Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Música e literatura: um mergulho na trajetória da poeta Alice Ruiz entre os livros, as rádios e os palcos

Um passeio pela obra da poeta e compositora Alice Ruiz, que escreveu 21 livros e ajudou a aproximar poesia e música popular brasileira, compondo para as vozes de Zélia Duncan, Arnaldo Antunes e Ney Matogrosso, entre outros

26 ago 2026 - 15h52
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
Aos 80 anos, a poeta e compositora Alice Ruiz é homenageada pela UBC com o Troféu Tradições 2026 por sua relevância na música brasileira. Vencedora de dois Prêmios Jabuti e com 21 livros publicados, ela se destaca pela união entre literatura e canção, sendo pioneira na difusão do haicai no país e voz ativa na poesia feminista. Com mais de 50 composições gravadas, sua obra inclui parcerias marcantes com nomes como Itamar Assumpção e Arnaldo Antunes, interpretadas por grandes ícones da MPB.

Este artigo foi escrito em parceria com Mônica Tarantino, da equipe de editores do The Conversation Brasil.

Você conhece algum verso da poeta Alice Ruiz? Mesmo sem saber, já deve ter ouvido muitos deles. Parte importante da poesia brasileira dos últimos 70 anos não ficou somente nas páginas dos livros. Ela foi parar na música. E muitos desses versos que o Brasil aprendeu a cantarolar chegaram ao público na forma de poemas musicados ou de composições de Alice.

Nesta quarta-feira, 26 de agosto, aos 80 anos, a poeta recebe em São Paulo o Troféu Tradições 2026, concedido pela União Brasileira de Compositores (UBC) a mulheres que tiveram papel relevante na história da música brasileira. Em edições anteriores, foram homenageadas Anastácia, Dona Onete, Lia de Itamaracá, Alaíde Costa e Rosa Passos.

A premiação da UBC convida a olhar mais atentamente para a figura da mulher compositora, cada vez mais ocultada pelas plataformas digitais que não registram devidamente os créditos autorais das músicas que reproduzem e com as quais lucram.

Seus versos foram cantados por artistas como Ney Matogrosso, Ná Ozzetti, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Alzira E, Itamar Assumpção, Elba Ramalho e Wanderléa. "Socorro", parceria com Arnaldo Antunes, por exemplo, foi lançada por Cássia Eller em 1994, gravada por Antunes em 1998 e por Gal Costa em 2002.

Alice também compôs com Alzira E (com quem lançou o álbum Paralelas, em 2005), José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Iara Rennó, Vange Milliet, Gustavo Galo e a filha Estrela, entre tantos outros. Seu repertório reúne dezenas de outras composições registradas no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Ao contemplar Alice, a UBC reconhece uma trajetória que ajuda a compreender a proximidade entre poesia e música popular no país. Autora de 21 livros, ela recebeu dois Prêmios Jabuti e tem mais de 50 canções gravadas.

Poesia para se cantar

O Brasil cultiva uma tradição de parceria entre poetas e músicos. Estudos sobre essa relação mostram que a música popular se consolidou como um suporte importante de circulação da poesia brasileira, principalmente a partir da bossa nova. Até mesmo João Cabral, poeta conhecido por não apreciar a relação íntima entre música e poema, rendeu-se a este encontro singular na cultura brasileira.

A canção brasileira, em especial, a partir do fim dos anos 1960, ampliou o público dos poetas e, ao mesmo tempo, aproximou a composição popular de procedimentos próprios da literatura. Alice Ruiz, assim como Torquato Neto, Waly Salomão e Paulo Leminski, pertence a essa linhagem. Nascida em Curitiba, ela começou a escrever aos nove anos. Publicou poemas em jornais e revistas culturais antes de lançar seu primeiro livro, Navalhanaliga, em 1980, aos 34 anos. Antes disso, já escrevia textos feministas, trabalhava em revistas e publicidade e produzia roteiros de histórias em quadrinhos.

Um dos elementos fundamentais da trajetória literária de Alice Ruiz é o haicai. De origem japonesa, é uma forma poética tradicionalmente composta por três versos e associada à percepção de um instante a partir da observação da natureza. Ela já escrevia poemas curtos quando foi apresentada ao gênero e à prática zen, aos 22 anos, pelo poeta Paulo Leminski, que foi seu companheiro e com quem teve um filho e duas filhas.

Alice encontrou no haicai uma forma próxima da poesia que já buscava. Em entrevistas, falou sobre uma tropicalização do haicai, preservando sua concentração e seu olhar para o instante. "Fiquei maluca a primeira vez que entrei em contato com o Zen. Essa coisa de grata aceitação à vida, a não verbalização, o humor, a ausência de solidão, um distanciamento de você mesmo, a não intelectualização", disse em entrevista em 1988.

