O que é o hantavírus, atribuído a surto em cruzeiro
Transmitida por ratos, Brasil registrou quase mil casos da doença em dez anos, sobretudo na região Sul. Sintomas podem aparecer em até oito semanas após infecção.A morte de três pessoas e o adoecimento de mais três a bordo de um navio de cruzeiro foi atribuído a um suspeito surto de hantavírus no domingo (04/05), de acordo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O caso foi registrado quando a embarcação MV Hondius percorria a rota entre Ushuaia, na Argentina, e Cabo Verde.
A agência das Nações Unidas reportou em comunicado que investigações detalhadas estão em andamento, incluindo novos testes laboratoriais e investigações epidemiológicas. O sequenciamento do vírus também está em curso.
Surto pode sair do navio?
O hantavírus é transmitido principalmente pelo contato com roedores ou com sua urina, saliva ou fezes. Só em casos raros há transmissão direta entre humanos, diz a OMS.
Por ora, não está clara a extensão do surto nem onde ele começou - nem, portanto, a magnitude dos riscos sanitários. O longo tempo de incubação do vírus dificulta o diagnóstico, uma vez que pode demorar até várias semanas para a doença se manifestar.
O navio está parado perto de Praia, capital de Cabo Verde, sem autorização de desembarque, a fim de proteger a população local.
As pessoas geralmente são expostas ao hantavírus em casas, cabanas ou galpões, sobretudo ao limpar espaços fechados com pouca ventilação ou explorar áreas onde há fezes de camundongos. Os roedores podem carregar o vírus por toda a vida sem adoecer.
A OMS afirmou nesta segunda-feira que não há motivo para pânico ou restrições de viagens e que o risco para o público em geral é baixo. "As infecções por hantavírus são incomuns e geralmente estão ligadas à exposição a roedores infectados. Embora graves em alguns casos, não são facilmente transmitidas entre pessoas", destacou o diretor regional da agência para a Europa, Hans Kluge, em um comunicado.
Quais são os sintomas de hantavirose?
Os primeiros sintomas da infecção são geralmente semelhantes aos da gripe - febre, dores de cabeça e dores musculares - e as duas doenças mais comuns causadas por infeção por hantavírus são a "síndrome pulmonar por hantavírus" (SPH), presente no continente americano, e a "febre hemorrágica com síndrome renal" (FHSR), mais frequente na Europa e na Ásia.
"No início da doença, realmente pode ser difícil diferenciar o hantavírus de uma gripe", disse Sonja Bartolome, médica do UT Southwestern Medical Center, em Dallas.
Quando ocorre síndrome pulmonar por hantavírus, os sintomas geralmente aparecem entre uma e oito semanas após o contato com um roedor infectado. A infecção pode progredir rapidamente, e pacientes costumam relatar sensação de aperto no peito, porque os pulmões se enchem de água. A SPH tem uma alta taxa de mortalidade, de cerca de 40%.
Já nos casos de febre hemorrágica com síndrome renal, geralmente a doença se manifesta dentro de uma ou duas semanas. A mortalidade varia de 1% a 15% dos pacientes, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).
Casos no Brasil
A síndrome pulmonar por hantavírus é mais comumente encontrada na América do Norte e na América do Sul. No caso sul-americano, a constatação de importante comprometimento cardíaco levou a hantavirose a ser chamada de Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH).
Dados do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, houve 31 casos confirmados no ano passado, em comparação a 44 em 2024 e 115 em 2015. De 2015 a 2025, foram 948 casos confirmados. A mortalidade média é de 46,5% no país.
"Diversos fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homens e roedores silvestres," explica a pasta.
A região Sul é o epicentro de infecções diagnosticadas, registrando 17 casos em 2025. "As infecções ocorrem principalmente em áreas rurais, em situações ocupacionais relacionadas à agricultura, sendo o sexo masculino com faixa etária de 20 a 39 anos o grupo mais acometido," diz ainda o Ministério da Saúde.
Outros casos na História
Estudos indicam que os hantavírus existem há séculos, com surtos documentados na Ásia e na Europa. No Hemisfério Oriental, eles têm sido associados, sobretudo, à febre hemorrágica e à insuficiência renal.
Segundo a revista médica The Lancet, o nome vem da região do rio Hantan, na Coreia do Sul, onde o vírus foi identificado na década de 1970.
No início da década de 1990 um grupo até então desconhecido de hantavírus surgiu no sudoeste dos Estados Unidos como causa de uma doença respiratória aguda, hoje conhecida como síndrome pulmonar por hantavírus.
Autoridades sanitárias começaram a monitorar o vírus após um surto ocorrido em 1993 em quatro estados - Arizona, Colorado, Novo México e Utah. A doença ganhou atenção no ano passado após a morte de Betsy Arakawa, esposa do ator Gene Hackman, após uma infecção por hantavírus.
Em 2020, pelo menos um caso de transmissão do vírus de Seul, que pertence à família do hantavirus, foi confirmado por autoridades.
Incógnita sobre tratamento
Ainda não há tratamento específico e nem cura para a doença, mas o atendimento médico precoce pode aumentar as chances de sobrevivência.
Apesar de anos de pesquisa, restam muitas perguntas não respondidas. Não está claro por que a doença é leve para alguns e muito grave para outros, nem como os anticorpos se desenvolvem.
A melhor forma de evitar o vírus é minimizar o contato com roedores e suas fezes. Especialistas recomendam o uso de luvas de proteção e uma solução de água sanitária para limpar fezes de roedores. Alertam, ainda, contra varrer ou aspirá-las, o que pode fazer o vírus se dispersar no ar.
O Ministério da Saúde lista ainda como medidas de prevenção roçar o terreno perto de casas, dar destino adequado ao entulho e manter alimentos estocados em recipientes fechados e à prova de roedores.
ht/cn (AP, Reuters, ots)
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