O que está por trás da aproximação entre Rússia e o Talibã
O governo de Vladimir Putin e o regime fundamentalista no comando do Afeganistão assinaram acordo para o reparo de armas da era soviética, despertando velhos traumas na região.A Rússia e o Talibã assinaram um acordo de cooperação técnico-militar, em 27 de maio, em cerimônia com a presença do secretário do Conselho de Segurança russo, Sergei Shoigu, e do ministro da Defesa talibã, mulá Mohammad Yaqoob. O teor completo do acordo e do encontro não foi divulgado.
Ao voltar de Moscou, Yaqoob tratou logo de mandar um recado para um vizinho em especial. Ainda no aeroporto de Cabul, afirmou a repórteres que o acordo passaria a valer em breve e que, uma vez implementado, o Paquistão não ousaria mais realizar ataques contra o Afeganistão.
Ao mesmo tempo, o ministro afegão tentou minimizar preocupações internacionais sobre a cooperação militar entre o regime e Moscou. O grupo fundamentalista islâmico retomou o controle do país em 2021, após a retirada das tropas dos Estados Unidos e da Otan. Desde então, estabeleceu um governo "de facto", reconhecido formalmente apenas pela Rússia.
Yaqoob insistiu que o acordo não é um pacto de defesa ou segurança. Trata-se de um entendimento com o governo de Vladimir Putin voltado ao reparo e à manutenção de sistemas de armas de fabricação russa já presentes no arsenal afegão, incluindo helicópteros e outras aeronaves.
História conturbada com a União Soviética
As tropas soviéticas invadiram o Afeganistão no fim de 1979 e permaneceram por uma década tentando sustentar um regime aliado. Após serem derrotadas por milícias financiadas pelos EUA, deixaram pra trás alguns sistemas de defesa. Muito desse equipamento continua em uso até hoje.
O que se seguiu foi um período de guerra civil entre milícias. O Talibã tomou o poder pela primeira vez em 1996. Em 2001, o regime foi derrubado pelos EUA e a Otan, que incluíram helicópteros russos, especialmente o modelo MI-17, na força aérea afegã. Pilotos e técnicos afegãos já eram familiarizados com esses equipamentos, considerados ainda mais adequados ao terreno acidentado do país.
Yaqoob chegou a sugerir que acordos semelhantes de reparo de patrimônio militar poderiam ser firmados com os EUA, observando que armamentos americanos também foram deixados para trás após a invasão e intervenção americana no país, que durou até 2021.
Por que o momento do acordo importa
As declarações de Yaqoob ocorrem em meio ao aumento das tensões com o Paquistão, incluindo trocas de tiros na fronteira e ataques aéreos em território afegão. Islamabad acusa reiteradamente o Talibã de abrigar militantes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), também conhecido como Talibã paquistanês, acusação negada pelo grupo.
Enquanto o regime em Cabul busca reforçar suas capacidades militares e enviar um sinal ao Paquistão, a Rússia parece interessada em usar o apoio como propaganda, à medida que a influência ocidental diminui.
Segundo a agência estatal russa TASS, o secretário do Conselho de Segurança russo, Sergei Shoigu, manifestou oposição à instalação de bases ou infraestrutura militar dos EUA ou da Otan no Afeganistão ou em países vizinhos — uma posição alinhada ao objetivo de Moscou de manter a região sob um arranjo de segurança não ocidental.
Relação "pragmática"
Abas Basir, ex-ministro do governo afegão deposto pelo Talibã, define a relação entre o grupo e a Rússia como "pragmática e baseada em interesses", mais do que uma aliança política genuína.
Na avaliação dele, uma das principais preocupações de Moscou é o Estado Islâmico Khorasan (ISIS-K) e o risco de o grupo usar o território afegão para desestabilizar a Ásia Central e, eventualmente, ameaçar a segurança interna russa. Como o Talibã combate o ISIS-K, Basir afirma que Moscou o vê como um "amortecedor de segurança relativo".
