O discurso histórico de Mark Carney em Davos e o dilema do Canadá sob as ameaças imperiais dos EUA
Autonomia, integração e a longa história de tensões nas relações Canadá-EUA
No Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro de 2026, o primeiro-ministro canadense Mark Carney fez um diagnóstico incomum para um chefe de governo aliado de Washington. Ao afirmar que a ordem internacional baseada em regras vive uma "ruptura, não uma transição", Carney sustentou que a integração econômica, por décadas apresentada como fonte de estabilidade, passou a ser usada como instrumento de coerção. Em um mundo de grandes potências rivais, disse ele, países "médios" como o Canadá não podem confiar que obediência trará segurança: se não estiverem à mesa, estarão no menu.
O discurso ganhou repercussão em meio a tensões entre Ottawa e Washington,marcadas por declarações provocativas do presidente americano, incluindo ameaças de rever o acordo de 1908 sobre a fronteira entre os países e referências ao Canadá como um eventual "51º estado", e por tensões em torno de comércio, segurança e soberania no Ártico. Ao defender que o Canadá precisa agir de forma mais estratégica, diversificar parcerias e cooperar com outros países médios, Carney rompeu com a suposição dominante de que a proximidade com os Estados Unidos garantiria automaticamente prosperidade e previsibilidade.
A relação econômica entre Canadá e Estados Unidos é profunda e institucionalizada: em 2024, 76% das exportações canadenses tiveram como destino o mercado americano, que também respondeu por cerca de metade das importações do país. Os dois mercados estão fortemente entrelaçados pelo investimento e pela energia: os Estados Unidos são o maior investidor estrangeiro no Canadá, o Canadá é o segundo maior investidor direto nos EUA e o principal fornecedor externo de energia, responsável por quase dois terços das importações americanas de petróleo bruto.
Essa relação, organizada desde 1989 por acordos sucessivos de livre comércio, voltou a se tensionar em 2025, com tarifas americanas, a suspensão de negociações bilaterais anunciada por Trump e a perspectiva de uma revisão do USMCA em 2026.
Poucos dias após o discurso de Mark Carney no Fórum Econômico Mundial em Davos, Donald Trump ameaçou impor tarifas de 100% sobre produtos canadenses caso Ottawa avançasse em um acordo de livre comércio com Pequim. A declaração ocorreu em um contexto já tensionado pela visita de Carney à China, em 16 de janeiro de 2026, quando o primeiro-ministro anunciou uma "nova parceria estratégica" com o governo chinês e um acordo preliminar voltado à redução de tarifas.
Ao responder que o Canadá não tinha intenção de negociar acordos desse tipo fora dos compromissos assumidos no acordo norte-americano, Carney tornou visível como a integração continental, longe de ser apenas um arranjo econômico, opera como mecanismo de disciplina política, no qual ameaças tarifárias são mobilizadas para condicionar decisões de política econômica e restringir o espaço de escolha do Estado canadense.
Esse episódio revela um padrão histórico que estrutura as relações entre Canadá e Estados Unidos, marcado por uma ambivalência persistente: de um lado, uma relação econômica e de segurança com benefícios reais; de outro, preocupações com assimetria, subordinação e perda de autonomia. O que mudou, como sugere Carney, não foi o dilema, mas o contexto em que ele voltou a se impor.
A busca canadense por autonomia
Desde o pós-guerra, a autonomia econômica canadense tem sido um projeto político em disputa. Ela surgiu como resposta à integração produtiva continental e à forte presença estrangeira em setores estratégicos, especialmente nos recursos naturais. Também refletiu tentativas do Estado de ampliar sua capacidade de orientar investimento, desenvolvimento e controle econômico dentro de uma ordem liderada pelos Estados Unidos.
Essa disputa ganhou forma mais clara no período keynesiano, entre as décadas de 1930 e o início dos anos 1980. Nesse momento, o Canadá buscou combinar abertura econômica, políticas sociais e instrumentos de regulação para reduzir a dependência em relação ao capital estrangeiro, majoritariamente norte-americano. O esforço atingiu seu ponto mais ambicioso sob os governos de Pierre Elliott Trudeau (1968-79; 1980-84).
Como observa Stephen Clarkson em Uncle Sam and Us, o Canadá sempre foi um país liberal, mas nesse período expandiu o gasto público, as transferências diretas e os programas sociais. A novidade dos anos 1970 foi tentar estender essa lógica ao controle da economia nacional, diante da presença dominante de corporações estrangeiras em setores estratégicos.
As raízes desse projeto remontam aos anos 1950 e 1960. O governo de John Diefenbaker (1957-1963) questionou a deferência automática ao poder americano, sem romper com a integração econômica. Sob Lester Pearson (1963-1968), o fortalecimento do Estado social e do aparato federal ocorreu em paralelo à consolidação da integração produtiva continental.
