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'Tive muita sorte de sair vivo', diz vítima de desabamento em mina de ouro na República Centro-Africana

O governo da República Centro-Africana (RCA) fechou provisoriamente nesta quinta-feira (20) a mina de ouro artesanal de Zamboyé, no oeste do país, depois do desabamento que deixou pelo menos 49 mortos na terça-feira (18). O balanço oficial, divulgado pelo ministro das Minas e Geologia, Rufin Benam-Beltoungou, é contestado por fontes locais, que afirmam que muitas pessoas continuam desaparecidas e podem estar soterradas. Os trabalhos de buscas estão paralisados.

21 ago 2026 - 07h16
(atualizado às 09h22)
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Resumo
Pelo menos 49 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas após o desabamento de uma mina de ouro a céu aberto na República Centro-Africana, próximo à fronteira com Camarões. As operações de resgate foram suspensas devido a novos desmoronamentos e inundações causadas pelas chuvas. O governo determinou o fechamento do local e abriu uma investigação para apurar responsabilidades, enquanto a sociedade civil denuncia a falta de fiscalização e a precariedade recorrente no garimpo artesanal do país.

Rolf Steve Domia-Leu, correspondente da RFI em Bangui, e agências

Mina de ouro de Zambyé, na República Centro-Africana, onde um desabamento pode ter matado dezenas de pessoas, vista a partir de Camarões, em 20 de agosto de 2026.
Mina de ouro de Zambyé, na República Centro-Africana, onde um desabamento pode ter matado dezenas de pessoas, vista a partir de Camarões, em 20 de agosto de 2026.
Foto: © Emmanuel Jules Ntap / RFI / RFI

O balanço oficial de 49 mortos inclui 34 centro-africanos, 13 camaroneses e dois chadianos.

O governo determinou o fechamento do garimpo até nova ordem e anunciou uma investigação para determinar as responsabilidades pelo desastre.

As operações de resgate, entretanto, estão suspensas. O desabamento continuou depois do acidente e as chuvas inundaram o fundo da mina, impossibilitando o acesso às áreas onde podem estar trabalhadores soterrados.

Em Baboua, cidade localizada a cerca de 50 quilômetros do local do desastre, os hospitais continuam recebendo sobreviventes.

Segundo Chancelin Abdon Lakei, médico-chefe do hospital distrital de Baboua, nove feridos provenientes da mina foram levados à unidade, um dos quais morreu pouco depois de chegar.

Os pacientes chegaram em estado grave, cobertos de lama e apresentando fraturas e outros traumatismos.

Diante da dimensão do desastre, uma equipe médica móvel foi enviada ao próprio garimpo. Segundo o médico, a equipe registrou outros 51 casos de ferimentos tratados no local.

Alguns dos pacientes permanecem em observação. Outros, com traumatismos, estão em estado crítico.

Entre os sobreviventes está Miguel, um trabalhador de cerca de 20 anos que estava no local quando o terreno desabou.

"O bloco de terra desabou sobre mim. Felizmente, os socorristas já haviam chegado e conseguiram me retirar rapidamente. Eu tinha perdido a consciência. Entre as vítimas também há mulheres e crianças."

Outro mineiro, que conseguiu escapar, descreveu os momentos de pânico após o desabamento. Segundo seu relato, tudo aconteceu em poucos instantes. Ele conta que estava trabalhando quando um grande bloco de terra se desprendeu e caiu sobre os trabalhadores. Na tentativa de fugir, caiu e quebrou o braço, mas continuou caminhando para escapar.

Ao redor, segundo ele, havia pessoas feridas, algumas cobertas de lama, e corpos sem vida. "Foi uma cena terrível. Muitas pessoas gritavam e pediam ajuda. Tive muita sorte de sair vivo", relatou.

O sobrevivente acredita que ainda há pessoas presas sob os escombros e afirmou que a segurança do local deve agora ficar sob responsabilidade do governo.

Mina permanece fechada

O complexo de mineração conhecido na República Centro-Africana como "Moscou-RCA" fica próximo ao rio Kadeï, que marca a fronteira com Camarões.

O local é um enorme garimpo a céu aberto onde trabalham centenas de garimpeiros artesanais. Imagens do acidente vistas pela AFP mostram uma parte do terreno se desprendendo e soterrando trabalhadores.

Após visitar o local, o ministro Rufin Benam-Beltoungou anunciou que a Justiça será acionada para identificar os responsáveis.

Segundo o ministro, o desastre está relacionado em grande parte ao desrespeito às regras estabelecidas pelas autoridades para a exploração mineral.

O governo afirma que pretende atuar em duas frentes: ampliar as campanhas de informação e conscientização sobre os riscos do garimpo e, ao mesmo tempo, reforçar a repressão contra aqueles que continuarem a trabalhar em áreas proibidas.

Um problema que se repete

Para Crescent Beninga, porta-voz do Grupo de Trabalho da Sociedade Civil, a tragédia não é um caso isolado.

"Não é a primeira vez que assistimos ao desmoronamento do solo em um local de mineração", afirmou.

Em meados de junho, um desabamento semelhante na mina de ouro de Bé-Mbari, também no departamento de Nana-Mambéré e próximo à fronteira com Camarões, havia deixado várias dezenas de mortos.

Beninga questiona a falta de medidas tomadas depois daquela tragédia. "A pergunta que fazemos é: o que fizemos para que isso não pudesse se repetir? A resposta é que nada foi feito", declarou.

Segundo ele, as autoridades deveriam ter proibido o acesso aos locais de mineração mais perigosos durante a temporada de chuvas. "Quando você olha para as imagens que circulam nas redes sociais, é evidente que deveríamos ter proibido o acesso a esses locais durante a estação das chuvas", afirmou.

Garimpo informal e pouca fiscalização

Os desabamentos são frequentes nas minas da República Centro-Africana, um dos países mais pobres do mundo, mas com um subsolo rico em recursos minerais.

Grande parte da atividade de mineração artesanal ocorre em condições precárias e, em muitos casos, fora do controle efetivo do Estado.

A localização de Zamboyé, na fronteira com Camarões, faz do local um polo de atração para trabalhadores de diferentes países da região. O garimpo "Moscou-RCA" reúne centenas de pessoas em busca de ouro, apesar dos riscos associados à instabilidade do terreno e às condições de exploração.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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