O ataque ao Irã: a armadilha de Tucídides em funcionamento em pleno séc. XXI
O ataque ao Irã, neste contexto, não é um evento isolado , mas o sintoma agudo do que o historiador grego Tucídides observou na Antiguidade
A geopolítica contemporânea desenha um cenário de tensões que remete a conceitos milenares. A pressão de Trump sobre o Panamá diante da influência chinesa, as investidas pelo controle do petróleo venezuelano, a cobiça sobre a Groenlândia e a visível desidratação de instituições como a OTAN, ONU e OMS são peças de um mesmo tabuleiro.
O ataque ao Irã, neste contexto, não é um evento isolado , mas o sintoma agudo do que o historiador grego Tucídides observou na Antiguidade.
A Armadilha de Tucídides descreve o perigo estrutural que surge quando uma potência hegemônica (no caso atual, os EUA) se vê ameaçada por uma potência em ascensão (a China).
Historicamente, em 12 de 16 casos semelhantes, o resultado foi a guerra. Washington parece agora empenhada em desestabilizar o próprio arcabouço institucional que ajudou a construir nos anos 1940 e 1950, agindo para frear o avanço chinês por meios que extrapolam a diplomacia tradicional.
Mas por que o Irã tornou-se o epicentro dessa fricção?
A resposta reside em sua posição geográfica ímpar e em sua insubmissão. O Irã é o único país na Ásia Menor sem bases militares estadunidenses, detém uma riqueza energética formidável e possui o poder estratégico de fechar o Estreito de Ormuz, por onde flui grande parte do petróleo mundial.
É ainda um Estado recém-ingresso no BRICS e peça-chave na Nova Rota da Seda, Teerã é o nó que a hegemonia ocidental tenta desatar.
Em condições normais de pressão e temperatura, os EUA admitem, nos bastidores, que o jogo econômico está virando.
O capitalismo financeiro do Ocidente tem demonstrado não ser páreo para o capitalismo industrial asiático, que floresce como o novo eixo de projeção de poder global.
Sem saber como reagir à ascensão da nova potência e temendo suas aspirações, Washington se deixar tragar pela armadilha geopolítica famosa, consumando na prática, a prescrição teórica de Tucídides, a potência que está prestes a ser ultrapassada costuma recorrer à força bruta ou a guerras por procuração quando percebe que a hegemonia lhe escapa pelas mãos (No caso do historiador grego, Esparta x Atenas).
A brutalidade das sanções e ataques sugere que não será diferente desta vez. Contudo, há variáveis subestimadas: o regime iraniano preparou-se por décadas para este embate, recebendo transferência de tecnologia militar de Pequim e Moscou. Embora China e Rússia evitem o envolvimento direto, dificilmente permitirão a perda de sua zona de influência vital no Oriente Médio.
Estaremos diante de uma Terceira Guerra Mundial?
É cedo para o veredito definitivo, mas é inegável que já habitamos as trincheiras de uma Nova Guerra Fria. O ataque ao Irã é o teste de fogo para a ordem global e o sinal de que a armadilha do passado ainda aprisiona o futuro.
*Por Alexandre Gossn - pesquisador e Doutorando pela Universidade de Coimbra, Mestre em Direito e autor da newsletter "Um olhar das Ciências Sociais", estuda os autoritarismos contemporâneos há anos. É autor de Fascismo Pandêmico, Cidadelas & Muros entre outros.