O Acordo de Produtos Automotivos entre o Canadá e os Estados Unidos (Auto Pact, de 1965) eliminou tarifas sobre automóveis e autopeças e integrou profundamente as cadeias industriais dos dois países, sobretudo em Ontário, antecipando uma dinâmica em que cooperação econômica e tensões políticas passariam a coexistir.
Nesse contexto de integração produtiva crescente e elevada presença estrangeira, o Gray Report de 1972 recomendou o controle de aquisições externas para ampliar a participação canadense na economia. Assim, esse projeto de autonomia passou a se traduzir em instrumentos concretos de política econômica voltados à regulação do investimento estrangeiro e de setores estratégicos, num contexto agravado pelas crises internacionais do petróleo no fim da década de 1970.
Iniciativas como a criação da Agência de Revisão de Investimentos Estrangeiros (Foreign Investment Review Agency, FIRA e o Programa Nacional de Energia (NEP), 1980-1984, expressaram esse esforço, mas também colocaram Ottawa em rota de colisão com interesses corporativos consolidados, com governos provinciais, sobretudo em regiões produtoras de petróleo, e com o próprio governo dos Estados Unidos.
Esses conflitos deixaram de ser apenas domésticos quando os Estados Unidos levaram as políticas canadenses de regulação do investimento ao GATT, no início dos anos 1980, transformando disputas sobre política econômica nacional em controvérsias formais no sistema multilateral de comércio.
Foi nesse ponto que disputas internas passaram a se articular com pressões externas, redefinindo o rumo da estratégia econômica canadense.
Da autonomia contestada à integração continental
A partir dos anos 1980, a disputa em torno da autonomia econômica canadense deu lugar a uma reorientação mais profunda, na qual a integração continental passou a definir os limites da política econômica e do papel do Estado.
O recuo das políticas de controle econômico não foi resultado de uma única causa, mas da convergência entre interesses corporativos, resistências subnacionais — sobretudo em províncias produtoras de petróleo como Alberta — e disputas internas sobre o alcance da intervenção estatal. Esse equilíbrio se deslocou de forma decisiva quando os Estados Unidos passaram a contestar políticas canadenses no GATT e a adotar uma política comercial mais agressiva, baseada em "fair trade" e exigência de reciprocidade.
As negociações iniciadas em 1986 culminaram no Acordo de Livre Comércio Canadá-Estados Unidos (CUSFTA), em vigor a partir de 1989, posteriormente aprofundado pelo NAFTA (1994), que foi renegociado com Trump em 2020, USMCA. A partir daí, a integração deixou de ser uma opção política e passou a operar como imperativo estrutural da estratégia econômica canadense.
Carney e o dilema canadense sob Trump 2
É esse percurso histórico que confere densidade crítica ao discurso de Carney em Davos. Ao afirmar que a interdependência passou a ser usada como instrumento de coerção, ele desloca o debate do comportamento episódico de governos para uma arquitetura internacional construída ao longo de décadas, na qual corporações e grandes potências moldaram regras, acordos e práticas que condicionam o espaço de decisão dos Estados.
À luz desse diagnóstico, a estratégia recente de diversificação das relações econômicas do Canadá deve ser compreendida como uma resposta às novas formas de coerção associadas à integração continental. A reaproximação com a China, a busca por novos arranjos no Pacífico e o esforço para ampliar parcerias fora do eixo norte-americano não sinalizam ruptura com os Estados Unidos, mas uma tentativa de reconstruir margem de decisão política diante de uma dependência que se tornou fonte de vulnerabilidade.
Ao afirmar que o Canadá precisa se posicionar "para o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse", Carney explicita que autonomia, hoje, significa preservar a capacidade de agir segundo interesses nacionais em um ambiente de rivalidade entre grandes potências.
A reação de Washington evidencia os limites desse movimento. Sob Trump 2, a diversificação canadense tem sido tratada menos como estratégia defensiva legítima e mais como desafio político à hierarquia regional. A retórica de ameaça, a guerra tarifária, as pressões econômicas e as referências provocativas à soberania canadense, incluindo integridade territorial, indicam que instrumentos econômicos, comerciais e estratégicos passaram a ser mobilizados para obter concessões políticas.
O dilema do Canadá, portanto, não é escolher entre integração ou isolamento, nem substituir uma dependência por outra. Trata-se de algo mais específico e mais difícil: preservar autonomia suficiente para tomar decisões econômicas e estratégicas próprias em um contexto no qual, como sugere o próprio discurso de Carney, a interdependência, construída por regras e acordos promovidas pelos Estados Unidos, passou a operar como mecanismo de pressão direta. Combinando coerção econômica, ameaças tarifárias e questionamentos à soberania nacional, hoje visíveis na retórica e nas práticas da administração Trump 2.
Esse dilema, embora expresso de forma aguda no caso canadense, traduz um momento mais amplo da política internacional, que também desafia países médios e periféricos, como o Brasil, a conciliar integração econômica com a preservação de capacidade própria de decisão em um ambiente marcado pela rivalidade entre grandes potências.
Edna Aparecida da Silva não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.