Única filha de Fidel Castro reflete sobre o homem que ela nunca quis chamar de pai: 'Ele me deu um boneco vestido como ele'
Desde muito cedo, Alina Fernández recebia em casa visitas frequentes de Fidel Castro. O que ela não sabia é que o líder cubano era seu pai.
Desde muito pequena, Alina Fernández recebia visitas frequentes de Fidel Castro (1926-2016). Mas ela passou grande parte da infância sem saber o motivo.
O homem que governou Cuba com mão de ferro por quase 50 anos era seu pai biológico.
Alina nasceu em Havana em 1956, fruto de um caso extraconjugal entre Castro e Naty Fernández, uma bela jovem da alta sociedade da capital cubana.
Na época, ele ainda era um dos líderes do movimento guerrilheiro que, três anos depois, iria depor o ditador Fulgencio Batista (1901-1973) e instalar um regime comunista autocrático na ilha do Caribe.
Nas décadas que se seguiram, calcula-se que até três milhões de pessoas tenham fugido do país rumo aos Estados Unidos. A própria filha de Castro foi uma delas.
Castro governou entre 1959 e 2008 e morreu de câncer em novembro de 2016. Ele teria celebrado seu centésimo aniversário em 13 de agosto de 2026.
Em Miami, nos Estados Unidos, Fernández, sua única filha reconhecida, recebeu a reportagem da BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. Ela conversou sobre sua história de vida, ligada a um dos mais famosos e controversos políticos do século 20, que ela nunca quis chamar de "pai".
Primeiras lembranças e visitas noturnas
Sua primeira recordação de Fidel Castro é de um homem barbudo que aparecia na TV nos horários em que, antes, eram apresentados desenhos do Mickey.
"Mickey Mouse desapareceu", relembra ela, hoje com 70 anos de idade. O personagem foi substituído por "homens barbudos pendurados em veículos, que me assustavam bastante e passavam dias na tela da TV".
A transformação do país dividiu muitas famílias, incluindo a dela própria.
Sua mãe aprovou a revolução. Mas seus outros parentes preferiram deixar tudo para trás e tomar um avião para os Estados Unidos — incluindo Orlando Fernández, que Alina acreditava na época ser seu pai.
Alina Fernández crescia sem compreender totalmente tudo isso. E, paralelamente, ela começou a receber visitas esporádicas do novo líder cubano.
Ela lembra que Castro brincava com ela no chão da sala de estar e trazia presentes, um deles bastante peculiar.
"Ele me deu um boneco vestido como ele", relembra Fernández. "Eu costumava puxar os pequenos fios de barba porque, para mim, era um boneco de brinquedo."
A verdade revelada
Quando tinha 10 anos de idade, Fernández ficou sabendo a verdade sobre seu pai biológico.
"Minha mãe me contou", relembra ela. "Ela ia me mudar de escola e não queria que alguém na rua dissesse para mim sem pensar."
Àquela altura, Castro já havia passado a ser uma espécie de figura paterna com suas visitas esporádicas. Ainda assim, a notícia trouxe o que ela chama de "sensação de traição e mentira".
Fernández explica que muitas pessoas do seu entorno, incluindo sua melhor amiga, sabiam dos rumores em torno do seu verdadeiro pai.
"Era um segredo que todos conheciam", explica ela.
Fernández não adotou o sobrenome Castro. Ela passou anos se recusando a reconhecer em público quem era o seu pai verdadeiro.
"Eu costumava responder 'não' quando me perguntavam se eu era filha dele e achava indigno aparecer um dia com o sobrenome trocado. Não via razão para isso."
À medida que crescia em Cuba, a frustração e o desencantamento de Fernández aumentavam, não apenas com seu pai, mas com o novo sistema imposto ao país.
Muitas pessoas, quando ficavam sabendo que Fidel Castro era seu pai, entregavam cartas a ela, para que fossem encaminhadas ao líder.
"Eram pessoas cujos familiares haviam sido executados e tentavam obter permissão para deixar o que, para elas, era o inferno na Terra", relembra ela.
Havia também o culto da personalidade em torno do líder.
"Um homem que dava discursos de sete horas pela televisão e éramos forçados a assistir e estudar em sala de aula no dia seguinte...", relembra Fernández. "Era um pesadelo. Você se sentia como se vivesse em um hospício."
Castro passou a visitá-las com menos frequência depois que ela e sua mãe passaram uma temporada na França. O próprio Castro as mandou para lá, segundo a filha, para criar distância da sua mãe.
Dali em diante, Alina Fernández conta que o líder cubano passou a irromper ocasionalmente na sua vida, com decisões súbitas e erráticas, como rejeitar seus pretendentes ou transferi-la para outra escola.
"Eram sempre ideias malucas", relembra ela. "Aprendi a viver sem depender dele."
Questionada sobre como era Fidel Castro em particular, Fernández o descreve como inteligente, perspicaz, educado e com uma "curiosidade infinita". Mas ela também conta que seu pai mentiu para ela diversas vezes.
"Ele se esquecia de ter me contado algo e me oferecia outra versão posteriormente", relembra ela.
As conversas entre pai e filha também não fluíam com facilidade.
"Ele era uma pessoa de monólogos", conta Fernández. "Se ele quisesse falar comigo, não era falar comigo, mas fazer com que eu o ouvisse falar."
A fuga de Havana
Fernández conta que, desde muito cedo, queria sair de Cuba.
Ela se sentia cada vez mais distante do seu pai, rejeitava o sistema que ele havia construído e sofria a escassez que flagelava o dia a dia do país.
Ela conta que tentou viajar para o exterior várias vezes, mas o regime não permitiu.
No início dos anos 1990, o colapso do bloco soviético levou ao chamado Período Especial em Cuba, uma era de extremas dificuldades, marcada pela fome e pelos apagões.
Naquela época, Fernández já era uma dissidente declarada e receava ser presa, mesmo sendo filha do comandante-chefe da nação.
"O ruído da porta de um carro qualquer, no meio da noite, me fazia pensar que estavam vindo me buscar", relembra ela.
Sua grande oportunidade veio em 19 de dezembro de 1993, com uma operação meticulosamente organizada por amigos próximos.
Uma mulher espanhola emprestou seu passaporte e deu uma passagem de avião. Outra pessoa alterou o documento para que ela pudesse utilizá-lo e Fernández pegou um táxi para o aeroporto de Havana.
"No momento em que entrei no táxi, comecei a falar como uma espanhola para praticar porque, quando chegasse ao aeroporto, se eles me fizessem falar, eu precisaria ter sotaque", relembra ela. "E enganei completamente o motorista."
Com uma peruca e forte maquiagem para não ser reconhecida, Fernández chegou ao aeroporto.
"Passei pela alfândega sem problemas", ela conta. "O voo estava atrasado, de forma que me sentei calmamente lendo um livro e pensei 'bem, o que tiver que acontecer irá acontecer'."
Depois da longa espera, o embarque ocorreu sem incidentes. Ela voou para Madri, na Espanha, e, mais tarde, conseguiu autorização para entrar nos Estados Unidos.
Fernández pediu permissão de saída de Cuba para sua única filha, que tinha 16 anos de idade. Com a mediação do líder dos direitos civis americano Jesse Jackson (1941-2026), as duas foram finalmente reunidas, a tempo de comemorar juntas a chegada do Ano Novo de 1994.
Fernández morou alternadamente entre os Estados Unidos e a Espanha, até se estabelecer permanentemente em Miami em 2001.
'Aos 40 anos, eu me tornei realmente a filha de Castro'
Desde o início do seu exílio, o relacionamento que ela tentou esconder por décadas passou a ser um instrumento para denunciar a situação na ilha.
"Fiz aqui aquilo que nunca quis fazer em Cuba (falar sobre Fidel Castro ou reconhecer que eu era parte da sua família). Aos 40 anos, eu realmente me tornei filha de Fidel Castro", ela conta.
Em 1997, ela publicou sua autobiografia Alina: Memoirs of Fidel Castro's Rebel Daughter ("Alina: Memórias da Filha de Fidel Castro, Ed. Ática, 1998). O livro foi um best-seller na Espanha e traduzido para vários idiomas.
Questionada sobre como ela recebeu a notícia da morte de Fidel Castro, em 25 de novembro de 2016, ela responde: "nem com grande tragédia, nem com grande alegria. Não foi um choque para mim."
Atualmente, sob a presidência de Miguel Díaz-Canel (herdeiro político dos Castros), Cuba passa por uma situação descrita por muitos como mais extrema que o Período Especial, marcada por apagões constantes, deterioração generalizada, escassez e fome, em meio às seis décadas de embargo dos Estados Unidos.
Para Fernández, a crise atual é fruto do sistema político e econômico imposto pelo seu pai.
"Quando o Estado controla todas as empresas, todos ficam sem liderança."
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