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Obesidade: por que o tratamento com as canetas emagrecedoras precisa ser contínuo

Os novos medicamentos que revolucionaram o tratamento do excesso de peso ajudam no controle da doença, mas não a curam. Se a pessoa deixa de usá-las, os efeitos positivos de drogas como semaglutida e tirzepatida deixam de prevalecer no organismo

27 abr 2026 - 08h45
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A Ciência já demonstrou que a obesidade é uma alteração crônica, progressiva, inflamatória e multifatorial. Isso significa que ela não pode ser tratada como um problema pontual, nem como algo que se resolve apenas com uma intervenção curta ou de efeito rápido. Como acontece com a asma ou a hipertensão, a obesidade precisa de manejo contínuo e real engajamento dos pacientes para que seja controlada.

É justamente por isso que o tratamento medicamentoso da obesidade não deve ser visto como temporário por definição. Os novos medicamentos usados para tratar o excesso de peso, popularizados como canetas emagrecedoras, ajudam no controle da doença, mas não a curam. Eles atuam sobre mecanismos biológicos que regulam fome, saciedade e gasto energético. Assim, em muitos casos, seu uso precisa ser contínuo ou prolongado para evitar o reganho de peso.

Entre esses medicamentos estão a semaglutida e a tirzepatida. Os principais medicamentos que contêm semaglutida são Ozempic® (injetável semanal), Wegovy® (injetável semanal para obesidade) e Rybelsus® (comprimido diário oral). A tirzepatida é um princípio ativo de uso injetável presente no medicamento industrializado Mounjaro, aprovado pela Anvisa para o tratamento de diabetes tipo 2, com ampliação para controle de peso e obesidade.

Como imitam hormônios intestinais, a semaglutida e a tirzepatida reduzem a fome, aumentam a sensação de saciedade, desaceleram o esvaziamento do estômago e ajudam a controlar processos que levam as pessoas a comer além do necessário para o seu gasto calórico diário. Se a pessoa deixa de usá-las, os efeitos positivos deixam de prevalecer.

Isso acontece porque, fisiologicamente, é normal que o organismo ative mecanismos para que a pessoa volte ao peso anterior, como um sistema de defesa. Quando há perda de peso, o corpo interpreta isso como risco de falta de comida e entra em modo de economia. O metabolismo basal diminui, o gasto energético cai, e a pessoa passa a gastar menos calorias para realizar as mesmas atividades. Ao mesmo tempo, há aumento da grelina, hormônio que estimula a fome. Todo esse processo leva à recuperação dos quilos eliminados.

Atenção constante

As células de gordura não desaparecem com o emagrecimento. Elas apenas diminuem de tamanho, mas continuam ali, prontas para armazenar gordura novamente. Como nem sempre as pessoas tratam fatores como ansiedade, que podem contribuir para a obesidade, fica mais difícil controlar a compulsão alimentar. Esse é outro ponto em que as canetas emagrecedoras podem ajudar.

Em alguns casos, a necessidade de uso contínuo ou prolongado destes medicamentos fica ainda mais evidente. Isso pode acontecer quando há histórico de obesidade na infância ou na adolescência, quando a obesidade vem associada ao diabetes ou mesmo durante a menopausa, período em que a queda do hormônio estrógeno agrava o aumento do peso e da gordura visceral — aquela que se acumula no abdômen e eleva o risco de eventos cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral.

Nesses contextos, é frequente também a presença da síndrome metabólica, um conjunto de alterações que inclui aumento da circunferência abdominal, hipertensão, alterações no colesterol e resistência à insulina. É justamente sobre esses diferentes eixos que atuam os agonistas do receptor de GLP-1, pois, além de reduzir o peso, melhoram o controle glicêmico e impactam fatores de risco cardiovascular — o que reforça seu papel como tratamento de longo prazo.

A indicação de uso contínuo não significa que o paciente terá de usar para sempre altas doses de semaglutida ou tirzepatida. Essa redução pode ocorrer de forma gradual e sempre com supervisão médica. O que não é recomendável é a interrupção abrupta do tratamento, por decisão do próprio paciente, sem acompanhamento profissional.

Também existem casos em que a suspensão do tratamento com as canetas emagrecedoras é possível. Isso acontece com pacientes engajados, que entenderam que a mudança de hábitos de vida e a distância do sedentarismo são fundamentais para o bom controle da obesidade. Como quase tudo na vida, esse processo não acontece de um dia para o outro. Mesmo após a cirurgia bariátrica, muitas pessoas voltam a ganhar peso justamente porque não se adaptaram a um novo estilo de vida.

Ampliação do acesso

Não é à toa que o tratamento da obesidade precisa de atendimento multidisciplinar e acompanhamento médico regular. Ao lado do endocrinologista, entra a nutricionista, que adapta a dieta à realidade de cada paciente; a psicóloga, que oferece suporte emocional; e o profissional de atividade física, que acompanha quais os melhores esportes para aquele indivíduo, pensando na realidade de cada um.

Há ainda uma questão de acesso a esses medicamentos. O custo das canetas emagrecedoras ainda impede o tratamento para grande parte da população. Ao mesmo tempo, a expiração da patente da semaglutida no Brasil pode mudar esse cenário. Quando finda o período de proteção legal que garante exclusividade a uma empresa para produzir e vender determinada molécula, outras farmacêuticas podem produzir genéricos ou similares, desde que obtenham registro e aprovação regulatória.

Tratar a obesidade é possível, desde que ela seja entendida como uma doença crônica, e não como uma falha do indivíduo ou um problema passageiro. Isso exige conscientização por parte dos pacientes e responsabilidade dos profissionais que os acompanham durante todo o processo. Quanto à ampliação do acesso aos medicamentos mais atuais, a discussão já deixou de ser apenas médica para se tornar também uma questão de saúde pública.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Maria Fernanda Barca não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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