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Trump prorroga cessar-fogo com o Irã por prazo indeterminado após ameaça militar

A escalada de tensões entre Estados Unidos e Irã teve um novo desdobramento nesta terça-feira (21), após o presidente Donald Trump anunciar a prorrogação por prazo indeterminado do cessar-fogo. A decisão foi divulgada nas redes sociais poucas horas antes de expirar o ultimato estabelecido pelo próprio presidente americano.

22 abr 2026 - 04h59
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Cleide Klock, correspondente da RFI nos EUA

A mudança de tom contrasta com declarações anteriores e expõe a volatilidade do cenário. Em meio a negociações bloqueadas, ameaças militares e reflexos imediatos no preço do petróleo e na segurança global, Washington mantém medidas que Teerã classifica como provocativas.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, considera a medida como "um passo importante para a desescalada" e para a criação de espaço para a diplomacia entre Estados Unidos e Irã. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, agradeceu aTrump por atender ao pedido de extensão, destacando o papel de mediação de seu país.

Já aliados do governo iraniano minimizaram o gesto e lembram que a decisão não tem efeito prático caso não haja mudanças concretas por parte dos EUA. Mahdi Mohammadi, assessor ligado ao Parlamento iraniano, chegou a declarar que a extensão "não tem significado" e escreveu também nas redes sociais que "a prorrogação do cessar-fogo é certamente uma manobra para ganhar tempo para um ataque surpresa".

'Ato de guerra'

Os EUA mantêm o bloqueio naval e operações contra navios iranianos, inclusive apreensões no oceano Índico. Esse é um dos principais pontos de atrito: o Irã considera essas ações uma violação prática do cessar-fogo e as classifica como "ato de guerra".

A imprensa iraniana, por meio da agência Tasnim News, ligada à Guarda Revolucionária, afirmou que a manutenção do bloqueio naval pelos Estados Unidos é vista como continuidade das hostilidades e que o Irã não retirará as restrições ao Estreito de Ormuz enquanto essa medida permanecer em vigor.

O que mantém, na prática, o nível de tensão elevado. Trump ainda não estabeleceu um novo prazo e afirmou apenas que a trégua foi estendida para dar tempo de o Irã apresentar uma proposta de negociação.

Pôr do sol no Estreito de Ormuz, em 18 de abril de 2026
Pôr do sol no Estreito de Ormuz, em 18 de abril de 2026
Foto: RFI

Do ataque à trégua em poucas horas

Horas antes de estender o cessar-fogo, havia dito, em entrevista à CNBC: "Acho que vou bombardear, porque acho que essa é uma atitude melhor. Mas estamos prontos para agir. Quero dizer, os militares estão loucos para agir". A declaração causou ainda mais surpresa quando o presidente recuou nas redes sociais e publicou:

"Com base no fato de que o governo do Irã está seriamente fragmentado e a pedido do marechal Asim Munir e do primeiro-ministro Shehbaz Sharif, do Paquistão, fomos solicitados a suspender nosso ataque ao Irã até que seus líderes possam apresentar uma proposta unificada."

A decisão veio após o cancelamento da viagem do vice-presidente JD Vance ao Paquistão, prevista para esta quarta-feira (22), que incluiria uma nova rodada de negociações de paz. Segundo a imprensa americana, Teerã não respondeu às propostas dos Estados Unidos.

Na prática, a extensão do cessar-fogo reduz o risco imediato de confronto, mas não resolve os pontos centrais do conflito. Muitos interpretam a medida mais como estratégia do que como uma trégua duradoura. Analistas e o próprio Irã veem o movimento com ceticismo, interpretando a decisão de Donald Trump como uma manobra tática: ganhar tempo diante do impasse diplomático, manter a pressão com medidas como o bloqueio naval e administrar o desgaste político interno.

Rejeição interna

A decisão de Trump ocorre em um contexto de fragilidade no cenário interno. O presidente registra, nas pesquisas, taxa de rejeição na casa dos 60% a 62%, índice que se mantém como tendência consistente desde meados de março, quando o conflito com o Irã se intensificou e passou a impactar diretamente a economia.

Os norte-americanos já sentem os efeitos no bolso. A alta do preço da gasolina nos Estados Unidos desencadeou um efeito dominó na economia, elevando custos de transporte, alimentos e serviços. Com o petróleo em alta e o mercado global mais instável, consumidores enfrentam aumentos generalizados, o que amplia a insatisfação e reforça a percepção de desgaste político em meio à crise com o Irã.

Diante desse cenário, a extensão do cessar-fogo pode ser lida também como um movimento calculado: reduzir a pressão internacional enquanto o governo tenta amenizar o impacto político interno. Ainda assim, especialistas apontam que, sem resultados concretos nas negociações, dificilmente haverá mudança significativa na percepção da opinião pública.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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