O silêncio que os arquivos rompem: histórias de mulheres e interseccionalidades no Brasil oitocentista
Estudo de crianças órfãs, escravizadas, pobres e abandonadas submetidas à lógica penal e assistencial do século XIX evidencia que, quando o Estado falha em proteger, muitas vezes passa a punir
Há histórias que não desaparecem por acaso. Muitas delas são empurradas para as margens por escolhas políticas, culturais e educacionais. E, ao longo de séculos, definiram quem merecia ser lembrado e quem deveria permanecer em silêncio.
Minha trajetória acadêmica e intelectual se inscreve justamente nesse ponto de tensão. Trabalho no esforço de retirar da invisibilidade crianças, educadoras, preceptoras, mulheres historicamente secundarizadas pela narrativa oficial.
Como pesquisadora no campo da História da Educação, busco compreender de que modo a educação, os arquivos e as práticas culturais ajudaram a construir (e também a apagar) determinadas presenças femininas na história brasileira.
Em meus estudos, os documentos não aparecem apenas como vestígios do passado. São marcas de vidas, práticas, afetos, silenciamentos e disputas. A pesquisa histórica, nesse sentido, é para mim um exercício de escuta e de justiça narrativa.
Trajetórias femininas apagadas
Esse compromisso está presente em minhas investigações sobre a infância desvalida no Brasil oitocentista.
Ao estudar crianças órfãs, escravizadas, pobres e abandonadas submetidas à lógica penal e assistencial do século XIX, busco evidenciar uma questão que permanece atual. Quando o Estado falha em proteger, muitas vezes passa a punir.
A educação, nesse contexto, aparece como promessa de regeneração, mas também como instrumento de controle social. Olhar para essas crianças, sobretudo as meninas, é também interrogar as permanências de uma sociedade que historicamente naturalizou desigualdades.
É, contudo, na História da Educação das mulheres que minha produção ganha um de seus contornos mais significativos.
Tenho me dedicado a recompor trajetórias femininas apagadas, fragmentadas ou reduzidas a papéis secundários pela historiografia tradicional.
Meu olhar recai sobre mulheres que ensinaram, escreveram, organizaram saberes, preservaram memórias e interferiram na formação de sujeitos históricos decisivos. Ainda que seus nomes tenham sido mantidos à margem das grandes narrativas.
Mulher culta, articulada, letrada, mas apagada
Entre essas personagens, destaca-se Luiza Margarida Portugal de Barros, a Condessa de Barral.
Em minhas pesquisas, busco afastá-la da imagem simplificada de dama da corte ou figura periférica do Segundo Reinado.
Luiza aparece como mulher culta, articulada, letrada e participante ativa de um projeto educativo vinculado à formação das princesas Isabel e Leopoldina, filhas de D. Pedro II.
Sua atuação como preceptora revela a complexidade de uma mulher que transitou entre o Recôncavo baiano, a Europa e os palácios imperiais. E levou consigo repertórios culturais, políticos e pedagógicos sofisticados.
Ao investigar Luiza, Isabel e Leopoldina, seguindo as orientações e caminhos de Maria Celi Chaves Vasconcelos, compreendo que educar princesas não era uma tarefa doméstica menor; era um projeto político.
Formar as herdeiras do trono significava preparar mulheres para posições de representação, continuidade dinástica e participação simbólica na vida pública de um país marcado por hierarquias de gênero, raça e classe.
A educação das princesas, portanto, permite compreender não apenas a intimidade da corte, mas também os modos pelos quais se pensava o lugar das mulheres no Império.
Registros femininos
Essa perspectiva se aprofunda quando analiso cartas, diários, cadernos, planos de aula e outros egodocumentos relacionados aos meus objetos de pesquisa.
Ao trabalhar com essas fontes, procuro deslocar o centro da narrativa histórica, tendo em vista que não me interessa apenas o que os grandes homens disseram sobre educação, mas aquilo que uma mulher registrou, planejou, ensinou e legou.
A escrita íntima, nesse caso, torna-se documento público de uma prática pedagógica historicamente invisibilizada.
No meu trabalho sobre os cadernos, estudos, planos de aula, artefatos escolares, o cotidiano feminino e o agir pedagógico de intelectuais femininas, tenho procurado demonstrar que as trajetórias femininas não são acessórios da História. Elas são parte constitutiva da formação cultural, educacional e política do Brasil.
Também tenho ampliado esse debate ao tratar de patrimônio educativo, memória escolar, arquivos pessoais, exposições e materialidades.
Ao participar de iniciativas voltadas à preservação de acervos e à visibilização da educação de mulheres no século XIX, por meio das atividades do Núcleo de Pesquisa História e Memória das Políticas Educacionais no Território Fluminense, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uerj, compreendo que a pesquisa acadêmica não deve permanecer restrita aos muros da escola e da universidade.
Ela precisa circular, provocar, incomodar e devolver à sociedade aquilo que os arquivos guardaram, mas a memória coletiva nem sempre reconheceu.
O fio que une meus estudos é a recusa da invisibilidade como destino. Nas pesquisas que desenvolvo, mulheres não são coadjuvantes de uma história masculina. Elas são produtoras de saber, mediadoras culturais, educadoras, escritoras, gestoras de memórias e personagens centrais na formação do país.
A Condessa de Barral, nesse percurso, torna-se símbolo de uma pergunta maior que orienta minhas investigações.
Quantas mulheres participaram decisivamente da vida pública, intelectual e educativa brasileira sem receber o devido reconhecimento?
Responder a essa pergunta exige método, rigor e sensibilidade. Exige retornar aos cadernos, às cartas, aos diários, aos processos, às legislações, aos objetos escolares e aos rastros aparentemente pequenos.
É nesse gesto que situo minha produção. Não como resgate nostálgico do passado, mas como crítica ao modo como o presente ainda escolhe lembrar.
É neste percurso, que Maria Celi Chaves Vasconcelos estabelece as trilhas, análises e me orienta a (re)significar histórias como as de Zeferina Josefa Pinto Bulhões, Rufina de Brito, Nísia Floresta, entre outras.
Ao iluminar histórias de mulheres invisibilizadas, procuro mostrar que a História não está pronta. Ela precisa ser reaberta, interrogada e reescrita com novas lentes porque toda mulher retirada do esquecimento altera não apenas o passado, mas também o futuro que somos capazes de imaginar.
A pesquisa citada foi apoiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, e a publicação do artigo teve o apoio da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Ana Cristina Borges López, M. Francisco recebe bolsa de pós-doutorado/sênior da FAPERJ. nº do processo E-26/200.572/2025, matrícula 2021.02668.4
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