Ucraniano é julgado na Alemanha por explosão do gasoduto Nord Stream
O julgamento em Hamburgo do ucraniano Serhii Kuznietsov, acusado de participar da explosão dos gasodutos Nord Stream em 2022 a mando de autoridades de Kiev, gerou um dilema político na Alemanha. Enquanto a procuradoria apura a ação militar contra alvos civis, partidos oposicionistas de direita e esquerda usam a suspeita para cobrar indenizações e defender o corte do envio de ajuda à Ucrânia, inflamando o debate público sobre o suporte militar e financeiro prestado por Berlim ao país invadido.
Caso levanta questões sobre possível envolvimento de autoridades de Kiev e inflama debate sobre apoio da Alemanha à Ucrânia.Em 26 de setembro de 2022, enormes quantidades de gás metano emergiram à superfície do Mar Báltico, perto da ilha de Bornholm, após desconhecidos explodirem três dos quatro ramais dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, que ligavam a Rússia à Alemanha.
O atentado, ocorrido sete meses após o início da guerra na Ucrânia, significou o fim de um bilionário megaprojeto energético que garantia à Alemanha gás barato vindo da Rússia.
Desde o começo da guerra, porém, o fornecimento pelo Nord Stream 1 já havia sido várias vezes drasticamente reduzido ou interrompido pela Rússia, e o Nord Stream 2 sequer havia entrado em operação.
A partir desta quarta-feira (14/10), o cidadão ucraniano Serhii Kuznietsov, de 50 anos, terá de responder pelos atentados perante um tribunal de Hamburgo, onde começa o seu julgamento. Ele foi preso em agosto de 2025 na Itália, com base num mandado de prisão europeu emitido por iniciativa da Alemanha, e posteriormente extraditado.
Ex-membro das Forças Armadas ucranianas, Kuznietsov é acusado, como coautor, de crime de guerra mediante o uso de métodos proibidos de combate contra alvos civis, entre outros crimes. A procuradoria alemã acusa o réu de ter agido em conjunto com outros militares ucranianos, sob ordens de autoridades estatais da Ucrânia não identificadas. Ele nega as acusações, assim como um segundo suspeito que foi detido na Croácia.
Processo politicamente delicado
O fato de o acusado ser ucraniano torna o caso politicamente delicado. Afinal, a Alemanha apoia o país atacado pela Rússia militarmente, financeiramente e humanitariamente, além de ter acolhido cerca de 1,3 milhão de refugiados.
Críticos desse apoio à Ucrânia, especialmente dos partidos Alternativa para a Alemanha (AfD), de ultradireita, e Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), de orientação esquerdista-populista, defendem uma melhora das relações com a Rússia apesar da guerra, a retomada das importações de energia da Rússia, inclusive por meio de um Nord Stream reparado, e o fim da ajuda à Ucrânia.
Alguns desses críticos dão como certa a condenação de Kuznietsov, embora o julgamento esteja apenas começando, e suspeitam que a liderança política ou militar ucraniana esteja por trás da sabotagem.
"É completamente absurdo que a Alemanha gaste bilhões em ajuda à Ucrânia, mas jamais tenha exigido esclarecimentos do [presidente ucraniano Volodimir] Zelenski. Também deveriam ser consideradas possíveis questões de indenização", declarou já em 2025, após a prisão de Kuznietsov, a principal liderança do BSW, Sahra Wagenknecht, à agência de notícias Reuters.
Posição semelhante foi expressa pela copresidente da AfD Alice Weidel. No início de 2026, ela afirmou que o governo alemão deveria exigir compensações financeiras da Ucrânia. Caso a AfD chegasse ao poder, o partido exigiria que Kiev assumisse os custos pela explosão dos gasodutos e pelos reparos. No entanto, ela não apresentou provas de que a Ucrânia estivesse efetivamente por trás do atentado.
Quem se beneficiou da explosão?
O analista militar e capitão-de-fragata Göran Swistek já havia observado, numa entrevista à rádio Deutschlandfunk em 2023, que o grau de complexidade técnica, financeira e organizacional da operação indicava que "provavelmente uma estrutura estatal estava por trás dela". Segundo ele, um grupo de amadores não conseguiria executar o ataque.
Ao mesmo tempo, ele considerava pouco plausível que esse Estado fosse a Ucrânia, já que Kiev não teria interesse em colocar em risco o apoio alemão. Swistek considerava possível, à época, que a Rússia tivesse criado uma pista falsa.
O projeto Nord Stream sempre teve muitos opositores, incluindo Polônia, Estados Unidos, os países bálticos e, especialmente desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022, a própria Ucrânia. Por isso, a pergunta central nas investigações sempre foi quem se beneficiou da explosão.
