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Sobreviventes do Ebola confortam crianças doentes nas enfermarias de isolamento do Congo

3 nov 2026 - 16h59
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Resumo
Na República Democrática do Congo, sobreviventes do Ebola agora imunes ao vírus, como Jerkis Mahamba, foram contratados pela organização Médicos Sem Fronteiras para cuidar e confortar crianças isoladas que não podem ser tocadas pelos pais. Além de oferecer apoio emocional nas enfermarias durante o segundo maior surto da doença no país, esses sobreviventes atuam em comunidades para combater a desinformação, o estigma e o medo em relação ao tratamento médico.

Sempre que Jerkis Mahamba ouve uma criança chorar na ala ‌de Ebola em Butembo, no leste da República Democrática do Congo, ele veste o equipamento de proteção e corre para o lado dela. Ele sabe muito bem o que elas estão passando.

O próprio Mahamba contraiu a doença altamente contagiosa em setembro e se recuperou após 18 dias de tratamento no mesmo centro. Sua provação lhe conferiu imunidade contra a cepa do vírus que circula pelo Congo, o que significa que ele pode ⁠trabalhar com pacientes jovens quando os próprios pais não têm permissão para tocá-los.

Às vezes, as crianças precisam de ‌um abraço. Às vezes, querem ser embaladas para voltar a dormir. Às vezes, querem conversar.

O Congo registrou mais de 10.000 casos de Ebola desde que o surto foi declarado, em maio, além de mais de ‌5.100 mortes, tornando-se o segundo maior surto já registrado.

"EU TAMBÉM PASSEI ‌POR ISSO"

"Eu me apresento e digo a elas: 'Eu também passei por isso'. Peço que não percam ⁠a esperança", disse o jovem de 29 anos à Reuters no hospital do bairro de Kitatumba, na cidade.

Ele se lembra de como estava: vomitando, recusando-se a comer, lutando para tomar os remédios.

Ele ainda precisa usar equipamento de proteção e desinfetar suas roupas para não levar o vírus para fora da enfermaria. Mas consegue se aproximar, munido de sua imunidade e de sua empatia.

"Eu os pego no colo e, aos poucos, tento colocá-los ‌de volta na cama", disse Mahamba.

"Quando estão deitados, procuro brincadeiras ou atividades para mantê-los ocupados e ajudá-los a se ‌acostumar a ficar na cama. Quando ⁠finalmente adormecem, posso sair do ⁠quarto."

Muitas vezes, os parentes observam tudo por uma janela de vidro atrás dele. "Nosso amor pelos nossos filhos é muito forte", ⁠disse o tio de uma das crianças, Kambale Syavula Volonté, ‌frustrado por não poder se aproximar ‌mais.

Antes de contrair o vírus de um parente, Mahamba ganhava a vida vendendo material escolar nas ruas de Butembo, um dos epicentros da epidemia -- a segunda maior já registrada --, perto da fronteira com Uganda.

Após sua recuperação, a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) o contratou para trabalhar no hospital e se ⁠juntar a um grupo crescente de sobreviventes na linha de frente do surto.

Muitos trabalham nas enfermarias como amigos, companheiros de brincadeira e apoiadores dos pacientes. Outros assumem tarefas importantes, como limpar e desinfetar quartos e equipamentos.

Alguns também atuam fora do hospital, visitando aldeias e comunidades remotas, tentando dissipar a desinformação e os estigmas que se acumulam em torno do surto, disse o Dr. ‌Toussaint Selemani, chefe do centro administrado pela MSF.

Rumores infundados de que a epidemia faz parte de uma conspiração estrangeira ou de que os profissionais de saúde estariam espalhando a doença levaram a atos de violência ⁠reais.

No final do mês passado, jovens armados com facões atacaram dois agentes comunitários de saúde que estavam realizando campanhas de conscientização sobre o surto, matando um e ferindo o outro.

"No âmbito comunitário, um sobrevivente pode se tornar um embaixador poderoso na luta contra a doença", disse Selemani. "Seu depoimento ajuda a combater o medo e o estigma e pode incentivar as pessoas com sintomas a procurarem atendimento imediatamente em um centro de tratamento."

Mahamba também trabalha fora do centro. Ele se lembra do medo e da desconfiança que sentiu à medida que a doença se espalhava e amigos ao seu redor adoeciam.

Agora, ele mostra às pessoas fotos de si mesmo quando estava doente e as incentiva a se protegerem.

Mas a maior parte do seu tempo é dedicada ao hospital, trabalhando com as famílias e prestando atenção aos choros das crianças nas enfermarias de isolamento.

"Os pacientes em isolamento podem estar estressados e com medo de morrer", disse Selemani. "Quando encontram alguém que passou pela mesma provação e sobreviveu, isso pode restaurar a esperança."

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