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O feminicídio faz, em média, quatro vítimas por dia no Brasil. Por que o país é tão perigoso para elas?

No dia 8 de março, mulheres foram às ruas reafirmar seus direitos e lembrar que a realidade de violência e feminicídio é atravessada pelo racismo estrutural: as mulheres negras são as principais vítimas da violência letal feminina no país

9 mar 2026 - 11h36
(atualizado em 9/3/2026 às 11h00)
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No mundo, aproximadamente a cada 10 minutos, uma mulher ou menina é morta por um parceiro ou familiar. Em 2024, foram 83 mil mulheres e meninas mortas intencionalmente, das quais 50 mil — ou 60% — assassinadas por alguém de sua própria convivência. Os dados foram divulgados em 25 de novembro de 2025, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, em um relatório produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), agência da ONU responsável por monitorar crimes e violência no mundo, em parceria com a ONU Mulheres. O levantamento expõe uma verdade dura: se a rua pode ser perigosa, a casa tampouco é abrigo seguro para as mulheres.

Esses dados reforçam que o feminicídio não é um episódio isolado nem tragédia súbita. Costuma ser o desfecho extremo de um contínuo de violências que começa muito antes, com controle, ameaças, assédio, coerção, vigilância, intimidação e perseguição — inclusive no ambiente digital. As Nações Unidas chamam a atenção para formas de violência digital como compartilhamento não consensual de imagens, exploração sexual, controle coercitivo, perseguição e deepfakes (vídeo, imagem ou áudio criado ou manipulado com inteligência artificial). Quando essa violência transborda das telas para a vida concreta, pode se transformar em espancamento, lesão grave e morte.

O primeiro passo para combater o feminicídio é entendê-lo, e para isso é preciso quantificá-lo. Sem receio, podemos afirmar que a qualidade e a disponibilidade das estatísticas refletem o grau de compromisso dos países — e também dos estados e municípios — no enfrentamento da violência de gênero. O próprio relatório da ONU mostra que, apesar de avanços, a disponibilidade de dados segue limitada em grande parte do mundo.

Dados sobre o feminicídio no Brasil

No Brasil, os números revelam que a violência letal contra mulheres está crescendo. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), desde a tipificação do crime, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas por sua condição de gênero.

Por que tantos feminicídios no país? Que sociedade é essa, que continua produzindo e tolerando esse tipo de violência? Esses assassinatos não decorrem de um fator isolado. São resultado de uma estrutura social que naturalizou o machismo e o patriarcado e que, ainda hoje, trata como aceitável o controle sobre o corpo, a vida e as escolhas das mulheres. Mulheres são mortas por ciúme, por sentimento de posse, pela recusa masculina em aceitar a separação, pela ideia de honra ferida. A violência se sustenta também em uma profunda desigualdade de poder. Estudos mostram que mulheres com maior renda, escolaridade ou posição de prestígio também são alvos da violência de gênero.

Mas essa realidade não atinge as mulheres da mesma maneira. Ela é atravessada pelo racismo estrutural, que define a distribuição da vulnerabilidade, da proteção e do valor social atribuído à vida - as mulheres negras são as principais vítimas de feminicídio no país, representando 68% dos casos.

As desigualdades no território

Em um país de dimensões continentais, a distribuição territorial dos feminicídios também é desigual. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), divulgados em janeiro de 2026 e ainda incompletos para dezembro de 2025 para alguns estados, o Brasil registrou ao menos 1.470 feminicídios em 2025, acima dos 1.464 de 2024. Nesse levantamento preliminar, São Paulo (233 casos), Minas Gerais (139) e Rio de Janeiro (104) aparecem com os maiores números absolutos no ano, enquanto o Acre registra a maior taxa, com 3,38 assassinatos por 100 mil mulheres.

Nos dados acumulados de 2015 a 2025, também com base no Sinesp, São Paulo lidera com 1.774 feminicídios, seguido por Minas Gerais (1.641) e Rio Grande do Sul (1.019). Além dos casos consumados, o número de tentativas de feminicídio também cresceu: em 2025, foram registradas 3.702 tentativas, alta de 16,3% em relação ao ano anterior. No acumulado de seis anos, o país soma mais de 15 mil tentativas.

Mesmo sem a consolidação completa dos dados de dezembro, os números indicam uma média de quatro mulheres assassinadas por dia no país em contextos de violência doméstica, familiar ou motivados por discriminação de gênero.

