Script = https://s1.trrsf.com/update-1765905308/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Sino toca em Nagasaki para lembrar os 80 anos da bomba que matou 74 mil pessoas

Neste sábado (9), Nagasaki marcou os 80 anos do bombardeio atômico que devastou a cidade em 9 de agosto de 1945, às 11h02. Em meio às cerimônias, um momento de forte simbolismo emocionou os presentes: o soar do sino restaurado da catedral da Imaculada Conceição, pela primeira vez desde a tragédia.

9 ago 2025 - 08h45
(atualizado às 09h54)
Compartilhar
Exibir comentários

Neste sábado (9), Nagasaki marcou os 80 anos do bombardeio atômico que devastou a cidade em 9 de agosto de 1945, às 11h02. Em meio às cerimônias, um momento de forte simbolismo emocionou os presentes: o soar do sino restaurado da catedral da Imaculada Conceição, pela primeira vez desde a tragédia.

Uma vítima da bomba de Nagasaki, Hiroshi Nishioka, na cadeira de rodas, se prepara para falar em nome dos sobreviventes da tragédia, na cerimônia anual no Parque da Paz, em Nagasaki, em 9 de agosto de 2025.
Uma vítima da bomba de Nagasaki, Hiroshi Nishioka, na cadeira de rodas, se prepara para falar em nome dos sobreviventes da tragédia, na cerimônia anual no Parque da Paz, em Nagasaki, em 9 de agosto de 2025.
Foto: AFP - STR / RFI

Com informações de Olivier Favier, daRFI em Paris, com agências

Durante a cerimônia deste sábado, o prefeito Shiro Suzuki pediu à comunidade internacional que "interrompa imediatamente os conflitos armados", alertando para o risco crescente de uma guerra nuclear. Representantes de mais de 100 países estiveram presentes, incluindo Rússia e Israel, ausentes em anos anteriores.

Destruída pela explosão da bomba "Fatman" e reconstruída em 1959, a catedral teve seu sino restaurado graças a um projeto liderado por católicos norte-americanos. Para o padre Kenichi Yamamura, o gesto representa "a grandeza do ser humano" e a possibilidade de reconciliação entre povos antes inimigos. Akio Watanabe, morador da cidade, descreveu o som dos dois sinos em uníssono como um "símbolo de reconciliação" entre americanos, católicos e os habitantes de Nagasaki.

O projeto foi idealizado por James Nolan, professor de sociologia. Nolan arrecadou US$ 25 mil nos Estados Unidos e acredita que a restauração do sino carrega a esperança de um mundo livre de armas nucleares.

O ataque

No dia 6 de agosto de 1945, as autoridades japonesas perceberam inicialmente que todas as comunicações com Hiroshima haviam sido cortadas, mesmo sem ter sido detectado nenhum grande ataque aéreo. Apenas alguns aviões haviam sido vistos pelos radares. Um oficial do quartel-general foi enviado de avião ao local.

Em Tóquio, ainda se pensava em um bombardeio localizado que teria cortado as linhas telefônicas. Mas o que o jovem emissário descobriu era de uma magnitude completamente diferente. A notícia do bombardeio só chegou tarde na noite de 6 para 7 de agosto.

Apesar da dimensão do desastre, o imperador Hirohito e seu círculo tentaram ainda minimizar o impacto dessa nova arma. Em 13 de agosto, o ministro da guerra afirmou, em essência, que as bombas atômicas não eram "piores" do que as de napalm, que vinham devastando o Japão há semanas, e que os Estados Unidos também haviam testado inutilmente na França, em Royan, em janeiro de 1945.

A atenção do comando japonês estava voltada para a URSS, por meio da qual esperavam negociar sua rendição com os Estados Unidos. Desde o ultimato de Potsdam em 26 de julho, os japoneses insistiam, sobretudo, em manter seu imperador. No entanto, o presidente Truman exigia uma capitulação incondicional, do mesmo tipo que havia sido imposta às autoridades nazistas, em 7 e 8 de maio de 1945.

Um apocalipse improvisado

No dia 7 de agosto, contudo, Stálin decidiu atacar a Manchúria. A invasão foi lançada na manhã de 9 de agosto. O gabinete de guerra japonês se reuniu em peso para tratar da questão, ao mesmo tempo em que três bombardeiros B29 se dirigiam ao Japão, operando da mesma forma que no ataque a Hiroshima. Eles foram rapidamente detectados e acompanhados por cinco horas pela inteligência japonesa, mas as autoridades militares não reagiram.

