Música contra o stress na medicina: pesquisadores criam curso de gestão emocional para médicos
Embora o currículo dos cursos de medicina inclua disciplinas como ética e psicologia, tradicionalmente o espaço para reconhecer e manejar as próprias emoções permanece limitado entre os profissionais de saúde. Pesquisadores brasileiros trabalham para quebrar esse perigoso paradigma
A formação médica é uma jornada repleta de emoções. Durante o percurso, os estudantes se deparam com a complexidade emocional oriunda dos efeitos que o processo de adoecimento e cura pode exercer sobre os pacientes.
Esse processo ocorre simultaneamente ao desenvolvimento pessoal e profissional do estudante, que busca mecanismos para se adaptar a essa realidade emocional complexa.
Pesquisas mostram que cerca 25% a 30% dos estudantes de medicina apresentam sintomas depressivos. E o índice de burnout entre médicos ultrapassa 50%.
Esses dados, derivados de metanálises com ampla base amostral, evidenciam um padrão consistente de sofrimento psíquico elevado ao longo da formação médica, com implicações diretas para o desempenho acadêmico, a identidade profissional e a prática clínica futura.
Embora o currículo médico inclua disciplinas como ética e psicologia, o espaço formal destinado a preparar futuros profissionais para reconhecer e manejar as próprias emoções permanece limitado.
Paralelamente, existe um "currículo oculto". Um conjunto de normas, valores e atitudes transmitidos informalmente no ambiente acadêmico, muitas vezes em contradição com os princípios do currículo formal.
Nele, aprende-se que o bom médico deve ser frio e distante. Alguém que não demonstra emoções. Essa noção é sustentada pela observação do comportamento de professores e supervisores que, frequentemente, demonstram uma postura de desestímulo à expressão de sentimentos.
Assim, o jovem que ingressou no curso com a vontade genuína de cuidar, pouco a pouco se desconecta das suas emoções.
Emoções podem qualificar médicos
Faço parte de um grupo que discorda dessa visão. Nós acreditamos que as emoções podem qualificar o médico. Se a prática médica é, inevitavelmente, composta por emoções, suprimi-las não as elimina. Apenas as torna silenciosas e à margem de qualquer elaboração.
A pergunta, portanto, não é se a medicina deve ou não lidar com emoções, mas como promover o desenvolvimento emocional.
Diversos autores já demonstraram que o desenvolvimento emocional dos estudantes de medicina pode aprimorar a tomada de decisão clínica e promover o bem-estar de médicos e pacientes.
Entretanto, não existe um arcabouço teórico definitivo sobre como promover esse desenvolvimento emocional.
Recentes estudos indicam um potencial promissor para fomentar o desenvolvimento emocional por meio do emprego de atividades pedagógicas baseadas em arte, incluindo a música.
A música tem sido amplamente reconhecida como uma ferramenta poderosa no campo educacional. Ouvir música ativa a plasticidade cerebral por meio do estímulo de circuitos neuronais que ampliam a cognição e favorecem a percepção emocional.
A integração entre emoção e cognição possibilita um processo reflexivo mais profundo para o estudante. Além disso, expande sua capacidade de lidar com a ambiguidade e, desta forma, promove o desenvolvimento do pensamento crítico.
Essa expansão da cognição, também amplia a experiência educativa, tornando-a mais dinâmica e repleta de significados.
Emoções em medicina
Foi nesse contexto que nosso grupo, composto por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Unicamp e da Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), em colaboração com a Universidade de Groningen, na Holanda, desenvolveu o curso "Emoções em Medicina".
A proposta foi simples e, ao mesmo tempo, inovadora. A ideia foi utilizar uma atividade pedagógica baseada em música para promover reconhecimento, expressão e regulação das emoções.
Durante quatro semanas, 124 estudantes participaram de encontros em que escutaram e analisaram canções de artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Criolo, Coldplay e Pink Floyd.
A partir da reflexão sobre letras, ritmos e melodias, foram convidados a identificar emoções evocadas pelas músicas. E mais, o convite se estendeu para que estabelecessem paralelos com situações vividas na prática clínica.
O ambiente era estruturado para garantir segurança psicológica e permitir que experiências pessoais e profissionais fossem compartilhadas sem julgamento.
Além da reflexão, os participantes praticaram estratégias de regulação emocional, que são habilidades associadas à capacidade de reconhecer, compreender e modular emoções diante de situações estressantes.
Para analisar o impacto desta atividade pedagógica sobre o desenvolvimento emocional dos estudantes de medicina, realizamos um estudo prospectivo multicêntrico.
Utilizamos uma metodologia quantitativa para comparação dos níveis de inteligência emocional dos estudantes antes e depois da atividade.
Em seguida, realizamos um segundo estudo. Por meio de uma metodologia qualitativa, fizemos uma análise temática reflexiva e indutiva.
O objetivo foi explorar como a atividade pedagógica baseada nos conceitos de regulação emocional e música influenciou o desenvolvimento emocional de estudantes de medicina.
O reencontro com o propósito de cuidar
Ao final da pesquisa, observamos melhora significativa nos indicadores de inteligência emocional dos participantes.
Nas entrevistas qualitativas, os estudantes relataram que a experiência favoreceu conexões interpessoais, naturalizou a presença de emoções na prática médica e, para muitos, representou um reencontro com o propósito original de cuidar.
Ao encorajar os estudantes a perceberem, expressarem e regularem suas emoções, a atividade se contrapôs à supressão emocional prescrita pelo currículo oculto.
A música tem sido utilizada em hospitais como recurso terapêutico para pacientes. Entretanto, talvez seja hora de reconhecer que médicos também necessitam de instrumentos para compreender e elaborar suas próprias emoções.
Não se trata de substituir o rigor técnico ou a racionalidade clínica, mas de ampliar a formação. E incluir competências emocionais que sustentam decisões complexas, habilidades de comunicação e cuidado compassivo.
Ao oferecer aos estudantes um espaço para explorar, ressignificar e acolher suas emoções por meio de uma atividade que une música e regulação emocional, proporcionamos um caminho inovador. Nele, integramos razão e emoção.
Diante de indicadores crescentes de sofrimento psíquico na formação médica, investir no desenvolvimento emocional pode ser uma estratégia de sustentabilidade profissional.
Preparar médicos tecnicamente competentes é essencial. Capacitá-los também para lidar com as emoções inerentes ao cuidado pode ser decisivo para preservar tanto a qualidade da assistência quanto a saúde de quem cuida.
A publicação deste artigo contou com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Marcelo Bueno da Silva Rivas não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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