O fantasma de Banquo no banquete de Macbeth: conversando com um centro que morreu na política brasileira
A ideia de que, em meio aos extremismos, sempre haverá um centro moderado, equilibrado, capaz de construir pontes entre esquerda e direita, é hoje uma fantasia na política brasileira. Esse centro não existe mais
Na tragédia Macbeth, do dramaturgo inglês William Shakespeare, o protagonista assassina seu amigo Banquo para proteger o trono usurpado. Durante um banquete, o fantasma de Banquo aparece e se senta à mesa, visível apenas para Macbeth, que entra em pânico diante dos convidados. A cena tornou-se metáfora clássica da tentativa de dialogar com algo que não existe mais - uma presença imaginada que ocupa um lugar vazio, perturbando quem insiste em vê-la enquanto os demais observam, desconcertados.
Bem, foi um pouco de literatice para começar. Mas assim como Macbeth diante do espectro de Banquo, a classe política brasileira insiste em ver o que não está lá, em negociar com uma posição que desapareceu do sistema partidário - o centro. Pode-se fazer discursos eloquentes sobre moderação, pode-se evocar a memória de tempos em que havia partidos de centro ou de centro-direita moderada (tipo PSDB), pode-se até fingir que o fantasma responde. Porém, quando chega a hora de montar coligações, distribuir ministérios e votar projetos no Congresso, a cadeira do centro está realmente vazia.
A ideia de que, em meio aos extremismos, sempre haverá um centro moderado, equilibrado, capaz de construir pontes entre esquerda e direita, é uma fantasia reconfortante na política brasileira. Pois bem, temos uma má notícia: esse centro é uma cadeira vazia no banquete. Ele não está enfraquecido, não está em crise. Simplesmente não existe mais.
Essa não é uma opinião impressionista ou resultado de conversas com colegas pessimistas. É a conclusão de uma pesquisa (O desaparecimento do centro ideológico no sistema partidário brasileiro: a classificação mais atualizada dos experts) que meus colegas Bruno Bolognesi, Ednaldo Ribeiro, Bruno Fernando da Silva e eu recentemente publicamos na revista Opinião Pública, da Unicamp.
Quase 500 cientistas políticos brasileiros e brasilianistas classificaram ideologicamente todos os 32 partidos políticos brasileiros registrados no TSE em 2022. Em comparação com o cenário de 2018, o veredito é: a posição de centro ideológico, que abrigava partidos como Cidadania, PV e Rede, está completamente vazia.
Como medimos isso (e por que é confiável)
Antes que alguém proteste dizendo que "ideologia é subjetiva" ou que "cada um enxerga os partidos de um jeito", deixe-me explicar o método. Aplicamos questionários online para 477 cientistas políticos brasileiros e brasilianistas. São pessoas que estudam partidos políticos profissionalmente. Pedimos que posicionassem cada partido numa escala de 0 (extrema esquerda) a 10 (extrema direita).
Por que especialistas? Porque, teoricamente, eles têm conhecimento aprofundado, acompanham sistematicamente o comportamento dos partidos e, diferentemente de filiados ou eleitores, não têm, em princípio, compromisso emocional ou estratégico com as legendas. Claro, nenhum método é perfeito, mas este possui validade externa comprovada quando comparado com outras técnicas de classificação ideológica.
O mais interessante é que não houve divergências significativas entre especialistas de diferentes áreas da Ciência Política. Quem estuda instituições políticas classificou os partidos de forma muito semelhante a quem estuda comportamento eleitoral ou políticas públicas. Isso sugere que estamos diante de um fenômeno objetivo, não de um viés de percepção.
O que aconteceu entre 2018 e 2022
Os números são claros. Em 2018, ainda tínhamos partidos genuinamente centristas. O PV, por exemplo, tinha média 5,29, praticamente no meio exato da escala. Em 2022, esse mesmo partido está em 4,12, firmemente à centro-esquerda. O Cidadania migrou de 4,93 para 6,17, saindo do centro para a centro-direita. A Rede saltou de 4,77 para 3,69.
Mais importante que os números individuais é o padrão agregado: nenhum partido ocupa mais a faixa entre 4,5 e 5,5 da escala, que definimos como o centro ideológico. O espaço intermediário desapareceu. Os partidos se espremeram nas extremidades do espectro político.
Paralelamente, a polarização aumentou. Nosso indicador (baseado em R. J. Dalton) subiu de 0,419 em 2018 para 0,503 em 2022. Para ter uma ideia, Estados Unidos e Reino Unido, países notoriamente polarizados, têm índices de 0,243 e 0,282. O México, uma democracia presidencialista mais próxima da nossa, tem 0,210. Estamos mais polarizados que sociedades bipartidárias clássicas.