De forma pioneira, em 1990, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, Alice começou a ministrar oficinas de haicai. As oficinas combinavam teoria, contato com elementos do zen budismo, exercícios coletivos de tradução, observação da natureza e produção dos próprios haicais. Durante décadas, além de publicar poesia, ela formou leitores e praticantes do haicai no país. Conheceu boa parte do Brasil dando esse curso, como contou em entrevista.

Ela também traduziu poesia japonesa e publicou livros dedicados ao gênero. Sua produção de haicais, assim como sua obra mais ampla, tornou-se tema de artigos, dissertações e teses em universidades brasileiras. Os estudos analisam tanto os aspectos formais de seus poemas quanto a adaptação do haicai japonês à língua e à cultura brasileiras.

A atuação da poeta nesse campo recebeu reconhecimento especial. Em 1993, a comunidade nipo-brasileira concedeu a Alice o nome de haicaísta Yuuka. Ela recebeu a rara distinção ao lado da poeta paranaense Helena Kolody. Foi essa a primeira vez que duas poetas ocidentais receberam a outorga.

Feminismo e haicai

Era uma vez uma mulher que via um futuro grandioso Para cada homem que a tocava Um dia ela se tocou.

A formação poética de Alice Ruiz passa pelo haicai, pela experimentação formal associada à poesia concreta, pela cultura visual e por uma produção feminista iniciada nos anos 1970. Pesquisas sobre sua obra identificam a combinação de concisão, sonoridade, humor, erotismo, cotidiano e reflexão sobre a experiência das mulheres.

A experiência com uma poesia em que nenhuma palavra pode ser desperdiçada facilita o entendimento de sua passagem para a música. Para Alice, compor a letra de uma canção não significa simplesmente colocar melodia em um poema. É outra construção, submetida às necessidades da canção. A letra precisa conviver com melodia, ritmo, repetição, pausa, voz e interpretação.

Em entrevista, ela explicou as diferenças entre uma letra e um poema: "É o tempo, o tempo para absorver. O poema no papel, algumas passagens do poema nos agradam e outras não. A gente não tem uma compreensão imediata. Mas há ali um ruído que dá vontade de voltar (…) A letra de música é diferente. Ou a letra te pega no primeiro verso ou você fica só ouvindo a música."

Na obra de Alice, no entanto, as fronteiras entre essas formas são porosas. Algumas de suas composições nasceram como letras; outras começaram como poemas e só depois encontraram uma melodia. Essa passagem de uma forma para outra é particularmente visível em sua relação com Itamar Assumpção, um dos principais nomes da Vanguarda Paulista e seu parceiro em muitas composições.

Alice e Itamar se conheceram em 1983 e mantiveram uma parceria de cerca de duas décadas, iniciada quando Itamar musicou versos do livro Navalhanaliga em um ônibus de Curitiba a São Paulo. "Juntando poemínimos, como numa colcha de retalhos, ele fez nossa primeira parceria", narra Alice (Songbook Itamar: Pretobrás, p. 63). Dessa aproximação nasceu "Navalha na Liga", gravada em 1986. Uma dissertação de mestrado feita na Universidade Federal do Paraná investigou como palavra e melodia se relacionam nas composições da dupla e situa esse repertório na história da música popular brasileira.

Saber poético-musical

O interesse de Itamar pelos poemas de Alice também tinha relação com a musicalidade dela. Sua poesia trabalha intensamente com rimas, repetições, aliterações, assonâncias e cortes. Estudos mostram como esses recursos produzem ritmo e sonoridade antes mesmo de o poema receber uma melodia. Dessa afinidade nasceram canções como "Sei dos Caminhos", "Vou Tirar Você do Dicionário", "Tristeza Não", "Tudo Esclarecido", "Vê se me Esquece", "Toque-me" e "Milágrimas", uma das composições mais conhecidas da dupla.

A trajetória de Alice recupera uma discussão que atravessa os estudos da literatura e da música: onde termina o poema e começa a letra de música? O crítico, músico e professor José Miguel Wisnik identificou na música popular brasileira a formação de um "saber poético-musical", no qual literatura e canção se alimentam mutuamente. Para ele, "a canção é, no Brasil, por excelência, um lugar onde muita coisa da melhor poesia acontece sendo música ao mesmo tempo. Aqui isso se tornou comum."

Na história da proximidade entre a música e a poesia, Vinicius de Moraes deixou de ser apenas um poeta dos livros para se tornar parceiro de Tom Jobim e Baden Powell; Torquato Neto, sem publicar um livro de poemas em vida, levou a poesia para dentro do Tropicalismo; Waly Salomão escreveu com Caetano Veloso e Jards Macalé; Paulo Leminski transitou entre livro e música; Arnaldo Antunes fez da fronteira entre poema, imagem, voz e canção um dos territórios de sua obra. Alice Ruiz tem lugar de destaque nessa história.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Gustavo Galo não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra