Os objetivos da ofensiva de Israel contra o Hezbollah no Líbano
Exército israelense avançou há duas semanas sobre o sul do Líbano. Ofensiva visa enfraquecer milícia xiita e neutralizar influência do Irã sobre o país.Após bombardear posições do Hezbollah em Beirute e no sul do Líbano, o Exército de Israel avançou por terra em território libanês, tornando o país o segundo principal foco da guerra no Oriente Médio depois do Irã.
O Líbano foi arrastado para o conflito em 2 de março, depois de a milícia xiita lançar foguetes e drones contra alvos no norte de Israel em apoio ao Irã, pondo fim a um frágil cessar-fogo que estava em vigor desde novembro de 2024.
Da perspectiva da liderança israelense, Tel Aviv não está apenas reagindo aos ataques, e sim perseguindo vários objetivos estratégicos — desde enfraquecer o Hezbollah e estabilizar a fronteira norte até conter a influência iraniana na região.
Hezbollah é considerado ameaça militar
Israel considera o Hezbollah uma das maiores ameaças militares ao país. Fontes de segurança afirmam que o grupo é capaz de alcançar praticamente todo o território israelense com suas armas — o grupo xiita é classificado como organização terrorista por diversos países do Ocidente, possui um amplo arsenal de foguetes e uma estrutura militar relativamente bem organizada.
O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, declarou, segundo o jornal Haaretz, que Israel não encerrará a guerra enquanto a ameaça representada pelo Hezbollah não for eliminada. O objetivo é enfraquecer ou destruir, a longo prazo, as capacidades militares da milícia no Líbano.
O cientista político Peter Lintl, da Fundação Ciência e Política (SWP) em Berlim, vê nisso uma mudança na lógica militar israelense. "Essa é, de modo geral, a nova orientação estratégico-militar de Israel, que se desenvolveu após o 7 de outubro", afirma. O objetivo deixou de ser apenas conter os adversários e passou a ser "combatê-los de forma que deixem de representar qualquer perigo".
Mas Lintl considera improvável a eliminação total da organização, que é também um partido político com presença no Parlamento. "O Hezbollah está amplamente enraizado na sociedade e é parte da estrutura social libanesa." Por isso, é mais provável que Israel tente "estabelecer uma zona de segurança no sul e ocupar ali posições" do grupo.
Retorno de civis ao norte de Israel
Outro objetivo de Israel é estabilizar permanentemente a situação de segurança no norte do país. Desde os ataques terroristas do Hamas contra Israel em outubro de 2023 e os confrontos subsequentes com o Hezbollah, inúmeras localidades próximas à fronteira libanesa foram evacuadas, e dezenas de milhares de pessoas tiveram de deixar suas casas. Segundo o jornal Times of Israel, o governo israelense busca "o retorno seguro dos moradores do norte às suas casas".
Mas Lintl observa que se causar o maior dano possível ao Hezbollah pode dar tempo a Israel, não resolve de forma duradoura o problema político subjacente. "Não se pode bombardear uma ideologia política até fazê-la desaparecer", ressalta, apontando para a falta de uma proposta política para o Líbano.
Enfraquecimento da rede de aliados iranianos
Israel também considera o Hezbollah parte de uma aliança regional maior sob a liderança do Irã. Além da milícia no Líbano, esse bloco inclui grupos pró-Irã no Iraque e na Síria, bem como os houthis no Iêmen. Segundo o jornal Jerusalem Post, o chefe do Estado-Maior israelense, Eyal Zamir, afirmou que Israel pretende eliminar a ameaça representada pelo "eixo xiita" liderado pelo Irã. Analistas israelenses argumentam que Teerã exerce sua influência na região por meio desses aliados e frequentemente trava seus conflitos com Israel de forma indireta, através desses grupos.
Para Lintl, Israel aproveitou a oportunidade, após os ataques do Hezbollah, para agir militarmente contra a milícia. "Todo Estado tem o interesse legítimo de proteger seus habitantes", pondera. Ao mesmo tempo, ele destaca que a proteção da população israelense frequentemente implica impactos massivos no Líbano: "A tentativa de criar uma zona de segurança significa, ao mesmo tempo, que dezenas de milhares de pessoas no sul do Líbano precisam ser evacuadas."
Temor de uma guerra em múltiplas frentes
Israel também quer evitar uma "guerra de múltiplas frentes" em grande escala. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já havia declarado, no ano passado, que o país se encontrava em uma guerra desse tipo com o Irã e seus aliados.
Israel não enfrenta apenas o Hezbollah no Líbano, mas também o grupo islamista militante Hamas na Faixa de Gaza — também considerado terrorista por países ocidentais —, além de outras milícias ligadas ao Irã na região.
O temor nos círculos de segurança israelenses é de que esses atores possam, em um cenário extremo, agir simultaneamente contra Israel. Um ataque coordenado desse tipo — com foguetes, drones ou outras armas — colocaria o sistema de defesa israelense sob pressão. Estima-se que só o Hezbollah possua até 150 mil foguetes. Por isso, Israel tenta enfraquecer militarmente atores individuais da rede iraniana antes que ocorra uma escalada dessa magnitude.