de 31,7 bilhões de dólares (cerca de R$ 179 bilhões, pela cotação atual). Já o da Coreia do Sul alcançou 1,85 trilhão de dólares (cerca de R$ 10,4 trilhões), valor 58 vezes maior.
Como a população norte-coreana equivale aproximadamente à metade da população sul-coreana, o PIB per capita do Norte é de apenas 1.230 dólares (cerca de R$ 6.950), ante quase 36 mil dólares (cerca de R$ 203 mil) no Sul.
Segundo Choo, a reunificação não seria apenas uma questão doméstica. Os dois países estão vinculados a alianças estratégicas e de segurança opostas: a Coreia do Sul é aliada dos Estados Unidos, enquanto a Coreia do Norte mantém laços estreitos com a China e, cada vez mais, com a Rússia.
"Essas superpotências não gostariam de abrir mão de seus aliados em nome da reunificação, porque isso também seria uma questão estratégica muito importante para elas", afirmou Choo.
"Os Estados Unidos não desejariam uma Coreia unificada alinhada à China, e Pequim resistiria à reunificação se isso significasse permitir a presença militar americana na fronteira chinesa, no território que hoje corresponde à Coreia do Norte. É simplesmente impossível imaginar qualquer um dos lados aceitando isso."
No fim das contas, disse o professor, o atual status quo na península pode ser uma solução imperfeita, mas continua sendo a melhor forma de preservar a estabilidade regional.
Daqui a dez anos, porém, as condições econômicas, sociais e de segurança poderão ter mudado radicalmente.
"É por isso que nunca podemos dizer nunca."
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