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O algoritmo comprime o tempo democrático, desativa a memória e desloca o debate sobre o futuro

Nunca falamos tanto sobre o presente, nem nos custa tanto imaginar o futuro, e compreender a relação entre as plataformas digitais e a percepção do tempo ajuda a enfrentar o desafio da democracia

16 out 2026 - 08h28
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Resumo
A lógica dos algoritmos nas plataformas digitais alterou o ritmo da democracia, trocando o debate reflexivo pela busca imediata de visibilidade. Essa dinâmica gera um "presentismo" constante, no qual crises passageiras e escândalos contínuos apagam a memória histórica e sufocam discussões cruciais a longo prazo, como o clima e a desigualdade. Ao comprimir o tempo político, o ecossistema digital enfraquece a prestação de contas e limita a imaginação coletiva necessária para projetar o futuro.
shutterstock katyaskrnshop/Shutterstock
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Foto: The Conversation

Nos acostumamos rápido demais com o fato de que, assim que começamos a entender um escândalo político, outro já toma seu lugar. Ao mesmo tempo em que uma indignação substitui a anterior, uma crise dá lugar à seguinte. Enquanto isso, alguns dos maiores desafios do nosso tempo — as mudanças climáticas, o envelhecimento da população ou as desigualdades — desaparecem rapidamente do debate público, por mais determinantes que sejam.

Mas será que isso se deve simplesmente ao ritmo do mundo atual? Talvez não. Na verdade, acontece que a democracia tem um problema com o tempo, pois nunca havíamos falado tanto do presente nem tivemos tanta dificuldade em imaginar o futuro.

Hoje parece muito normal explicar a crise de nossas democracias a partir de fenômenos como a polarização, a desinformação, as câmaras de eco, as notícias falsas ou, mais recentemente, a inteligência artificial. Não há como negar que todos são problemas reais e merecem a atenção que têm recebido. Mas talvez, ao nos concentrarmos no que circula pelas plataformas, tenhamos deixado passar algo ainda mais importante: a maneira como estas questões transformam o tempo da política.

Vertigem democrática

Essa mudança não afeta apenas a informação que consumimos, mas também o ritmo em que a política democrática se desenvolve. Antes, competia-se para convencer ou, pelo menos, fazia-se algum esforço nesse sentido. Os partidos e os governos buscavam persuadir os cidadãos por meio de programas, argumentos e projetos capazes de se sustentar ao longo do tempo. Agora, compete-se, acima de tudo, para não desaparecer do algoritmo.

E isso afeta muito mais do que a nossa forma de nos informarmos. Altera a própria comunicação e, sobretudo, perturba a maneira como a democracia vivencia o tempo. Nas plataformas digitais, a visibilidade depende menos da solidez de uma proposta do que de sua capacidade de chamar a atenção. Vários estudos mostram que as mensagens que surpreendem, indignam, emocionam ou confrontam têm mais chances de circular do que aquelas que exigem contexto ou reflexão.

A lógica deixa de ser apenas política e passa a ser também algorítmica, pois o importante não é mais apenas convencer, mas manter-se visível. Aos poucos, a política se adapta a essa dinâmica das plataformas. Os debates se tornam mais curtos, as promessas se simplificam e as reações substituem as explicações. Sem percebermos, deixamos de exigir as melhores ideias e esperamos, impacientes, pelo próximo momento de atenção. E é aqui, no momento em que essa atenção se torna tanto o objetivo quanto o recurso mais valioso, que o futuro deixa de orientar a bússola da política.

Sem contexto nem visão de futuro

Mas o que acontece com uma democracia quando toda a política gira em torno do próximo instante? Acontece que o presente acaba por dominar o debate público e ocupar quase todo o horizonte. Não se trata apenas de cada escândalo substituir o anterior antes que possamos compreendê-lo, mas, fundamentalmente, do que isso significa. Trata-se de um "presentismo" que acaba por anular todo esforço de perspectiva. Ao mesmo tempo em que a ausência de contexto ao rolar a tela (infinite scroll) substitui a memória, a penetração invasiva de tendências e hashtags desloca a conversa sobre o futuro. A política torna-se, então, um espaço reativo diante do próximo estímulo.

Isso importa porque as democracias precisam de algo mais do que eleições periódicas. Elas precisam de memória para exigir responsabilização e de futuro para construir projetos comuns. Sem memória, a prestação de contas perde sentido e, sem futuro, não há capacidade de projetar decisões coletivas que transcendam a urgência do momento.

O problema das plataformas para a democracia vai além da circulação de excesso de informação ou desinformação. A questão é que elas contribuem para comprimir o tempo democrático, o que impede a política de olhar para frente e a mantém presa a um presente permanente. Por isso, o que vivemos hoje é mais do que uma crise da informação. Estamos diante de uma crise do tempo democrático.

Crise constante

Comecemos por reconhecer que esse tempo não é um recurso neutro. A maneira como uma sociedade o vivencia também determina o que ela é capaz de imaginar. O que está em jogo nessa lógica das plataformas é, acima de tudo, a imaginação democrática. Ou seja, a capacidade da sociedade de pensar além da próxima crise, deliberar sobre horizontes compartilhados e construir projetos coletivos que vão além do próximo ciclo eleitoral. Sem essa capacidade, a política se limita a administrar acontecimentos, confinando-nos a uma sensação de crise constante e sem rumo.

Hoje está claro que participamos, reagimos e opinamos como nunca antes, mas cada vez mais nos é difícil imaginar futuros diferentes. Talvez, afinal, o recurso democrático mais importante não seja apenas o voto, as instituições ou a informação de qualidade. Talvez seja a capacidade coletiva de imaginar futuros compartilhados. Se isso for verdade, provavelmente o maior risco das plataformas digitais seja, além de influenciar o que pensamos, reduzir aquilo que ainda somos capazes de imaginar.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Manuel Alejandro Guerrero é professor da Universidade Ibero-Americana e presidente da ORBICOM, a Rede Mundial de Cátedras da UNESCO em Comunicação.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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