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O impacto das novas tarifas de Trump na corrida presidencial brasileira

17 jul 2026 - 16h15
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Tarifas impostas pelos Estados Unidos recolocam a política externa no centro do debate eleitoral. Especialistas apontam possíveis reflexos para Lula e Flávio Bolsonaro, mas veem cenário ainda aberto.O novo tarifaçoanunciado pelos Estados Unidos sob produtos brasileiros pode influenciar o debate político e eleitoral no Brasil a menos de três meses da data do pleito.

Analistas ouvidos pela DW Brasil avaliam que a medida tem potencial para repercutir tanto na campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que buscará defender sua condução da política externa, quanto na do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL), diante das discussões sobre as relações entre sua família e o governo americano.

Especialistas apontam que os efeitos eleitorais ainda são incertos e dependerão da forma como governo e oposição tratarão o tema durante a campanha. O impacto econômico das tarifas e a percepção do eleitorado sobre a resposta do governo brasileiro também podem influenciar a disputa.

O governo americano anunciou na quarta-feira (15/07) tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros, alegando a existência de práticas consideradas desleais no comércio bilateral. Entre os motivos citados estão medidas regulatórias relacionadas a empresas de tecnologia, aspectos ligados ao sistema de pagamentos Pix e questões envolvendo o mercado de etanol.

Impacto pode ser similar ao de 2025

O impacto à campanha de Flávio Bolsonaro deve ser similar aos efeitos vistos no ano passado, quando os Estados Unidos impuseram as primeiras tarifas contra produtos brasileiros. À época, a menção do presidente americano Donald Trump ao processo judicial que mais tarde condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado fora usada como um dos argumentos para justificar as taxas. Além disso, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro havia anunciado publicamente que se reuniu com representantes do governo americano para articular a imposição das tarifas sobre o Brasil.

A conexão direta da família Bolsonaro com o anúncio da medida e seu impacto negativo em diferentes setores produtivos não se provou uma estratégia vantajosa para a oposição. O governo Lula apostou na narrativa de "soberania nacional", acusando as tarifas de serem um ataque político ao país, patrocinado pela oposição.

"Se for explorado pelo governo como uma decisão tomada especialmente pela proximidade entre o bolsonarismo e o governo Trump, pode ser evidentemente benéfico para a candidatura de Lula", afirma o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV). O movimento deve ocorrer, ele argumenta, apesar de Flávio afirmar que tentou interceder junto ao governo dos Estados Unidos contra o novo anúncio das tarifas.

Para Glauco Peres da Silva, professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), a expectativa é de que a medida beneficie a campanha de Lula, a exemplo do ganho de popularidade do presidente no ano passado. Ele pontua, porém, que há possibilidade de a campanha de Flávio explorar a situação.

"Talvez exista alguma relação que o Flávio estabelece com o seu eleitorado, onde foi percebido que isso pode render algum fruto. É difícil de antever e capturar esse impacto porque, no ano passado, o resultado das tarifas foi um deslocamento da balança pró-Lula", analisa.

Os primeiros movimentos do governo após a crise mostram que a narrativa deve se manter a mesma.

Na noite de quarta, o Planalto repudiou as afirmações, afirmando que não considera legítimas as investigações, e justificando que a balança comercial é favorável aos Estados Unidos.

A campanha de Lula, porém, não está totalmente blindada do impacto político que as tarifas podem ter na popularidade do governo e na campanha à reeleição.

Apesar do impacto das tarifas ser menor do que no ano passado, após a inclusão de mais de 2 mil produtos na lista de exceções, Lula ainda pode sofrer com os efeitos econômicos da medida nos setores afetados.

Do lado da oposição, há expectativa de que Flávio tente associar a medida à política externa do governo Lula.

"Este deixou de ser um tópico que não entra nas eleições. O alinhamento internacional do país vai estar na discussão eleitoral", afirma Gustavo Glodes Blum, analista geopolítico e pesquisador convidado no Geneva Graduate Institute.

Momento de fragilidade

Apesar da similaridade com o primeiro anúncio de tarifas, o momento político mudou consideravelmente de um ano para cá, argumenta Cláudio Couto.

"Aquele tarifaço veio num contexto de fragilidade com a condenação de Jair Bolsonaro, mas você não tinha algo que atingisse de forma tão direta, para o eleitorado que não se importa com a tentativa de golpe, a honorabilidade da família Bolsonaro", comenta o professor, citando um momento de fragilidade na atual pré-campanha de Flávio.

Nos últimos meses, o senador acumulou diferentes acusações de envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, além de um racha familiar envolvendo sua madrasta e ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Há dois meses, o The Intercept Brasil publicou conversas entre Flávio e Vorcaro, que revelaram uma relação próxima entre o pré-candidato e o dono do Banco Master, preso acusado de comandar um esquema de fraudes financeiras. Nas mensagens, o senador negociou repasses milionários de Vorcaro para financiar um filme biográfico sobre o pai.

No final de junho, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também publicou um vídeo nas redes sociais acusando Flávio de desrespeitá-la e de sofrer ataques coordenados de seus irmãos.

Já na quarta-feira, pouco antes do anúncio das tarifas, o site ICL Notícias publicou uma foto onde Flávio aparece com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, encarregado de praticar ameaças e violências contra desafetos de Daniel Vorcaro. Sicário cometeu suicídio em sua cela, após ser preso no início do ano.

Alinhamento político com Trump

O movimento de imposição de tarifas dialoga diretamente com uma tentativa de maior ingerência americana sobre os países da América Latina e uma tentativa de negociação bilateral com os países que são tarifados, argumenta Gustavo Glodes Blum.

Segundo ele, a imposição de tarifas pelo governo americano não estaria ligada necessariamente a uma tentativa de apoiar a candidatura de Flávio, mas sim a um projeto de atingir governos na região que não tem um alinhamento direto com Trump.

"É menos sobre quem é a pessoa apoiada, pode ser o Flávio ou qualquer outro, desde que tenha essa linha ideológica de concordância com as políticas dos Estados Unidos", explica, citando o governo do presidente argentino Javier Milei como um exemplo de alinhamento direto com Washington.

"É uma política que vem sendo adotada desde o começo do governo Trump, mas também num momento de crescimento da direita na América Latina. Talvez se acredite que medidas dessa natureza possam fragilizar governos e eventualmente favorecer os seus adversários", comenta Cláudio Couto, mencionando a atuação do governo americano na região, em especial através do secretário de Estado Marco Rubio, de origem cubana. "Se estão pensando isso, me parece um cálculo equivocado, porque o resultado tem sido o oposto", adiciona.

Após o anúncio das tarifas impostas aos produtos brasileiros, Rubioacusou Lula de negociar em má-fé com os Estados Unidos.

"Ao longo do último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso", escreveu em uma rede social.

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