Para o Talibã, a aproximação traz legitimidade política regional e oportunidades econômicas, como comércio e importação de energia e grãos, em um momento de forte crise econômica. Basir observa ainda que o grupo busca diversificar suas relações externas para evitar depender de poucos aliados.
Falta de transparência
Besmillah Taban, analista de segurança e política, alerta que ainda é cedo para tirar conclusões sobre o conteúdo do acordo, dado o histórico de ambos os lados de restringir informações.
Segundo ele, o Talibã também tem usado a visita a Moscou para melhorar sua imagem dentro de casa, em meio ao desgaste de confiança provocado pelos ataques paquistaneses.
Há ainda um movimento, observado por Taban, de moderação de expectativas por parte de Moscou. Depois que Yaqoob ampliou o alcance público do acordo, autoridades russas se apressaram em frisar que, por ora, o entendimento se limita à recuperação de equipamentos herdados da era soviética.
Rússia volta seu olhar para o sul
Analistas avaliam que o principal interesse da Rússia no Afeganistão continua sendo a segurança, incluindo o controle do fluxo de narcóticos pela Ásia Central. Fora isso, a presença econômica de Moscou no país ainda é limitada, o que torna incerto um compromisso estratégico de longo prazo.
Para o Talibã, o cálculo é mais imediato. Com o aumento da pressão paquistanesa e a deterioração de suas capacidades militares, o grupo precisa de sistemas utilizáveis e de parceiros dispostos a garantir manutenção.
Especialistas destacam que equipamentos mais recentes, de origem americana, são difíceis de sustentar sem peças e apoio externo, ao passo que sistemas russos podem ser mais facilmente mantidos se os canais forem reativados.
Ghaus Janbaz, ex-diplomata afegão na Rússia, afirma que o acordo não deve ser visto como puramente técnico.
"Ele inclui cooperação militar e técnica, mas, em grande medida, tem uma dimensão política", disse à DW.
Em meio aos desafios da guerra na Ucrânia e às tensões com a Europa Ocidental, ele avalia que a Ásia Central e o entorno do Afeganistão se tornaram ainda mais sensíveis no planejamento de segurança de Moscou.
"O Afeganistão também faz fronteira com esses países, e existe a possibilidade de ameaças emergirem por essa via em direção a eles e à própria Rússia, por isso Moscou busca proteger esse corredor", afirmou.
Reaproximação apesar do passado
Há ainda a avaliação de que a aproximação entre Rússia e Talibã é parte de uma mudança regional mais ampla.
O pesquisador de relações internacionais afegão Idrees Rahmani observa que seu país tem sido arrastado para disputas entre potências devido à fragilidade estrutural de sua economia. Sem uma base sólida, governos tendem a se alinhar a quem afirma garantir a sobrevivência do país — o que tem seus custos, como depois vem à tona.
Ele aponta uma sobreposição de tensões, como a rivalidade entre EUA e China, o conflito entre Rússia e Ocidente pela guerra na Ucrânia, além da disputa entre Índia e Paquistão e as dinâmicas do Oriente Médio. Segundo Rahmani, o risco é que o Afeganistão seja lançado "como um redemoinho" em meio a essas turbulências.
A aproximação com Moscou chama atenção também pelo contexto histórico. A invasão soviética de 1979 e a guerra subsequente estão entre os maiores traumas do país, forçando milhões a fugir e moldando a sociedade afegã por décadas.
O fato de a Rússia agora se apresentar como parceira de segurança mostra como interesses geopolíticos podem rapidamente se rearranjar, relativizando o peso da história na política contemporânea.
O Talibã surgiu do cenário pós-soviético e construiu parte de sua legitimidade com base na retórica religiosa contra "ocupantes" estrangeiros. Hoje, ironicamente, mulá Yaqoob, filho do fundador do grupo, mulá Omar, exalta um acordo militar com a potência que um dia invadiu o Afeganistão.
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