Segundo o analista Henning Hoff, do think tank Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), é importante analisar o contexto de setembro de 2022. "Com o fim das entregas, ou ao jogar com essa possibilidade, a Rússia exercia enorme pressão sobre a Alemanha, os mercados de gás estavam em turbulência. Com a explosão, as tentativas de chantagem russa perderam sua eficácia, e os preços do gás natural caíram. Na minha opinião, pode-se dizer que a sabotagem atendeu aos interesses da Alemanha", analisa.
O dilema do governo alemão
Mas o que aconteceria se Serhii Kuznietsov fosse considerado culpado e se fosse comprovada uma ligação com a liderança militar ou política da Ucrânia? O governo alemão poderia manter sua atual política em relação a Kiev?
Nesse caso, Berlim enfrentaria um dilema. Por um lado, seria importante preservar a independência do Judiciário e investigar atos de sabotagem contra infraestrutura alemã. Por outro, o governo iria querer evitar que a Rússia explore o caso politicamente. Mas a pressão interna aumentaria enormemente.
Para o especialista em política de segurança do partido governista União Democrata Cristã (CDU), Roderich Kiesewetter, mesmo em caso de envolvimento de Kiev não haveria motivo para mudar a atual linha de apoio à Ucrânia. "Independentemente do resultado, não cabe qualquer consequência, pois o apoio à Ucrânia ocorre em nosso próprio interesse nacional de segurança e por responsabilidade em relação a uma Europa livre."
Debate sobre ajuda à Ucrânia
Independentemente do processo judicial, o debate sobre o apoio à Ucrânia vem ganhando força na Alemanha. O respaldo da população à assistência ao país continua diminuindo, especialmente no que se refere ao envio de armas.
Nas três eleições estaduais realizadas no leste da Alemanha em setembro, a AfD ampliou significativamente sua votação e poderá até mesmo liderar o governo no estado da Saxônia-Anhalt. Em âmbito nacional, o partido está à frente nas pesquisas, muito adiante da CDU, o partido do chanceler federal Friedrich Merz.
AfD e BSW associam a ajuda à Ucrânia aos planejados cortes governamentais na área social. Durante uma recente campanha eleitoral, Wagenknecht afirmou que o governo alemão "está afundando bilhões e mais bilhões no buraco sem fundo da Ucrânia, enquanto, na Alemanha, nossas crianças já não aprendem adequadamente a ler, escrever e fazer contas".
O copresidente da AfD Tino Chrupalla questionou se os cidadãos estariam dispostos a gastar tanto dinheiro com um país que não pertence nem à União Europeia (UE) nem à Otan.
Kiesewetter considera essa comparação equivocada. "Quem acredita que teremos mais dinheiro para políticas sociais se interrompermos o apoio à Ucrânia e deixarmos a Rússia agir livremente está profundamente enganado."
Segundo ele, a Ucrânia consegue conter a Rússia graças também à ajuda alemã. "Se, porém, a Rússia prevalecer na Ucrânia, ampliará a guerra e atacará também países da Otan. Aí os custos de defesa, em caso de guerra ou de acionamento da aliança, seriam muito maiores."
Reparar o Nord Stream é improvável
Diante dos altos preços da energia, não são apenas AfD e BSW que defendem o reparo do Nord Stream e a retomada das importações de gás russo. Alguns políticos da CDU também o fazem, entre eles o governador da Saxônia, Michael Kretschmer.
Kretschmer considera um gasoduto restaurado parte de uma possível moeda de troca nas negociações com a Rússia. Com isso, ele entra em conflito com a linha oficial da CDU nacional e com a política de sanções da União Europeia. Kiesewetter considera essa posição perigosa.
"A Rússia sempre utilizou a energia como instrumento de chantagem geoeconômica. Seria extremamente estúpido se não aprendêssemos nada com a história e voltássemos a nos agarrar a uma solução com a Rússia. Isso aumentaria a desconfiança de nossos parceiros na Europa. Só posso aconselhar todos, inclusive membros da CDU, a se distanciarem dessas exigências, pois elas contrariam os interesses da Alemanha."
Hoff, da DGAP, também rejeita essa ideia. "Isso é uma ilusão. Não há retorno a uma situação anterior à guerra iniciada pela Rússia. O gás supostamente barato da Rússia, que acabou custando tão caro à Alemanha, não voltará a fluir, até porque Putin não tem interesse nisso - essa ideia serve apenas como instrumento de propaganda para polarizar a política alemã e enfraquecer o apoio à Ucrânia."
Ainda assim, o desfecho do processo em Hamburgo deverá esquentar ainda mais o debate público sobre o apoio alemão à Ucrânia.
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