O que a eleição colombiana significa para a América Latina e o Brasil
Eleição colombiana mostra que a disputa no continente não é apenas entre esquerda e direita — é também entre modelos diferentes de poder, segurança e relação com a democracia
Fique atento: o que acontecerá em Bogotá em 21 de junho de 2026 vai mudar o mapa político da América Latina — e isso afeta diretamente o Brasil nas vésperas de sua própria eleição, em outubro.
O primeiro turno das eleições presidenciais colombianas, ocorrido dia 31 de maio, produziu um resultado que vai muito além das fronteiras do país. O ultradireitista Abelardo de la Espriella ficou em primeiro lugar com 43,7% dos votos — mais de 10,3 milhões de sufrágios —, seguido pelo candidato de esquerdaIván Cepeda, com40,9%, ou 9,6 milhões de votos. Asegunda volta está marcada para 21 de junho. O vencedor definirá com qual bloco político a Colômbia vai se alinhar nos próximos quatro anos: o da esquerda progressista ou o da direita dura que vem varrendo o continente.
O resultado colombiano não surgiu do nada. Em 2025,a direita venceu as quatro únicas eleições presidenciais realizadas na América Latina. No Equador, Daniel Noboa foi reeleito com 55% dos votos. Na Bolívia, Rodrigo Paz encerrou 20 anos de domínio do esquerdismo de Evo Morales.
Em Honduras, o conservador Nasry "Tito" Asfura, abertamente apoiado por Donald Trump, foi declarado presidente com 40,26% dos votos em um processo marcado por disputas e acusações de irregularidades. No Chile, o ultraconservador José Antonio Kast derrotou a candidata de esquerda Jeannette Jara com 58,16% dos votos — o maior giro à direita do país desde o fim da ditadura de Pinochet.
Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador completam esse eixo de líderes que compartilham um mesmo manual: discurso contra os partidos tradicionais, punição máxima como resposta à violência e desgaste dos marcos multilaterais de direitos humanos. De la Espriella admira abertamente todos eles e promete levar esse modelo à Colômbia.
Advogado penalista de 47 anos, De la Espriella ficou famoso no país por defender paramilitares e figuras ligadas ao tráfico de drogas. Construiu sua campanha como uma estratégia de choque: palavrões em discursos, roupas militares e frases de efeito que viralizavam nas redes sociais. Sua proposta para acabar com mais de 60 anos de conflito armado é simples ao ponto de parecer irreal: em 90 dias, quer resolver tudo com bombardeios aéreos, apoio militar de Israel e dos Estados Unidos, destruição de plantações de coca e a construção de dez megapresídios. A retórica funciona com o eleitorado farto da violência cotidiana, mas não responde à complexidade de um problema com raízes sociais, territoriais e históricas muito profundas.
Há um dado que revela muito sobre essa eleição:as pesquisas erraram de forma espetacular. Na semana anterior ao voto, as principais sondagens colocavam De la Espriella entre 27% e 37% das intenções de voto. Ele chegou a 43,7% — uma diferença de até 16 pontos em alguns levantamentos. Isso mostra que seu apoio real era muito maior do que a maioria das pessoas estava disposta a admitir publicamente.
Iván Cepeda é senador pelo Polo Democrático, partido de esquerda. Ao longo de décadas, ficou conhecido como um dos defensores mais consistentes dos direitos humanos na Colômbia e participou de mesas de diálogo com o ELN. Representa a continuidade do projeto político de Gustavo Petro, o presidente atual — o que é tanto um trunfo quanto um peso, numa Colômbia que avaliou o governo Petro com notas baixas em segurança e economia.
Para o Brasil, isso é um alerta estratégico. Lula e Petro vinham atuando como um eixo de coordenação progressista na América do Sul, sobretudo em temas como Amazônia, integração regional e cooperação política na CELAC. Uma vitória de De la Espriella quebraria essa parceria. Uma Colômbia alinhada ao eixo Trump-Milei-Bukele colocaria o Brasil ainda mais isolado na região, justamente quando Lula e a direita aparecem tecnicamente empatados nas pesquisas para outubro de 2026. O espaço para construir consensos em foros como a CELAC e a UNASUL — os blocos de integração latino-americanos — ficaria ainda mais estreito.
A variável decisiva na segunda volta é o eleitorado de centro, representado por Sergio Fajardo, matemático e ex-prefeito de Medellín. Ele terminou em quarto lugar com pouco mais de 1 milhão de votos, cerca de 4,25% do total.
São eleitores urbanos, escolarizados e desconfiados tanto do autoritarismo de direita quanto do voluntarismo de esquerda. Fajardo disse que seu milhão de votos "vai se fazer ouvir" e prometeu ser "protagonista" na definição do resultado — mas não anunciou apoio a nenhum candidato ainda. Numa disputa separada por menos de três pontos percentuais, esse grupo pode decidir tudo.
Para o Brasil, o desfecho em Bogotá também importa por outro motivo: ele pode ampliar ou reduzir a margem de manobra de Lula num continente cada vez mais fragmentado. Se a Colômbia se aproximar da direita dura regional, Brasília perde um parceiro importante em temas estratégicos. Caso Cepeda vença, o Brasil mantém um ponto de apoio político relevante na América do Sul. Em qualquer cenário, a eleição colombiana mostra que a disputa no continente não é apenas entre esquerda e direita — é também entre modelos diferentes de poder, segurança e relação com a democracia.
Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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