O que a cirurgia do papa Leão XIV ensina sobre o diagnóstico e o tratamento do câncer de pulmão
Um exame do tecido pulmonar do pontífice de 71 anos, realizado durante a operação, confirmou apresença de um adenocarcinoma, o subtipo mais frequente de câncer de pulmão, que no caso do papa foi retirado com sucesso
O papa Leão XIV passou por cirurgia para retirar um adenocarcinoma pulmonar, descoberto por acaso em exames de rotina. O caso evidencia a importância do diagnóstico precoce e da análise do estágio tumoral na maior causa de mortes por câncer no mundo. A intervenção cirúrgica com intenção curativa pode exigir terapias complementares, como quimioterapia, imunoterapia ou terapia-alvo, reforçando que o sucesso do tratamento depende de avanços científicos e do acesso rápido à assistência médica.
O diagnóstico de câncer costuma provocar preocupação e muitas dúvidas. Quando envolve uma figura pública, como o papa Leão XIV, desperta também interesse sobre a doença e as suas possibilidades de tratamento.
Em 13 de outubro de 2026, o papa Leão XIV foi submetido a uma cirurgia para retirada do lobo inferior do pulmão direito, no Hospital Gemelli, em Roma. Um exame do tecido realizado durante a operação confirmou um adenocarcinoma pulmonar, o subtipo mais frequente de câncer de pulmão, já suspeitado pelos médicos nos exames anteriores. Segundo a Santa Sé, a cirurgia ocorreu sem complicações.
O pontífice, de 71 anos, nasceu em Chicago, nos Estados Unidos, e também tem cidadania peruana, adquirida em 2015, após décadas de atuação religiosa no Peru. Eleito papa em 8 de maio de 2025, sucedeu Francisco e tornou-se o primeiro norte-americano a liderar a Igreja Católica.
O câncer de pulmão é a principal causa de mortes por câncer no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), foram aproximadamente 2,5 milhões de novos casos e 1,8 milhão de mortes em 2022. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 35.380 novos casos por ano no triênio 2026-2028, considerando os cânceres de traqueia, brônquios e pulmão.
O tabagismo é seu principal fator de risco, mas a doença também pode ocorrer em pessoas que nunca fumaram. Exposição passiva à fumaça do cigarro, poluição atmosférica e determinados fatores genéticos e ocupacionais também podem contribuir para seu desenvolvimento.
O diagnóstico e o estágio da doença
O câncer de pulmão não é uma doença única. Existem dois grandes grupos: o câncer de pulmão de não pequenas células, responsável por cerca de 80% a 85% dos casos, e o de pequenas células, que representa aproximadamente 10% a 15%.
O primeiro grupo reúne diferentes subtipos, como o adenocarcinoma, diagnosticado no papa Leão XIV, o carcinoma de células escamosas e o carcinoma de grandes células. O câncer de pequenas células costuma crescer e se disseminar mais rapidamente e tem forte associação com o tabagismo. Existem ainda tumores pulmonares mais raros, como os carcinoides.
No caso do papa, o tumor foi descoberto por acaso, durante exames de imagem do abdome realizados por outros motivos. Segundo o cirurgião Stefano Margaritora, o nódulo foi identificado na base do pulmão, região que também pode aparecer nas imagens de exames abdominais. O pontífice não apresentava sintomas respiratórios.
A descoberta de um nódulo pulmonar não significa necessariamente a presença de câncer. É preciso avaliar suas características e, quando indicado, realizar exames complementares para esclarecer o diagnóstico.
Mesmo depois da confirmação de um tumor maligno, não basta conhecer seu subtipo para determinar o prognóstico. É necessário avaliar o tamanho do tumor, o comprometimento dos linfonodos — pequenas estruturas que fazem parte do sistema de defesa do organismo — e a eventual presença de células cancerosas em outros órgãos.
Essa avaliação permite estabelecer o estágio da doença, informação fundamental para definir as possibilidades de tratamento. Tumores localizados podem ser tratados com cirurgia, enquanto situações em que a doença está mais disseminada exigem outras estratégias terapêuticas.
