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O que se sabe sobre o atentado à Parada LGBTQ+ de Berlim

27 jul 2026 - 12h27
(atualizado em 28/7/2026 às 15h47)
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Suspeito de atropelamento que deixou uma pessoa morta e várias feridas na capital alemã foi morto pela polícia. Câmera de vigilância da polícia registrou jovem saindo de casa momentos antes do crime.Por volta das 22h de sábado (25/07), uma van branca acelerou e atropelou uma multidão nas proximidades do Portão de Brandemburgo, em Berlim, onde milhares de pessoas participavam da Marcha do Orgulho LGBTQ+, matando uma mulher polonesa e ferindo outras 29, algumas delas em estado grave.

Polícia alemã ainda não sabe se Abdul B. agiu sozinho ou teve cúmplices
Polícia alemã ainda não sabe se Abdul B. agiu sozinho ou teve cúmplices
Foto: DW / Deutsche Welle

O crime ocorreu enquanto os participantes do evento anual — conhecido na Alemanha como Christopher Street Day (CSD) — já se dispersavam perto do parque Tiergarten.

Segundo a polícia, a van seguia pela rua Ahornsteig, paralela à Lennéstrasse, e atropelou várias pessoas antes de bater em uma árvore. Após a colisão, o motorista abandonou o veículo e fugiu.

"Estou chocado e profundamente entristecido ao saber que a vítima do trágico ataque em Berlim era uma cidadã polonesa", escreveu no X o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Polônia, Maciej Wewior, nesta segunda-feira (27/07).

De acordo com o tabloide alemão Bild, a vítima tinha 65 anos e havia viajado para Berlim com a filha - que sobreviveu ao ataque - para participar da marcha.

Quem era o suspeito?

O principal suspeito do ataque foi identificado pela polícia como Abdul B., um cidadão alemão de 21 anos filho de mãe de origem libanesa, com antecedentes criminais e associado ao meio islamista em Berlim.

Segundo a polícia, ele foi baleado e morto na noite de domingo após partir em direção aos agentes empunhando uma arma branca. Ele foi socorrido em seguida, mas não resistiu aos ferimentos.

Abdul B. chegou a ser preso no Líbano acusado de tentar se juntar aos combatentes do "Estado Islâmico" (EI) na Síria em 2025. Ao ser devolvido à Alemanha em novembro de 2025, ele foi preso preventivamente e posteriormente condenado por planejar um ato grave de violência e ameaça ao Estado, bem como por publicação de propaganda do EI em sua conta no Instagram, entre outras acusações.

O Ministério Público havia pedido pena de dois anos e dez meses de prisão. Mas a sentença foi de um ano e dez meses de prisão, porque o caso foi julgado com base na legislação mais branda para jovens infratores. Ainda assim, ele foi solto em meados de maio deste ano.

Autoridades chegaram a afirmar que Abdul B. teve a pena suspensa. A Justiça de Berlim, no entanto, apontou que a pena não havia sido suspensa, mas que ainda havia uma avaliação em curso se isso deveria ocorrer. Segundo o tribunal, a soltura se deveu à expiração da prisão preventiva, por já não preencher os requisitos legais relativos a risco de fuga, reincidência e outros fatores. O Ministério Público recorreu da decisão.

A Justiça havia determinado que ele comparecesse a um total de 26 sessões em uma ONG que trabalha com a desradicalização de indivíduos considerados ameaçadores. Abdul B. já havia frequentado duas delas. Uma terceira sessão de aconselhamento estava marcada para esta segunda-feira.

A ONG afirma que pretendia informar ao tribunal que Abdul B. não era um candidato adequado para o programa, pois ele tentava se apresentar como uma pessoa amigável e não extremista, alegando, portanto, não precisar de desradicalização.

"Normalmente, pessoas de alto risco estão muito convictas de si mesmas e de sua ideologia, e elas a propagam durante essas sessões", disse Cornelia Lotthammer, porta-voz da ONG. "E, então, é mais fácil trabalhar com elas. Este não era um caso típico." Abdul B. parecia tentar antecipar o que a equipe queria ouvir, disse ela.

"Todos sabiam que ele era uma pessoa de alto risco", afirmou Lotthammer. "Mas, ainda assim, se ele não colabora com nossos colegas, não podemos fazer nada." Ela acrescentou: "Mas ninguém teria dito: 'Ele não é uma ameaça, simplesmente deixem-no ir'."

Abdul B. também não parecia estar planejando nenhum ataque, disse Lotthammer. Se a equipe tivesse qualquer indício em contrário, teria acionado as autoridades policiais. Ela não quis comentar se a organização acreditava que Abdul B. deveria ter sido libertado da detenção, afirmando que essa é uma decisão que cabia à Justiça.

Quando ainda era menor de idade, em 2022, o jovem já havia sido condenado por lesão corporal dolosa e extorsão violenta.

O suspeito estava sendo vigiado pelas autoridades?

Depois que Abdul B. foi solto, em maio deste ano, autoridades que atuam no combate ao terrorismo o classificaram como uma ameaça de alto risco, por considerá-lo capaz de cometer crimes violentos graves.

Isso levou a polícia a interceptar o telefone dele e a instalar uma câmera escondida de vigilância em frente à entrada do prédio onde vivia, segundo a imprensa alemã.

