Sobe número de mortos após terremoto no Japão; buscas continuam em shopping e fábrica
Ao menos 18 pessoas morreram e dezenas continuam desaparecidas após o terremoto de magnitude 7,1 que atingiu ontem o sudoeste do Japão, segundo a primeira-ministra Sanae Takaichi. Equipes de resgate buscam sobreviventes em um shopping e em uma fábrica de papel na província de Kumamoto. Nesta quarta-feira (29), as autoridades confirmaram a morte de cinco pessoas no complexo industrial, enquanto outras permanecem presas sob os escombros.
Frédéric Charles, correspondente da RFI em Tóquio
O desastre provocou incêndios, cortes no fornecimento de energia e água, interrompeu os transportes e reacendeu o temor de novas réplicas nos próximos dias. O novo balanço de vítimas foi anunciado pela primeira-ministra Sanae Takaichi, que descreveu os danos como extensos. Segundo ela, o terremoto provocou desabamentos de edifícios, incêndios e graves danos às estradas e vias da região da região afetada.
O tremor ocorreu na tarde de terça-feira (28), às 16h27 no horário local, no centro da ilha de Kyushu. A Agência Meteorológica do Japão registrou magnitude 7,1, enquanto o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) calculou 6,8. A intensidade atingiu o nível máximo da escala sísmica japonesa, que mede os efeitos do tremor na superfície.
Os trabalhos de resgate concentram-se em Kashima, na região metropolitana de Kumamoto, onde parte de um grande shopping center da rede Aeon desabou após o tremor. Uma explosão atingiu o edifício após a evacuação de clientes e funcionários. Segundo as autoridades, a principal hipótese é que o incidente tenha sido provocado por vazamentos de gás decorrentes dos danos estruturais. Imagens divulgadas pela imprensa japonesa mostram tetos e paredes destruídos, com a estrutura metálica do prédio exposta. Uma das lajes cedeu, dificultando o acesso das equipes de emergência.
Resgate enfrenta obstáculos
Ao menos oito pessoas foram retiradas do local com vida, cinco delas feridas. Cerca de 130 policiais, 450 bombeiros e 170 militares participam da operação.
Nas horas seguintes ao desastre, estimativas iniciais apontavam que entre 20 e 30 pessoas poderiam estar presas no interior do shopping. Nesta quarta-feira, a polícia afirmou que o número provavelmente é menor, mas reconheceu que funcionários continuam bloqueados em áreas inacessíveis do edifício.
Os trabalhos avançam lentamente porque parte da estrutura permanece instável. Segundo as autoridades, ainda não há uma rota considerada totalmente segura para a entrada dos socorristas em alguns setores do complexo.
Um funcionário que permaneceu preso conseguiu entrar em contato por telefone com as equipes de emergência e relatou que outras pessoas aguardavam resgate no interior da construção.
As equipes de emergência também atuam na fábrica da Nippon Paper, em Yatsushiro, onde uma chaminé desabou durante o terremoto. As autoridades locais informaram que ao menos cinco pessoas morreram no local. As buscas continuam devido à possibilidade de haver outros funcionários desaparecidos sob os escombros.
Infraestrutura e patrimônio histórico afetados
Ao longo da noite, mais de 9.000 moradores buscaram abrigo em centros de evacuação abertos pelo governo japonês.
O balanço oficial também aponta sete feridos graves e 29 pessoas com ferimentos leves em diferentes localidades da região atingida. As imagens exibidas pela emissora pública NHK revelam a extensão dos estragos. Os registros mostram incêndios em vários pontos, pontes danificadas, residências ameaçando desabar e o descarrilamento de um trem de carga.
O sistema de transporte foi afetado em larga escala. Diversas estradas foram interditadas e parte da circulação dos trens-bala Shinkansen precisou ser suspensa.
Outro símbolo da região também sofreu danos. Imagens mostraram o desabamento parcial de um muro do Castelo de Kumamoto, monumento histórico cuja origem remonta ao início do século 17.
Em Yatsushiro, o administrador do tradicional hotel termal Kinparo, Kanzo Matsumoto, de 73 anos, afirmou que jamais havia vivido um terremoto tão intenso. Segundo ele, paredes e janelas foram danificadas e um dos portões históricos do estabelecimento desabou.
Falta de energia e temor de novas réplicas
As consequências do terremoto continuam atingindo a rotina dos moradores. Segundo dados oficiais divulgados nesta quarta-feira, cerca de 36.900 residências e instalações permaneciam sem energia elétrica em Kumamoto.
Os problemas no abastecimento de água são ainda mais amplos. Aproximadamente 84 mil domicílios registravam interrupções ou restrições no fornecimento.
Apesar da violência do tremor, autoridades japonesas informaram que não foi identificada qualquer anormalidade imediata nas usinas nucleares da região.
A Agência Meteorológica do Japão advertiu que novas réplicas de forte intensidade podem ocorrer nos próximos dias e pediu que a população permaneça em alerta, especialmente em áreas onde construções já foram comprometidas.
O terremoto também despertou atenção internacional por atingir uma das regiões mais importantes da indústria global de semicondutores.
Conhecida como o "Silicon Valley" japonês, Kumamoto é frequentemente comparada a um polo tecnológico por concentrar fabricantes ligados à cadeia mundial de chips. A província abriga uma fábrica da taiwanesa TSMC, a maior produtora de semicondutores do mundo. Até o momento, não foram relatados danos significativos às instalações da empresa, que também constrói uma segunda unidade na região em um projeto ligado à expansão da produção de chips avançados para inteligência artificial.
Região convive com histórico de grandes terremotos
O desastre reacendeu a memória de uma das maiores tragédias recentes da província. Em 2016, Kumamoto foi atingida por dois terremotos devastadores em um intervalo de dois dias, de magnitudes 6,5 e 7,3.
A sequência de tremores matou 273 pessoas e deixou mais de 2.800 feridos, tornando-se uma das catástrofes naturais mais graves da história contemporânea da região.
O Japão figura entre os países mais expostos à atividade sísmica no planeta. O arquipélago está localizado na convergência de quatro grandes placas tectônicas, condição geológica que provoca milhares de tremores por ano.
A maioria desses eventos tem baixa intensidade, mas alguns atingem níveis destrutivos. O exemplo mais marcante permanece o terremoto submarino de magnitude 9 registrado em março de 2011.
Aquele tremor desencadeou um gigantesco tsunami que matou ou deixou desaparecidas cerca de 18.500 pessoas e provocou o acidente nuclear de Fukushima, o mais grave desde Chernobyl.
RFI com AFP
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