Nesta investigação, usamos uma versão simplificada do indicador de Dalton para medir a distância ideológica entre eles. Não consideramos o peso relativo de cada partido em termos de representação parlamentar ou o seu desempenho eleitoral.
Políticas públicas, cargos ou votos?
Identificamos dois mecanismos causais principais no processo de desaparecimento do centro. O primeiro são as federações partidárias, criadas em resposta ao fim das coligações proporcionais (2022) e à cláusula de desempenho (2018). Partidos menores se uniram formalmente a legendas maiores e, ao fazer isso, foram ideologicamente capturados por elas.
O PT funcionou como uma verdadeira âncora gravitacional: puxou o PCdoB da posição 4,60 para 1,78 (de centro para esquerda radical), arrastou o PV do centro para a centro-esquerda. O PSOL, ao se federar com a Rede, também exerceu força gravitacional, deslocando seu parceiro para posições mais à esquerda.
Do lado oposto, o PSDB capturou o Cidadania, empurrando-o para a centro-direita. Mas aqui há uma assimetria reveladora: enquanto o PT conseguiu tornar seus parceiros mais programáticos (o PV passou a ser visto como mais orientado por políticas públicas), o PSDB não teve o mesmo efeito sobre o Cidadania, que manteve seu perfil fisiológico.
O segundo mecanismo é ainda mais importante: o impacto de lideranças carismáticas. O caso mais notável é o PL, que saltou de 7,78 em 2018 para 8,80 em 2022, posicionando-se na extrema direita. A explicação? Bolsonaro. A filiação do ex-presidente ao partido foi suficiente para alterar radicalmente sua percepção ideológica.
Assimetria impressionante
Há um achado que raramente aparece no debate público, mas deveria interessar: a brutal assimetria entre esquerda e direita quanto ao programatismo. Perguntamos aos especialistas se cada partido era orientado principalmente por políticas públicas (policy-seeking), por cargos (office-seeking) ou por votos (vote-seeking). Se quiser ler mais sobre este tema, sugiro um artigo de Kaare Strøm, da Universidade de Minnesota (EUA).
O resultado não chega a ser desconcertante: praticamente todos os partidos identificados pelos nossos pesquisados como programáticos estão à esquerda. PT, PSOL, PCdoB, PSB, todos apresentam predomínio de orientação por políticas públicas. À direita, apenas o Novo escapa do rótulo de fisiológico. O resto é um mar de legendas voltadas para cargos e votos, sem densidade programática.
Esse é um padrão empiricamente robusto que se repete nas duas ondas da pesquisa (2018 e 2022). A direita brasileira simplesmente não consegue produzir partidos programáticos de massa. Quando surgem propostas mais definidas ideologicamente, como no caso do Novo, o partido permanece eleitoralmente marginal. E, no caso, se tornou uma filial ideológica do PL.
Por que o centro importa
"E daí se não há centro? Democracia é competição entre visões diferentes, não necessariamente entre três blocos simétricos". Justo. Mas há consequências práticas.
Primeiro, a ausência de centro, vejam só, dificulta imensamente a formação de coalizões governamentais estáveis. Num sistema presidencialista multipartidário como o nosso, o governo precisa costurar alianças. Politicamente falando, quando não há partidos intermediários, as pontes ficam mais frágeis e caras.
Segundo, a polarização sem mediação institucional aumenta a temperatura do debate público. Não estou fazendo análise normativa sobre ser isso bom ou ruim, apenas constatando que eleva os custos de transação política e reduz as possibilidades de acordo em temas em princípio consensuais.
Terceiro, e talvez mais importante: a desertificação do centro reflete transformações institucionais aparentemente técnicas, mas com efeitos políticos profundos. O fim das coligações e a cláusula de desempenho eleitoral não apenas reduziram a fragmentação nominal (temos menos partidos), mas alteraram qualitativamente o sistema partidário. Incentivos institucionais discretos produzem consequências ideológicas enormes. Aqui vale a cartilha dos institucionalistas.
O que vem pela frente?
Esta é a segunda rodada de nossa pesquisa. Pretendemos continuar classificando os partidos a cada quatro anos, construindo uma série histórica robusta. Só assim poderemos testar hipóteses causais mais sofisticadas sobre o que move os partidos ideologicamente. Em 2026 pretendemos fazer uma nova onda com filiados da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP).
Por ora, fica o registro: o centro ideológico desapareceu do sistema partidário brasileiro. Não foi assassinado por extremistas, não morreu de causas naturais. Foi esvaziado por mudanças institucionais e pela força gravitacional de partidos programáticos grandes (à esquerda) e lideranças carismáticas (à direita).
O autor é coordenador do Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem).