Indícios sugerem culpa dos EUA em ataque a escola no Irã
Análises independentes indicam que míssil de fabricação americana atingiu colégio adjacente a prédios da Guarda Revolucionária. Mais de 160 teriam morrido. Maioria das vítimas era criança.Os ataques lançados pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã já causaram ao menos 1.230 mortos, de acordo com dados divulgados na manhã desta terça-feira (10/03), baseados em informações do grupo humanitário Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano.
Um dos mais devastadores bombardeios teria matado 165 alunas e funcionários de escola primária feminina na cidade de Minab, no sul do país, logo no primeiro dia da guerra. A maioria das vítimas seria de meninas de 7 a 12 anos de idade, segundo fontes iranianas. O incidente foi condenado pela Unesco, agência da ONU para a cultura e a educação, e pela ativista da educação vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai.
Dias após o ocorrido, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, assegurou que as forças americanas "não atacariam deliberadamente uma escola" e disse que Washington iria investigar o caso.
No sábado, o presidente dos EUA, Donald Trump, havia culpado o próprio Irã pelo ataque. "Pelo que vi, isso foi feito pelo Irã", disse a repórteres a bordo do Air Force One.
Questionado nesta segunda-feira sobre o porquê de ele ser a única pessoa em seu governo a fazer tal acusação, Trump disse: "Porque simplesmente não sei o suficiente sobre isso" e acrescentou, em relação à investigação que estaria sendo feita pelo governo americano sobre o incidente, que "seja lá o que o relatório mostrar, estou disposto a conviver com ele".
Análises de imagens
Na sexta-feira, o jornal americano The New York Times noticiou que os EUA provavelmente foram responsáveis pelo ataque, com base em uma análise de imagens de satélite, vídeos e reportagens online.
O jornal e outros veículos de comunicação dos EUA também noticiaram no fim de semana, citando imagens de vídeo da agência de notícias iraniana Mehr News, que a escola foi atingida enquanto um míssil Tomahawk americano aparentemente atingiu uma base naval vizinha da Guarda Revolucionária Iraniana. Segundo o New York Times, os EUA são o único país envolvido neste conflito que possui esse tipo de armamento.
Trump, no entanto, afirmou, falsamente, na segunda-feira que o Irã também teria "alguns" mísseis Tomahawk. Embora a empresa venda o míssil para países aliados como Japão e Austrália, não há evidências que sugiram que o Irã o tenha adquirido.
A sugestão de que um míssil Tomahawk poderia ter sido usado é, segundo o republicano, vaga demais para ser considerada como prova.
Nesta segunda-feira, a senadora americana Jeanne Shaheen e outros representantes do Partido Democrata pediram ao chefe do Pentágono, Pete Hegseth, que conduzisse uma investigação "completa e imparcial" sobre o incidente. "Análises independentes indicam de forma crível que o ataque pode ter sido realizado por forças americanas", dizia o comunicado. Se confirmado, seria um dos "incidentes mais graves com vítimas civis" em décadas de operações militares dos EUA no Oriente Médio.
"Ataque foi provavelmente americano"
Novas imagens mostram o que um grupo de investigação especializado afirma ser provavelmente um míssil Tomahawk americano atingindo um complexo no sul do Irã, a poucos metros da escola.
Especialistas entrevistados pela agência de notícias Associated Press (AP), citando análises de imagens de satélite, dizem que a escola, localizada ao lado de uma base da Guarda Revolucionária, provavelmente foi atingida em meio a uma rápida sucessão de bombas lançadas sobre o complexo.
Um oficial americano familiarizado com as deliberações internas sobre o assunto disse à AP que o ataque foi provavelmente americano. O oficial falou em condição de anonimato porque não estava autorizado a comentar publicamente sobre o assunto delicado.
As novas imagens, analisadas inicialmente pelo grupo de investigação Bellingcat, foram feitas no dia em que a escola foi atingida, mas divulgadas no domingo pela agência de notícias semioficial iraniana Mehr. O vídeo mostra um míssil atingindo um prédio, lançando uma densa coluna de fumaça escura no ar.
A AP conseguiu geolocalizar o vídeo e determinar que ele foi gravado de um local adjacente à escola, enquanto a fumaça já subia das proximidades. Imagens de satélite do complexo são consistentes com os identificadores visuais encontrados no vídeo, incluindo um prédio com telhado plano, redes de energia e veículos.
Trevor Ball, pesquisador da Bellingcat, identificou a munição como um míssil de cruzeiro Tomahawk. Esta é a primeira evidência de uma munição usada no ataque.
O Comando Central dos EUA reconheceu o uso de mísseis Tomahawk nesta guerra e até divulgou uma foto do USS Spruance, que faz parte do grupo encabeçado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, localizado dentro do alcance da escola, disparando um míssil Tomahawk em 28 de fevereiro.
Outros indícios
Outros indícios também apontam para um ataque realizado pelos Estados Unidos. Um deles é o início de uma avaliação do incidente pelas Forças Armadas dos EUA. De acordo com as instruções do Pentágono sobre os processos para mitigar danos a civis, uma avaliação é iniciada depois que um grupo de investigadores determina inicialmente que as Forças Armadas dos EUA podem ser culpadas.
Outro fator é a localização da escola - bem ao lado da base da Guarda Revolucionária e perto do quartel de uma unidade naval. As Forças Armadas dos EUA têm se concentrado em alvos navais e reconheceram ataques na região, inclusive um nas proximidades da escola.
Já Israel, que negou ter realizado o ataque, tem se concentrado em áreas mais a oeste do Irã, mais próximas de Israel, e não relatou nenhum ataque ao sul de Isfahan, que é localizada cerca de 800 quilômetros ao norte de Minab.
A falta de imagens dos fragmentos da bomba resultantes da explosão complica qualquer avaliação do incidente. Nenhuma agência independente chegou ao local durante a guerra para investigar.
Janina Dill, especialista em direito internacional da Universidade de Oxford, escreveu no X que, mesmo que o ataque tenha sido um erro de identificação - e o atacante acreditasse que a escola fazia parte da base vizinha da Guarda Revolucionária -, ainda assim seria "uma violação muito grave do direito internacional. Quem ataca tem a obrigação de fazer tudo o que for possível para verificar o status do alvo", escreveu.
O governo Trump, no entanto, adota um tom diferente em relação ao direito internacional humanitário. Falando sobre a operação dos EUA em uma coletiva de imprensa em 2 de março, Hegseth disse: "Os Estados Unidos, independentemente do que digam as chamadas instituições internacionais, estão desencadeando a campanha de poder aéreo mais letal e precisa da história".
"Nada de estúpidas regras de engajamento", disse ele. "Nada de politicamente correto", acrescentou.
md/cn (AP, Reuters, AFP)