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Para que serve o apêndice? Biólogos explicam a complicada evolução do órgão

O apêndice evoluiu independentemente pelo menos 32 vezes em 361 espécies de mamíferos. Mas o queridinho de ontem da evolução é hoje mais um risco médico

13 mar 2026 - 12h40
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A maioria das pessoas só toma conhecimento do apêndice quando ele está inflamado e prestes a romper, mas estrutura é fundamental na evolução dos mamíferos, tendo se desenvolvido de maneira independente 32 vezes em 361 espécies diferentes Sebastian Kaulitzki/Science Photo Library via Getty Images
A maioria das pessoas só toma conhecimento do apêndice quando ele está inflamado e prestes a romper, mas estrutura é fundamental na evolução dos mamíferos, tendo se desenvolvido de maneira independente 32 vezes em 361 espécies diferentes Sebastian Kaulitzki/Science Photo Library via Getty Images
Foto: The Conversation

A maioria das pessoas sabe apenas duas coisas sobre o apêndice: você não precisa dele — e, se ele romper, você precisa de uma cirurgia imediata.

Essa história básica remonta pelo menos a Charles Darwin, o naturalista inglês que desenvolveu a teoria da evolução pela seleção natural. Em "A Descendência do Homem", ele descreveu o apêndice como um vestígio: um resquício dos ancestrais herbívoros com órgãos digestivos maiores. Por mais de um século, essa interpretação moldou tanto o conteúdo nos livros didáticos quanto o imaginário médico popular.

Mas a história evolutiva do apêndice é muito mais complicada.

Junto com nossa colega Helene M. Hartman, uma estudante que se prepara para uma carreira na área da saúde, combinamos nossa experiência em ecologia comportamental, biologia e história para revisar a literatura científica sobre o apêndice, esperando uma resposta simples.

Em vez disso, encontramos um órgão que a evolução continuou reinventando, mais interessante do que a maioria das pessoas imagina.

Como o apêndice evoluiu?

O apêndice é uma pequena bolsa que se ramifica da primeira seção do intestino grosso. Sua forma e estrutura variam amplamente entre as espécies - uma pista de que a evolução pode ter mexido nele mais de uma vez.

Algumas espécies, incluindo certos primatas, como humanos e grandes símios, têm um apêndice longo e cilíndrico. Em outras, incluindo vários marsupiais, como wombats e coalas, o apêndice parece mais curto ou mais em forma de funil. Outras ainda, incluindo alguns roedores e coelhos, têm estruturas com proporções ou ramificações diferentes. Essa diversidade estrutural sugere que a evolução modificou o órgão sob diferentes condições ecológicas.

Diagrama de um segmento do intestino delgado com dedos do apêndice orientados em vários graus
Diagrama de um segmento do intestino delgado com dedos do apêndice orientados em vários graus
Foto: The Conversation
O apêndice pode estar orientado no corpo de várias maneiras.Mikael Häggström, M.D./Wikimedia Commons

Essa suspeita é apoiada por análises evolutivas. Estudos comparativos mostram que uma estrutura semelhante ao apêndice evoluiu independentemente em pelo menos três linhagens distintas de mamíferos - marsupiais, primatas e glires, um grupo que inclui roedores e coelhos. Uma pesquisa evolutiva mais ampla descobriu que o apêndice evoluiu separadamente pelo menos 32 vezes em 361 espécies de mamíferos.

Quando uma característica evolui repetidamente e de forma independente, os biólogos chamam isso de evolução convergente. Convergência não significa que uma estrutura seja indispensável. Mas sugere que, sob certas condições ambientais, ter essa estrutura proporcionou uma vantagem consistente o suficiente para que a evolução a favorecesse repetidamente.

Em outras palavras, é improvável que o apêndice seja um acidente evolutivo inútil.

O que o apêndice faz?

O apêndice auxilia o sistema imune. Ele contém tecido linfóide associado ao intestino - células imunes incorporadas na parede intestinal que ajudam a monitorar a atividade microbiana no intestino. No início da vida, esse tecido expõe as células imunes em desenvolvimento aos micróbios intestinais, ajudando o corpo a aprender a distinguir entre simbiontes inofensivos e patógenos nocivos.

