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Música contra o stress na medicina: pesquisadores criam curso de gestão emocional para médicos

Embora o currículo dos cursos de medicina inclua disciplinas como ética e psicologia, tradicionalmente o espaço para reconhecer e manejar as próprias emoções permanece limitado entre os profissionais de saúde. Pesquisadores brasileiros trabalham para quebrar esse perigoso paradigma

21 abr 2026 - 11h49
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A formação médica é uma jornada repleta de emoções. Durante o percurso, os estudantes se deparam com a complexidade emocional oriunda dos efeitos que o processo de adoecimento e cura pode exercer sobre os pacientes.

Esse processo ocorre simultaneamente ao desenvolvimento pessoal e profissional do estudante, que busca mecanismos para se adaptar a essa realidade emocional complexa.

Pesquisas mostram que cerca 25% a 30% dos estudantes de medicina apresentam sintomas depressivos. E o índice de burnout entre médicos ultrapassa 50%.

Esses dados, derivados de metanálises com ampla base amostral, evidenciam um padrão consistente de sofrimento psíquico elevado ao longo da formação médica, com implicações diretas para o desempenho acadêmico, a identidade profissional e a prática clínica futura.

Embora o currículo médico inclua disciplinas como ética e psicologia, o espaço formal destinado a preparar futuros profissionais para reconhecer e manejar as próprias emoções permanece limitado.

Paralelamente, existe um "currículo oculto". Um conjunto de normas, valores e atitudes transmitidos informalmente no ambiente acadêmico, muitas vezes em contradição com os princípios do currículo formal.

Nele, aprende-se que o bom médico deve ser frio e distante. Alguém que não demonstra emoções. Essa noção é sustentada pela observação do comportamento de professores e supervisores que, frequentemente, demonstram uma postura de desestímulo à expressão de sentimentos.

Assim, o jovem que ingressou no curso com a vontade genuína de cuidar, pouco a pouco se desconecta das suas emoções.

Emoções podem qualificar médicos

Faço parte de um grupo que discorda dessa visão. Nós acreditamos que as emoções podem qualificar o médico. Se a prática médica é, inevitavelmente, composta por emoções, suprimi-las não as elimina. Apenas as torna silenciosas e à margem de qualquer elaboração.

A pergunta, portanto, não é se a medicina deve ou não lidar com emoções, mas como promover o desenvolvimento emocional.

Diversos autores já demonstraram que o desenvolvimento emocional dos estudantes de medicina pode aprimorar a tomada de decisão clínica e promover o bem-estar de médicos e pacientes.

Entretanto, não existe um arcabouço teórico definitivo sobre como promover esse desenvolvimento emocional.

Recentes estudos indicam um potencial promissor para fomentar o desenvolvimento emocional por meio do emprego de atividades pedagógicas baseadas em arte, incluindo a música.

A música tem sido amplamente reconhecida como uma ferramenta poderosa no campo educacional. Ouvir música ativa a plasticidade cerebral por meio do estímulo de circuitos neuronais que ampliam a cognição e favorecem a percepção emocional.

A integração entre emoção e cognição possibilita um processo reflexivo mais profundo para o estudante. Além disso, expande sua capacidade de lidar com a ambiguidade e, desta forma, promove o desenvolvimento do pensamento crítico.

Essa expansão da cognição, também amplia a experiência educativa, tornando-a mais dinâmica e repleta de significados.

Emoções em medicina

Foi nesse contexto que nosso grupo, composto por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Unicamp e da Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), em colaboração com a Universidade de Groningen, na Holanda, desenvolveu o curso "Emoções em Medicina".

A proposta foi simples e, ao mesmo tempo, inovadora. A ideia foi utilizar uma atividade pedagógica baseada em música para promover reconhecimento, expressão e regulação das emoções.

Durante quatro semanas, 124 estudantes participaram de encontros em que escutaram e analisaram canções de artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Criolo, Coldplay e Pink Floyd.

A partir da reflexão sobre letras, ritmos e melodias, foram convidados a identificar emoções evocadas pelas músicas. E mais, o convite se estendeu para que estabelecessem paralelos com situações vividas na prática clínica.

O ambiente era estruturado para garantir segurança psicológica e permitir que experiências pessoais e profissionais fossem compartilhadas sem julgamento.

Além da reflexão, os participantes praticaram estratégias de regulação emocional, que são habilidades associadas à capacidade de reconhecer, compreender e modular emoções diante de situações estressantes.

Para analisar o impacto desta atividade pedagógica sobre o desenvolvimento emocional dos estudantes de medicina, realizamos um estudo prospectivo multicêntrico.

Utilizamos uma metodologia quantitativa para comparação dos níveis de inteligência emocional dos estudantes antes e depois da atividade.

Em seguida, realizamos um segundo estudo. Por meio de uma metodologia qualitativa, fizemos uma análise temática reflexiva e indutiva.

O objetivo foi explorar como a atividade pedagógica baseada nos conceitos de regulação emocional e música influenciou o desenvolvimento emocional de estudantes de medicina.

O reencontro com o propósito de cuidar

Ao final da pesquisa, observamos melhora significativa nos indicadores de inteligência emocional dos participantes.

Nas entrevistas qualitativas, os estudantes relataram que a experiência favoreceu conexões interpessoais, naturalizou a presença de emoções na prática médica e, para muitos, representou um reencontro com o propósito original de cuidar.

Ao encorajar os estudantes a perceberem, expressarem e regularem suas emoções, a atividade se contrapôs à supressão emocional prescrita pelo currículo oculto.

A música tem sido utilizada em hospitais como recurso terapêutico para pacientes. Entretanto, talvez seja hora de reconhecer que médicos também necessitam de instrumentos para compreender e elaborar suas próprias emoções.

Não se trata de substituir o rigor técnico ou a racionalidade clínica, mas de ampliar a formação. E incluir competências emocionais que sustentam decisões complexas, habilidades de comunicação e cuidado compassivo.

Ao oferecer aos estudantes um espaço para explorar, ressignificar e acolher suas emoções por meio de uma atividade que une música e regulação emocional, proporcionamos um caminho inovador. Nele, integramos razão e emoção.

Diante de indicadores crescentes de sofrimento psíquico na formação médica, investir no desenvolvimento emocional pode ser uma estratégia de sustentabilidade profissional.

Preparar médicos tecnicamente competentes é essencial. Capacitá-los também para lidar com as emoções inerentes ao cuidado pode ser decisivo para preservar tanto a qualidade da assistência quanto a saúde de quem cuida.

A publicação deste artigo contou com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Marcelo Bueno da Silva Rivas não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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