Um cruzamento inicial entre os dados de feminicídio de 2025 e o perfil partidário dos governos estaduais, realizado a partir das informações preliminares do Sinesp, chama atenção para um elemento do debate atual: nove entre os dez estados com mais casos de feminicídio eram governados por partidos classificados à direita no espectro político. Entre os dez estados com maiores taxas por 100 mil mulheres, sete estavam nessa mesma situação.

Tais dados, no entanto, não permitem estabelecer, por si sós, uma relação causal entre orientação ideológica e incidência de feminicídio, mas indicam a necessidade de investigar de forma mais aprofundada as prioridades estatais, o desenho institucional e o financiamento da rede de proteção às mulheres.

A omissão do Estado

Embora faltem estudos acadêmicos sobre as relações entre conservadorismo político, perfil do eleitorado e número de feminicídios no Brasil, alguns dados permitem levantar hipóteses que merecem ser investigadas. Um desses casos é São Paulo, estado governado por uma aliança situada à direita do espectro político e frequentemente associada a uma agenda de redução do papel do Estado e contenção do gasto público. Nesse contexto, vale observar de que forma escolhas orçamentárias podem afetar a rede de proteção às mulheres.

No caso paulista, um dado concreto ajuda a qualificar essa discussão. Segundo levantamentos baseados no Portal da Transparência do estado, o programa de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher teve, em 2025, dotação atualizada de R$ 8,7 milhões, mas apenas R$ 2,6 milhões haviam sido empenhados até dezembro. Isso significa que quase 70% dos recursos disponíveis permaneceram sem uso no período analisado, o que demonstra baixo comprometimento financeiro com o referido programa, que é um conjunto de políticas públicas, serviços e iniciativas articuladas pelo governo estadual.

Esse quadro orçamentário ocorre em um contexto alarmante. O mês de janeiro de 2026 foi o mais violento para as mulheres desde o início da série histórica (em 2018), com 27 feminicídios — o equivalente a quase uma morte por dia. Isso reforça a necessidade de investigar com mais profundidade de que maneira prioridades políticas e institucionais podem afetar a capacidade de prevenção e proteção às mulheres.

O que se pode dizer com segurança é que escolhas políticas e orçamentárias feitas por governos e parlamentos influenciam a estrutura de prevenção, acolhimento e proteção às mulheres. Nesse sentido, a forma como diferentes forças políticas priorizam — ou deixam de priorizar — essas políticas públicas pode ajudar a compreender, ao menos em parte, a capacidade do Estado de responder à violência de gênero.

A violência física contra as mulheres é, muitas vezes, a última fase de um processo que começa com violência psicológica, intimidações e promessas de dano, com o objetivo de produzir medo, controle, submissão e silêncio. As ameaças costumam vir em frases que funcionam como alerta de perigo iminente: "Se você me deixar, eu te mato"; "Vou tirar seus filhos de você"; "Ninguém vai acreditar em você"; "Se denunciar, vai se arrepender"; "Se você não for minha, não vai ser de ninguém".

No entanto, quando vêm a público as circunstâncias dos assassinatos, inúmeras vezes se constata que as vítimas já haviam denunciado agressões, relatado ameaças e solicitado medidas protetivas. Mesmo com leis importantes, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, ainda existe muita dificuldade de acesso a delegacias especializadas, especialmente fora dos grandes centros.

O que vemos, na maioria dos casos, é que a lei existe, mas a política pública não se sustenta sozinha. O Estado chega tarde — quando chega — e falha na hora de proteger mulheres. É outro aspecto fundamental desse triste cenário.

A reação masculina à perda de privilégios

As transformações nas relações de gênero têm tensionado privilégios historicamente naturalizados por uma ordem patriarcal. Parte dos homens responde a isso com revisão de condutas. Outros, porém, reagem com ressentimento, controle e violência. É nesse terreno que a violência de gênero se reproduz e, em sua forma mais extrema, se traduz em feminicídio.

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, elas estão nas ruas denunciando violências e reafirmando direitos. O aumento dos estupros, das tentativas de feminicídio e dos assassinatos de mulheres mostra que o Brasil continua sendo um lugar perigoso para elas. Nada disso pode mais ser tolerado. A prevenção do feminicídio exige políticas específicas de enfrentamento à violência de gênero, sobretudo àquela que ocorre no espaço doméstico e nas relações com parceiros. Intervenções precoces podem salvar vidas.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Luciano Cerqueira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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