O apêndice é particularmente rico em estruturas chamadas folículos linfóides durante a infância e a adolescência, quando o sistema imune ainda está amadurecendo. Esses componentes imunes participam da imunidade mucosa, que ajuda a regular as populações microbianas ao longo do revestimento intestinal e outras superfícies mucosas. Os folículos linfóides produzem anticorpos, como a imunoglobulina A, para neutralizar os patógenos.

Sem tratamento adequado, a apendicite pode ser fatal.

Pesquisadores também propuseram que o apêndice atua como um refúgio microbiano. Alguns sugeriram que biofilmes - comunidades finas e estruturadas de bactérias - revestem o apêndice. Durante infecções gastrointestinais graves que eliminam grande parte da microbiota intestinal do cólon, as bactérias benéficas protegidas por esses biofilmes podem sobreviver e ajudar a repopulá-lo posteriormente. Esses micróbios benéficos auxiliam na digestão, competem com os patógenos e interagem com o sistema imune de maneiras que reduzem a inflamação e promovem a recuperação.

Essas hipóteses motivaram uma questão que nossa equipe explorou: se o apêndice ajuda a preservar a estabilidade microbiana, sua remoção poderia afetar sutilmente a aptidão reprodutiva?

Preocupações clínicas mais antigas sugeriam que a apendicite ou a apendicectomia poderiam prejudicar a fertilidade, causando inflamação e cicatrizes — conhecidas como aderências tubárias — nas trompas de Falópio. Essas cicatrizes poderiam obstruir fisicamente a passagem do óvulo para o útero. Mas vários estudos de grande porte desde então não encontraram diminuição na fertilidade após a apendicectomia — em alguns casos, os pesquisadores encontraram um pequeno aumento nas taxas de gravidez.

O apêndice parece ter várias funções, incluindo imunes e microbianas. Afetar a fertilidade, no entanto, não parece ser uma delas.

Importância evolutiva e vida moderna

Embora o apêndice tenha um passado interessante, com a evolução continuamente reinventando-o, sua importância moderna é, na melhor das hipóteses, modesta. Darwin subestimou a história do órgão, mas seu instinto não estava muito longe da realidade médica atual: algumas partes da biologia humana tinham mais importância nos ambientes em que as pessoas evoluíram do que nas vidas que elas levam hoje.

Os primeiros humanos viviam em ambientes com pouca higiene e forte contato social — condições perfeitas para surtos de patógenos que causam diarreia. Um apêndice que restaurasse rapidamente o microbioma intestinal após uma infecção poderia melhorar significativamente a sobrevivência. Mas, ao longo do último século, água potável, melhorias na higiene e antibióticos reduziram drasticamente as mortes por doenças diarreicas em países de alta renda.

Como resultado, as pressões evolutivas que antes favoreciam o apêndice desapareceram em grande parte. Enquanto isso, os riscos médicos de manter o apêndice - principalmente a apendicite - permanecem. A medicina moderna normalmente trata um apêndice infectado removendo-o. Assim, uma estrutura que antes era uma vantagem evolutiva global agora é mais um risco médico.

Essa incompatibilidade entre as adaptações do passado e os ambientes do presente ilustra um princípio fundamental da medicina evolutiva: a evolução otimiza a sobrevivência e a reprodução em ambientes ancestrais, não a saúde, o conforto ou a longevidade nos ambientes modernos.

A evolução opera no nível das populações ao longo de gerações, favorecendo características que aumentam o sucesso reprodutivo médio, mesmo que essas características às vezes prejudiquem os indivíduos. A medicina funciona ao contrário - ajudando os indivíduos a prosperar no mundo atual, em vez de sobreviver ao mundo do passado.

O apêndice não é uma peça sobressalente de um móvel incluída "por precaução", mas também não é essencial hoje. A biologia humana tem muitas características que antes eram benéficas, mas agora são marginais — e compreendê-las permite que a medicina tome melhores decisões modernas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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