No início de julho, a polícia revistou a casa dele depois de flagrá-lo pelas câmeras saindo de casa com uma arma na mão. Mas constatou que o objeto era de brinquedo.

A mesma câmera registrou o momento exato em que ele deixou o prédio, às 20h58 do sábado, pouco antes do atentado.

Qual era a motivação do crime?

O crime foi classificado pelo ministro alemão do Interior, Alexander Dobrindt, como um "ataque terrorista islamista". O Procurador-Geral da Alemanha assumirá as investigações, conforme anunciou a ministra da Justiça, Stefanie Hubig. O Ministério Público Federal, como autoridade acusatória máxima, em Karlsruhe, já assumiu oficialmente os trâmites.

Sede também do Tribunal Federal de Justiça e do Tribunal Constitucional Federal, a cidade de Karlsruhe geralmente assume as investigações em casos de crimes graves contra a segurança interna ou externa da Alemanha - a exemplo de terrorismo, traição à pátria e espionagem.

Investigadores encontraram no celular do suspeito morto um vídeo mostrando uma pessoa mascarada que jura lealdade ao "Estado Islâmico". O material ainda está sendo periciado, mas acredita-se que a pessoa do vídeo seja o próprio Abdul B.

Há mais suspeitos?

Segundo a polícia, o veículo usado no atentado era particular, e não alugado. O automóvel, vazio e bastante danificado, foi apreendido nas proximidades do local do crime. A área ao redor foi amplamente isolada, e o Tiergarten foi vasculhado durante a noite com câmeras infravermelhas.

Ainda não se sabe se era Abdul B. quem conduzia o veículo, nem a quem pertence a van. Os investigadores acreditam que, após a "fase da condução" do automóvel, houve uma segunda fase do crime, na qual alguém pode ter saído do veículo e atacado pessoas com armas brancas.

Na coletiva de imprensa na tarde de domingo, Dobrindt afirmou que o agressor teria atacado transeuntes com um facão. De acordo com depoimentos de testemunhas, há versões divergentes sobre se houve um único ou mais agressores - o número exato, portanto, ainda não foi esclarecido.

O ataque poderia ter sido evitado?

De acordo com especialistas, atos terroristas como o que ocorreu na parada CSD em Berlim são muito difíceis de evitar.

"Acredito que um Estado, ou mesmo a União Europeia, isto é, uma comunidade de Estados, poderia adotar inúmeras medidas para garantir a segurança das pessoas", afirmou Felix Neumann, especialista em terrorismo da Fundação Konrad Adenauer.

No entanto, ele não acredita que seja possível garantir totalmente a segurança de todos: "Sempre haverá pessoas que, por qualquer motivo que seja, recorrerão à violência e, então, encontrarão alguma brecha".

Questionado sobre como o suspeito conseguiu invadir a área da parada LGBTQ+ com tanta facilidade, apesar das barreiras instaladas, o pesuisador Rafael Bossong, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), disse: "Depende da hora e do local. Neste caso, o Tiergarten é uma área ampla, a cerimônia estava chegando ao fim, então talvez as restrições de trânsito tivessem sido flexibilizadas", especulou.

Segundo Bossong, mais de 9 mil radicais islâmicos com aparentes tendências violentas vivem na Alemanha. Ele ressalta que, embora as autoridades estejam melhorando o monitoramento e neutralização de ameaças, o ataque em Berlim parece ter sido perpetrado por "uma figura secundária, com antecedentes criminais, mas sem afiliação clara [ao terrorismo islâmico] e sem indícios claros na internet de que estivesse se preparando para atacar".

Como o governo reagiu?

O chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, apelou à população para não se deixar intimidar: "A violência não começa apenas com um atentado. A violência começa com a intolerância, com a exclusão, com a discriminação, com frases sem sentido e piadas de mau gosto", afirmou Merz na noite de domingo.

Nesta segunda-feira, o chanceler federal disse que ainda era "muito cedo para dizer quais conclusões políticas nós vamos tirar desse ataque brutal, mas está claro que teremos que ir além de palavras". "Teremos que responder à pergunta sobre como um homem com esse perfil pôde chegar perto [da parada] desimpedido e cometer esse tipo de ataque."

O atentado ocorre às vésperas de três eleições regionais marcadas para setembro nos estados da Saxônia-Anhalt, Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, com o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) bem posicionado nas pesquisas. O caso provavelmente intensificará o debate sobre migração e segurança — dois temas nos quais a AfD se destaca com posições nacionalistas e contrárias à imigração.

Histórico de atropelamentos

A Alemanha registrou uma série de atropelamentos em massa com vítimas fatais nos últimos anos: em Munique (2025), Magdeburg(2024), Trier(2020), e Berlim(2016).

O tema foi amplamente debatido durante a campanha que precedeu as eleições parlamentares, no início de 2025.

Ao final de 2025, autoridades municipais se viram obrigadas a reforçar as medidas de segurança nas mais de 3 mil feiras de Natal no país, criando barreiras para impedir o tráfego de veículos.

Para Bossong, do SWP, grupos islamistas descobriram uma "estratégia bem-sucedida" nos ataques com atropelamentos em grandes eventos por toda a Europa.

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