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Nova crise diplomática expõe pressão dos EUA sobre Brasil

6 ago 2026 - 07h16
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Escalada das tensões entre os dois países reacende alerta sobre interferência eleitoral. Especialistas pontuam que estratégia americana se insere em uma longa tradição de intervenção dos EUA na região.A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington expôs uma nova rodada da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos. A nova medida da Casa Branca, sob o comando do presidente Donald Trump, integra uma escalada de tensão entre os países que inclui tarifas, acusações de interferência e discursos inflamados.

Escalada também reflete diferenças ideológicas entre os governos de Trump e Lula
Escalada também reflete diferenças ideológicas entre os governos de Trump e Lula
Foto: DW / Deutsche Welle

Incomum, a iniciativa é interpretada como uma tentativa de aumentar a pressão sobre Brasília e influenciar o cenário político às vésperas das eleições. A estratégia também remete a um histórico de intervenções, diretas ou indiretas, dos Estados Unidos em assuntos internos de países da América Latina, avaliam especialistas ouvidos pela DW.

"O contexto dessa situação é a tentativa dos Estados Unidos de influenciar, de uma maneira ou de outra, o rumo das eleições no Brasil. Esse, talvez, seja o momento em que, desde 1964, os EUA tentam interferir de forma mais direta nos assuntos domésticos do Brasil, em um contexto em relação à eleição", avalia Leonardo Paz Neves, professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ e pesquisador em política externa.

Recusa é mais novo passo da crise

Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em resposta à demora do governo brasileiro em aprovar o indicado de Donald Trump para a embaixada americana em Brasília. Segundo autoridades americanas, a medida pode ser revertida caso o Brasil aceite a indicação, mas a expectativa é que isso não ocorra antes das eleições de outubro.

A tensão chega ao ápice na esteira de uma escalada iniciada em 1º de junho, quando os EUA anunciaram a indicação do presidente da Câmara de Representantes da Flórida, Daniel Perez, para o cargo de embaixador americano no Brasil.

O protocolo diplomático, entretanto, rege que o nome indicado não deveria vir a público antes da aprovação formal pelo Brasil (o chamado "agrément"). Só no fim daquele mês que o governo americano oficialmente levaria o pedido à contraparte brasileira. Aparentemente contrariado com a quebra de protocolo, o governo brasileiro vinha evitando conceder o agrément.

Para Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM, trata-se de um dos momentos mais delicados desde a redemocratização brasileira, embora seja precipitado classificá-lo como a pior crise de toda a história bilateral.

"A escalada reúne elementos que, normalmente, aparecem de maneira isolada: imposição de tarifas, acusações de interferência eleitoral, recusa de vistos, demora na concessão do agrément ao indicado para a Embaixada dos Estados Unidos e, agora, a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington", diz.

Além disso, diferentemente do que ocorre com a maioria dos países, em que as tarifas costumam estar relacionadas a questões econômicas, como superávits comerciais em relação aos Estados Unidos, no caso brasileiro as medidas tiveram motivação política, de acordo com Leonardo Paz Neves, do Ibmec-RJ.

"O Brasil foi alvo de duas rodadas dessas ações, uma em 2025 e outra em 2026. Naquele contexto, em função do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e, agora, em função do apoio, me parece que não mais velado, à candidatura do senador Flávio Bolsonaro", diz.

A escalada também reflete diferenças ideológicas entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. As divergências sobre temas como democracia, multilateralismo, América Latina e soberania, aliadas à aproximação do governo americano com setores da oposição brasileira, ampliaram o desgaste bilateral e levaram disputas domésticas para a esfera diplomática. Assim, a crise atual é fruto de uma sucessão de atritos políticos, comerciais e institucionais, e não de um evento isolado.

"A proximidade de Trump com a família Bolsonaro e as declarações de autoridades americanas sobre o processo eleitoral brasileiro aumentam a percepção de que existe uma tentativa de influenciar o pleito de outubro. Washington nega essa interpretação e afirma buscar eleições livres e uma relação bilateral funcional", afirma Uebel.

Histórico de intervenções

Ao longo de sua história, a política dos Estados Unidos para a América Latina combinou períodos de cooperação com intervenções destinadas a preservar sua influência na região. Da Doutrina Monroe ao apoio a golpes durante a Guerra Fria, passando por sanções econômicas, e, mais recentemente, por tarifas comerciais e pressões diplomáticas no governo Donald Trump, os instrumentos mudaram, mas a estratégia de exercer influência sobre países considerados estratégicos permaneceu semelhante.

Na avaliação de Neves, a postura dos Estados Unidos é marcada por uma tentativa de consolidar sua influência na região. Atualmente, grande parte dos países da América do Sul e, em certa medida, da América Latina, é governada por administrações mais alinhadas ideologicamente ao governo Trump. Nesse contexto, a agenda defendida por Washington tende a ser mais bem recebida e a encontrar maior aderência entre as preferências políticas desses governos.

"O Brasil, obviamente, no contexto ideológico que se posiciona, é um país que vai reagir, e não digo violentamente, mas questionar, pelo menos, ou não concordar com certas práticas que os Estados Unidos têm tomado aqui na região", diz.

Lucas Leite, doutor em Relações Internacionais, professor da FAAP e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), afirma que nos anos 1960, quando os Estados Unidos apoiaram o golpe de 1964, havia um cálculo de Guerra Fria; nas tensões comerciais dos anos 1970 e 1980, em torno de informática e patentes, havia disputa econômica concreta. Agora, contudo, é diferente.

"A motivação declarada é a defesa de um aliado político condenado pela Justiça brasileira por tentativa de golpe. Isso é uma novidade, porque subordina o vínculo bilateral ao ciclo político doméstico de ambos os países e à articulação entre bolsonarismo e trumpismo, algo que a diplomacia profissional, dos dois lados, tem enorme dificuldade de conter", pondera.

Entendimento futuro?

Segundo Lucas Leite, para os próximos meses, o cenário mais provável é de continuidade da escalada diplomática, com respostas pontuais dos dois lados, mas sem rompimento das relações. Uma guinada neste cenário dependeria de fatores como mudanças no cenário político americano ou de um acordo em torno do agrément do indicado à embaixada dos EUA.

"Já o cenário mais grave envolveria novas pressões econômicas ou interferências no processo eleitoral brasileiro, o que reforçaria a busca do Brasil por maior autonomia estratégica e pela diversificação de suas parcerias internacionais", diz.

Apesar disso, a esperança é de um entendimento no longo prazo. Para Marcio Sette Fortes, ex-diretor do Brasil no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os efeitos econômicos da crise diplomática tendem a permanecer limitados no curto prazo, já que o desgaste está concentrado na esfera política e não representa, por ora, uma ruptura estrutural nas relações entre os dois países.

"Crises são sempre superadas pelo bom entendimento e pela cordialidade. O interesse econômico e comercial, além disso, é mútuo e o desentendimento atual parece estar calcado em dificuldades ideológicas de entendimento entre as duas administrações, o que não deve comprometer a longo prazo o tradicional relacionamento Brasil-Estados Unidos", afirma.

"A história demonstra que Brasil e Estados Unidos conseguem reconstruir suas relações depois de crises importantes. Em 1977, as divergências sobre direitos humanos e o programa nuclear brasileiro contribuíram para o rompimento do acordo militar de 1952. Em 2013, as revelações de espionagem da NSA levaram Dilma Rousseff a adiar uma visita de Estado a Washington, mas a cooperação bilateral foi gradualmente restabelecida", lembra Uebel.

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