Para onde vão os votos de Cury, Renan e Caiado no segundo turno?
Cerca de 9,3 milhões de eleitores escolheram outros candidatos no primeiro turno e agora entram no centro da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
Com Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno, os mais de 9 milhões de votos de candidatos derrotados tornaram-se decisivos. Pesquisas indicam maior inclinação desses eleitores por Flávio, que já garantiu o apoio explícito de Romeu Zema e articula com Ronaldo Caiado. Em contrapartida, Augusto Cury e Renan Santos optaram pela neutralidade, liberando seus apoiadores, enquanto analistas apontam que Lula enfrenta maior dificuldade para atrair esses novos grupos diante da forte polarização política.
Com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) confirmados no 2º turno, milhões de votos conquistados por outros candidatos voltam ao centro da disputa presidencial. Flávio encerrou a primeira etapa com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula. A diferença entre os dois deixa ainda mais relevante a decisão de quem escolheu uma terceira opção no último domingo (4).
Cerca de 9,3 milhões de votos foram destinados aos demais concorrentes. Entre os principais nomes desse grupo, Augusto Cury (Avante) ficou em terceiro lugar, seguido por Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD). Romeu Zema (Novo) também está entre os candidatos cujos eleitores passam a ser observados nesta nova etapa da disputa. Além dos apoios anunciados após o primeiro turno, pesquisas realizadas antes da votação ajudam a indicar como esses diferentes grupos podem se comportar até 25 de outubro.
2º turno: para onde podem migrar esses votos?
A preferência de um candidato derrotado, contudo, não significa que seus eleitores seguirão necessariamente a mesma escolha. Perfil político, rejeição aos finalistas e até a possibilidade de votar em branco, anular ou não comparecer também interferem nessa decisão.
Uma pesquisa Quaest divulgada antes do primeiro turno e citada pela mostrava vantagem numérica de Flávio entre os eleitores de três dos principais candidatos eliminados. Entre os apoiadores de Cury, 34% escolheriam Flávio e 23%, Lula. Outros 41% indicavam voto branco, nulo ou ausência.
A diferença aparecia de maneira mais acentuada entre os eleitores de Renan Santos: 60% apontavam Flávio e 11%, Lula. Já entre os que declaravam voto em Caiado, os percentuais eram de 43% e 19%, respectivamente. Branco, nulo ou abstenção representavam 27% entre os apoiadores de Renan e 36% entre os de Caiado.
Outra leitura, porém, ajuda a mostrar que esse movimento não é uniforme. Cruzamentos da Real Time Big Data, analisados pelo especialista Bruno Soller e apresentados pelo 'InfoMoney' antes da votação, apontavam diferenças importantes entre os quatro eleitorados.
No caso de Zema, Soller identificava maior inclinação ao chamado voto útil, predominantemente em direção a Flávio. Já entre os apoiadores de Caiado, a tendência também favorecia o candidato do PL, mas com possibilidade de Lula conquistar parte do eleitorado mais velho.
Cury apresentava uma dinâmica diferente. Na avaliação do analista, eleitores mais propensos a Flávio já haviam migrado durante a campanha, deixando entre os apoiadores que permaneceram um grupo com maior possibilidade de aproximação com Lula. Renan, por sua vez, reunia um eleitorado descrito como mais resistente à lógica tradicional entre os dois campos políticos.
"É um voto mais afirmativo, é um voto meio que contra tudo e contra todos. Não é um voto de posicionamento ideológico", afirmou Soller ao 'InfoMoney'.
Cury e Renan não indicam candidato
Dono do maior número de votos entre os concorrentes que ficaram fora da segunda etapa, Augusto Cury recebeu 3,44 milhões de votos, equivalentes a 2,89% dos válidos. Apesar disso, decidiu não indicar preferência entre Lula e Flávio.
"Eu me silencio completamente em relação àqueles que estarão no segundo turno, dizendo o seguinte, que ninguém está autorizado em meu nome e nem em nome do Júlio [Delgado, coordenador da campanha] a pedir ou dizer que vai apoiar qualquer um dos candidatos. E eu gostaria de me silenciar em relação a isso. Não quero responder nada em relação ao segundo turno", declarou a jornalistas, segundo a 'Agência Brasil'.
Ademais, Cury sinalizou que pretende deixar a vida político-partidária. Após uma campanha marcada pelo discurso contrário à polarização, pediu que o próximo presidente considere propostas apresentadas por sua candidatura.
"Quero que um conservador consiga ouvir um progressista sem odiá-lo; que um progressista consiga conversar com um conservador sem desumanizá-lo; que possamos criticar ideias sem destruir pessoas. Quem ganhar torço para que governe pensando em um Brasil de esperança", escreveu em nota.
Renan Santos adotou posição semelhante ao deixar a decisão nas mãos de seus apoiadores. "Façam o que vocês quiserem. Quer votar em um, quer votar no outro? Fique à vontade", afirmou, segundo o 'g1'. Ele também disse que não pediria voto nulo nem faria indicação por um dos dois finalistas.
Zema declara apoio e Caiado avalia caminho
Entre os quatro nomes, Romeu Zema tomou uma posição mais direta e declarou apoio a Flávio Bolsonaro. "Não vou me omitir, nem ficar em cima do muro nesse momento tão importante. Voto contra o PT, voto no Flávio Bolsonaro. O Brasil não aguenta mais quatro anos de Lula", afirmou em vídeo publicado nas redes sociais, segundo a 'BBC News Brasil'.
Ronaldo Caiado, por outro lado, afirmou inicialmente que conversaria com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, antes de formalizar uma decisão. "Eu, neste momento, vocês sabem, vou guardar a minha coerência, mas jamais vou me pronunciar sem antes também estar reunido com o presidente do meu partido, Kassab", disse.
Caiado também tem encontro previsto com Flávio nesta terça-feira (6), em Goiânia. A expectativa é que os dois façam uma manifestação após a reunião. Mesmo com esses movimentos políticos, os levantamentos anteriores ao primeiro turno mostram que apoio partidário e transferência de voto não são equivalentes.
Em entrevista à 'BBC News Brasil' antes do primeiro turno, a cientista política Cila Schulman avaliou que Lula teria menos espaço para buscar novos eleitores entre os candidatos eliminados no 2º turno. "O mercado de votos para o Lula é muito restrito, porque ele está sozinho no campo da esquerda, então ele não tem como abarcar votos de um Ciro [Gomes], de uma Simone [Tebet] ou de uma Marina [Silva] como ele teve em outras eleições", afirmou.
"Então, quem aprova o governo e quem está no campo da esquerda ou quem é antibolsonarista já não está votando nele. Onde o Lula pode crescer? Ele ainda tem uma margem entre quem aprova o governo dele, mas não está declarando intenção de voto nele", complementou.
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