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O que a história revela sobre interferências externas no Irã?

Interferências estrangeiras não são novidade no Irã. Elas têm sido relativamente frequentes e, em geral, penalizaram os próprios iranianos

15 jan 2026 - 16h28
(atualizado às 17h04)
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Os recentes protestos em favor da queda do regime islâmico no Irã suscitaram o interesse do presidente americano, que passou a ocupar sua rede social com o assunto. Em seus posts, Donald Trump incentivou a população a derrubar o regime e se apresentou como defensor da população iraniana contra a repressão oficial. E ainda prometeu "fazer o Irã grande novamente", cunhando um novo acrônimo para sua coleção, o MIGA (Make Iran Great Again). Trump ainda ameaçou retaliar com ataques aéreos se o regime não cessar a contenção violenta dos manifestantes.

Interferências estrangeiras não são novidade no Irã. Elas têm sido relativamente frequentes e, em geral, penalizaram os próprios iranianos. Uma delas ocorreu no século XIX, quando ainda era uma monarquia conhecida como Pérsia e as ricas reservas de petróleo não haviam sido descobertas. O monarca da então enfraquecida dinastia Qajar, xá Naser al-Din, assinou em 1880 um acordo secreto em que concedia o monopólio do tabaco para uma empresa britânica.

Além de obter os direitos para plantação, comercialização e exportação, a companhia estrangeira também venderia para o mercado interno iraniano. Ou seja, tanto produtores, comerciantes assim como os consumidores iranianos teriam de pagar aos britânicos por um produto nacional.

Uma revolta popular, instigada por líderes religiosos xiitas, teve início no ano seguinte. Um desses líderes, Mirza Hassan Shirazi, lançou uma fatwa (uma opinião jurídica formal emitida por uma autoridade religiosa) contra a concessão e instigou um boicote ao consumo.

O sucesso do boicote foi tão grande que teria obtido a adesão das esposas do xá Naser al-Din. A violenta repressão e a promessa de retirada da concessão para consumo interno não dissuadiram os manifestantes. A saída foi decretar o cancelamento da concessão, que demandou uma alta compensação financeira para os britânicos, originária de empréstimos contraídos no exterior, o que certamente prejudicou os cofres públicos.

A descoberta do petróleo e o envolvimento americano

O interesse britânico no Irã não se esvaiu. Com a descoberta das reservas de petróleo no Golfo Pérsico, foi fundada em 1913 a companhia Anglo-Persian Oil Company, que no ano seguinte passou a ter controle britânico. Em 1951, o primeiro-ministro Muhammad Mossadegh, recentemente eleito, e que havia promovido uma série de reformas sociais que beneficiaram grande parte da população, decretou a nacionalização da companhia e expropriou os britânicos de seus ativos para revertê-los em prol do bem-estar social.

Desta vez, Londres contou com a ajuda americana para reverter a situação. Um grupo de agentes da CIA, sob a liderança de Kermit Roosevelt, neto do ex-presidente Theodor,promoveu um golpe utilizando suborno e outras técnicas para obter o apoio de setores da imprensa e da elite iraniana em favor de seus interesses. O resultado foi uma pressão interna que provocou em 1953 a queda do primeiro-ministro democraticamente eleito e a reversão da nacionalização. O impopular xá Mohammed Reza Pahlevi, que havia fugido do país durante a crise, foi reinstalado no poder e Mossadegh acabou seus dias em prisão domiciliar.

A guerra Irã x Iraque

Outra ferida aberta em relação aos Estados Unidos foi o apoio dado ao Iraque na guerra contra o Irã entre 1980-1988. Sadam Hussein ordenou a invasão do vizinho a fim de conquistar territórios há muito cobiçados. O ditador percebeu a oportunidade devido à fragilidade institucional em que o Irã se encontrava após a revolução de 1979. Os americanos forneceram financiamento, armamentos e inteligência para que Hussein derrotasse rapidamente os iranianos, então inimigos declarados dos EUA desde a crise dos reféns de 1979.

O envolvimento americano foi responsável pelo prolongamento da guerra e pelo consequente alto número de fatalidades de ambos os lados, que varia entre um a dois milhões de mortos. Há poucos anos, vieram a público documentos que comprovam que os EUA forneceram informações de satélite sobre vulnerabilidades das defesas iranianas e permitiu que os iraquianos usassem armas químicas contra a população civil inimiga já no final da guerra, num dos mais letais ataques de gás já registrados.

O fator Israel

A mais recente interferência externa se deu durante o conflito entre Israel e Irã em junho de 2024, quando os EUA cederam apoio logístico e informações a Tel Aviv. Os bombardeios aéreos israelenses em várias localidades iranianas provocaram a morte de pelo menos 1.190 pessoas entre civis e militares, além de ferimentos em mais de 4.475. E, claro, resultou na destruição de centenas de prédios e de infraestrutura pública.

As sanções econômicas promovidas pelos EUA há décadas - que envolvem não somente transações financeiras, mas também o embargo a compras de equipamentos médicos, peças de aviões, entre outros, além do banimento de viagens e vistos para cidadãos do país - também provocam prejuízos ao povo iraniano. Considerando que, além de não terem derrubado o regime em quase cinco décadas, é notório que as sanções fortaleceram o poder de coerção estatal e provocaram mais sofrimento para a população.

Os iranianos têm uma longa história e são muito orgulhosos dela. Na longa cena inicial de Um Herói, de Asghar Farhadi, filme vencedor do Grand Prix do Festival de Cannes em 2021, o protagonista sobe um andaime até o topo do enorme túmulo de 60 metros do rei aquêmida Xerxes I, que governou o império persa no século V a.C. Além de ser uma alegoria em torno do título do filme, a cena também não deixa de contemplar o orgulho desse povo de sua história milenar e das lições que ela pode trazer.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Isabelle Christine Somma de Castro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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