O país que o próximo presidente vai encontrar
Otávio Fakhoury analisa um cenário de dívida crescente, juros altos, desaceleração e grandes mudanças tributárias
O próximo presidente enfrentará um Congresso dominado pela direita e uma grave crise fiscal, com a dívida pública em rota insustentável impulsionada por juros altos. O cenário inclui perda de fôlego na atividade econômica, desaceleração do consumo, orçamento engessado para investimentos e o desafio estrutural da baixa produtividade. Além de negociar apoio político, o governo precisará equilibrar as contas públicas e coordenar a fase prática da reforma tributária a partir de 2027.
Passado o primeiro turno das eleições, começa outra discussão tão importante quanto a disputa pelo Palácio do Planalto: qual país o próximo governo encontrará pela frente? Uma parte importante desse cenário já está definida. O PL saiu das urnas como a maior força do novo Congresso. Na Câmara dos Deputados, elegeu 121 dos 513 parlamentares, enquanto o conjunto dos partidos de direita passou a ocupar cerca de 59% das cadeiras. No Senado, onde dois terços das vagas foram renovados, o PL também terá a maior bancada: 28 dos 81 senadores.
Para a economia, a nova composição do Congresso pode abrir mais espaço para propostas de contenção de gastos, reformas administrativas e mudanças nas regras fiscais, pautas que são abertamente defendidas por partidos que ganharam peso nas urnas. Mas não significa, por si só, que haverá maior disciplina fiscal. Nenhum partido tem maioria suficiente para aprovar sozinho essa agenda econômica, que continuará dependendo de negociações entre o Executivo, o PL, o Centrão e outras bancadas. E, claro, de quem vencer a Presidência e de sua capacidade de formar maioria.
E talvez o desafio mais imediato esteja nas contas públicas. A velocidade da deterioração chama atenção. De acordo com o Banco Central, a dívida bruta do setor público, considerando União, estados e municípios, chegou a cerca de R$ 10 trilhões no fim de 2025. Em apenas seis meses, em julho de 2026, essa conta já havia aumentado em cerca de R$ 900 bilhões. Segundo Otávio Fakhoury, administrador pela FGV e especialista em mercado financeiro e de renda fixa, os juros elevados são um dos principais combustíveis para esse crescimento. E as projeções mostram que o problema pode atravessar todo o próximo mandato. A Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, projeta dívida de 86,4% do PIB em 2027, chegando a quase 96% do PIB em 2030. Mais importante que os números é o alerta feito pela própria IFI: mantida a trajetória, o crescimento do endividamento "pode se tornar insustentável no médio prazo". Para Fakhoury, o próximo governo não receberá simplesmente uma dívida elevada. Receberá uma dívida que ainda não encontrou um ponto de estabilização, e essa situação terá consequências fora de Brasília. Quando aumenta a percepção de risco em relação às contas públicas, investidores tendem a exigir remuneração maior para financiar o governo. "Como os títulos públicos são uma referência importante para a formação das taxas de juros na economia, o problema fiscal pode chegar ao crédito das empresas, ao financiamento imobiliário e ao consumidor", diz Fakhoury.
Outro desafio será justamente lidar com juros altos em uma economia que já começa a perder fôlego. Em setembro, o Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano. É uma trajetória de queda, mas partindo de um patamar ainda elevado. Ao mesmo tempo, a atividade econômica começou a apresentar sinais de perda de ritmo. Segundo o IBGE, o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026, mas perdeu força no segundo, quando avançou apenas 0,5%. Nesse período, a indústria praticamente parou: cresceu apenas 0,1%. Já o consumo das famílias caiu 0,4% no segundo trimestre, a maior retração desde o fim de 2024. E quando um componente que representa perto de dois terços da economia perde força, o impacto sobre o crescimento do país é enorme. Para Fakhoury, a questão central será combinar crescimento, emprego e inflação com uma política fiscal capaz de interromper a elevação da dívida. "Essas variáveis estão relacionadas: juros altos encarecem o serviço da dívida; dívida crescente pode manter elevado o prêmio exigido pelos investidores e crédito caro limita consumo e investimento", diz ele.
Há ainda a reforma tributária, que já começou a sair do papel em 2026, com o ano-teste da CBS e do IBS e a adaptação de sistemas e documentos fiscais. Porém, será em 2027 que a mudança ganhará outra dimensão: a CBS passa a ser efetivamente cobrada, PIS e Cofins são extintos e entra em vigor o Imposto Seletivo. "O próximo governo, portanto, assumirá justamente quando uma das maiores mudanças do sistema tributário brasileiro passar da fase de testes para a aplicação efetiva. E essa transição exigirá adaptação tecnológica, regulamentação e coordenação entre diferentes níveis de governo, desafios que a própria Receita Federal reconhece", aponta o especialista.
Outro nó será encontrar espaço para investir dentro de um orçamento cada vez mais rígido. À medida que as despesas obrigatórias crescem e o governo precisa cumprir limites fiscais, o ajuste tende a recair sobre aquilo que pode ser cortado: investimentos, obras e outras despesas discricionárias. Esse talvez seja um dos aspectos mais complexos politicamente. Quando as despesas obrigatórias crescem e o governo precisa cumprir limites fiscais, o ajuste tende a cair sobre aquilo que pode ser cortado: investimentos, obras e outras despesas discricionárias. A própria IFI alerta que, em 2027, poderá ser necessário bloquear ao menos R$ 35,7 bilhões para tentar cumprir formalmente a meta fiscal.
Por fim, há um desafio menos imediato, mas decisivo para o crescimento de longo prazo: produtividade e investimento. Esse é o problema estrutural. A OCDE aponta que o investimento brasileiro continua fraco e que o crescimento da produtividade está estagnado. Entre as medidas capazes de melhorar esse quadro, citam-se infraestrutura, maior concorrência e redução de barreiras regulatórias. Sem ganho de produtividade, fica muito mais árduo crescer de forma sustentada, elevar salários e, ao mesmo tempo, melhorar as contas públicas. "O novo governo assumirá com pouco espaço para erros. "O desafio será recuperar fôlego para a economia sem perder de vista o equilíbrio das contas públicas", completa Fakhoury. E resume o tamanho do desafio que estará sobre a mesa a partir de janeiro: "O novo governo assumirá com pouco espaço para erros. O desafio será recuperar fôlego para a economia sem perder de vista a necessidade de colocar as contas públicas em uma trajetória mais sustentável."
Website: https://instagram.com/otaviofakhoury
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