Da cirurgia aos tratamentos personalizados
A cirurgia realizada no papa é chamada de lobectomia e consiste em retirar o lobo do pulmão que contém o tumor, preservando o restante do órgão. Em pacientes selecionados, quando a doença está localizada e pode ser completamente removida, esse procedimento oferece uma possibilidade de tratamento com intenção curativa.
No caso de Leão XIV, a operação foi realizada por técnica videoassistida, que utiliza uma câmera e pequenas incisões para permitir a retirada do lobo comprometido. O procedimento durou aproximadamente 90 minutos.
Além de retirar o tumor, a cirurgia permite analisar detalhadamente o tecido e os linfonodos, ajudando a determinar o estágio da doença. A operação, entretanto, não significa necessariamente que o tratamento terminou.
Dependendo do estágio da doença, dos resultados da análise anatomopatológica e das características moleculares do tumor, pode ser necessário complementar a cirurgia com quimioterapia, imunoterapia ou terapia-alvo. Em situações específicas, esses tratamentos podem reduzir o risco de recorrência, ou seja, de o câncer voltar a se manifestar após o tratamento.
A quimioterapia utiliza medicamentos que atuam sobre as células cancerosas. A imunoterapia estimula a capacidade do sistema imunológico de reconhecer e combater o tumor. Já as terapias-alvo agem sobre alterações moleculares específicas, presentes em determinados tipos de câncer.
Os avanços da oncologia ampliaram essas possibilidades. Hoje, a análise molecular permite identificar alterações genéticas dos tumores que podem indicar maior probabilidade de resposta a determinados medicamentos. Entre elas estão mutações no gene EGFR e rearranjos do gene ALK, que podem orientar a utilização de terapias-alvo. Esses tratamentos passaram a fazer parte das opções disponíveis para grupos específicos de pacientes, inclusive em algumas situações após a cirurgia.
No caso do papa Leão XIV, a definição sobre a necessidade de tratamento complementar depende dos resultados completos da avaliação médica. Embora a cirurgia tenha ocorrido sem complicações e o pontífice tenha recebido alta hospitalar em 17 de outubro, não é possível estabelecer seu prognóstico individual apenas com as informações divulgadas até agora.
Diagnóstico precoce e acesso ao tratamento
O câncer de pulmão pode permanecer silencioso durante parte de sua evolução. Quando surgem sintomas, eles podem incluir tosse persistente, falta de ar, dor torácica, rouquidão, sangue no escarro e perda de peso inexplicada. Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas justificam avaliação médica.
A investigação pode incluir exames de imagem e, quando necessário, biópsia para confirmar o diagnóstico. Descobrir o tumor em fase inicial pode ampliar as possibilidades terapêuticas e aumentar a chance de cura.
É importante, entretanto, distinguir diagnóstico precoce de rastreamento. O primeiro envolve investigar sinais, sintomas ou alterações suspeitas. O segundo procura a doença em pessoas sem sintomas, selecionadas conforme seu risco.
No câncer de pulmão, o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose pode ser indicado para pessoas com maior risco de desenvolver a doença. A recomendação da Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF) contempla pessoas de 50 a 80 anos, com histórico de tabagismo de pelo menos 20 maços-ano, que ainda fumam ou pararam há menos de 15 anos. Vinte maços-ano equivalem, por exemplo, a fumar um maço de cigarros por dia durante 20 anos. Esses critérios são de uma diretriz norte-americana e não substituem a avaliação individual.
A descoberta incidental do tumor do papa não constitui um exemplo de rastreamento, pois o nódulo foi identificado durante exames realizados por outro motivo.
Os avanços nos tratamentos também tornam necessário garantir que os pacientes tenham acesso aos exames capazes de identificar as características moleculares de seus tumores. Sem essa avaliação, algumas pessoas podem deixar de receber terapias potencialmente mais adequadas às características da doença.
O caso do papa Leão XIV mostra como a identificação de um tumor e a avaliação de suas características orientam as decisões médicas. Para os pacientes com câncer de pulmão, as possibilidades de tratamento dependem não apenas dos avanços científicos, mas também da capacidade dos sistemas de saúde de oferecer diagnóstico e assistência em tempo adequado.
Carlos Henrique A. Teixeira é coordenador da oncologia torácica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) desse hospital.
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