A esquadrilha americana dirigiu-se primeiro a Kokura, onde a visibilidade estava ruim, principalmente devido aos bombardeios realizados naquela manhã por outros aviões americanos. Sem outra opção, Charles W. Sweeney, comandante do "Bock's Car", o avião que transportava a bomba, decidiu seguir para Nagasaki, mesmo tendo decolado com combustível limitado devido a um problema no tanque. A bomba de plutônio que levava, "Fatman", era 40% mais potente do que a "Little Boy", de urânio, lançada sobre Hiroshima.

O uso do plutônio foi decidido com base nos estoques disponíveis. O sistema de detonação era muito mais complexo, e a bomba já estava armada quando o avião decolou. Ao contrário do bombardeio de 6 de agosto, essa operação foi preparada às pressas. A urgência tinha duas razões: fazer os japoneses acreditarem que os EUA tinham um grande estoque dessas novas bombas e que elas seriam usadas em ritmo contínuo; e, de forma mais prática, aproveitar o último dia de tempo bom antes da chegada de tempestades. Na realidade, "Fatman" era a última das três bombas operacionais no verão de 1945. Uma quarta estava em produção, e o objetivo era fabricar três por mês.

Minorias duplamente atingidas

Com pouco combustível, Charles W. Sweeney decidiu retornar após várias tentativas de localização sob forte cobertura de nuvens. No último momento, uma abertura permitiu ao capitão Kermit King Beahan, membro da tripulação do "Bock's Car", realizar um lançamento aproximado. De fato, a bomba caiu mais de dois quilômetros longe do alvo original. "Fatman" explodiu a 580 metros do solo, quase na vertical da catedral de Urakami, ao noroeste da cidade, quando o objetivo era atingir os estaleiros da Mitsubishi. Apesar disso, 40% da cidade foi destruída. Grande parte da comunidade cristã, a mais antiga do Japão, morreu nos primeiros segundos.

Com 240.000 habitantes, Nagasaki era um pouco menos populosa que Hiroshima. Estima-se que 30.000 a 40.000 pessoas morreram no impacto. Quase o mesmo número morreu nos meses seguintes, totalizando cerca de 100.000 mortos em cinco anos. Além dos cristãos, os "burakumin", uma minoria discriminada desde a Idade Média, estavam entre os principais grupos dizimados pela bomba. Seu status de hibakusha — ou seja, vítima da bomba — os marginalizava ainda mais social e profissionalmente devido à sua saúde debilitada, somando-se à rejeição que já sofriam anteriormente.

Os "burakumin" são descendentes de pessoas que exerciam profissões consideradas impuras pela cultura budista, ligadas à morte e ao sangue, como açougueiros ou curtidores de couro. No passado, foram usados para reprimir a minoria cristã, o que agravou sua exclusão no contexto religioso específico de Nagasaki. Os coreanos, dos quais 9.000 morreram em 9 de agosto de 1945 — quase metade da comunidade —, compartilhavam seu destino de párias na sociedade japonesa do pós-guerra. A maioria retornou ao seu país logo após o fim das hostilidades.

O menino em pé de Nagasaki

Essa segunda apocalipse nuclear também deixou 2.300 órfãos. Um deles deixou a imagem mais famosa desse acontecimento, a qual acompanhou a visita do Papa Francisco a Nagasaki em 2019. A fotografia foi tirada em outubro de 1945 pelo sargento Joe O'Donnell, fotógrafo das tropas de ocupação americanas, que mais tarde condenaria abertamente o uso da bomba atômica no Japão. A criança teria cerca de dez anos, um dos olhos parece manchado e a narina direita mostra possíveis sinais de sangramentos frequentes, indicando provável exposição à radiação. Na imagem, ele está em posição de sentido, de lábios cerrados, carregando o irmãozinho morto nas costas, aparentemente adormecido.

O fotógrafo relatou assim o momento:

"Vi passar um menino de cerca de dez anos. Ele carregava um bebê nas costas. Naquela época, no Japão, era comum ver crianças brincando com seus irmãos menores nas costas, mas esse menino era claramente diferente. Eu percebi que ele estava ali por uma razão séria. Estava descalço. Seu rosto era duro. A cabeça do pequeno estava caída para trás, como se estivesse dormindo profundamente. O menino ficou lá por cinco ou dez minutos. Homens com máscaras brancas se aproximaram dele e começaram a soltar silenciosamente a corda que prendia o bebê. Foi então que percebi que o bebê já estava morto. Os homens pegaram o corpo pelas mãos e pelos pés e o colocaram no fogo. O menino permaneceu imóvel, olhando para as chamas. Ele mordia o lábio inferior com tanta força que ele brilhava de sangue. As chamas ardiam suavemente, como o pôr do sol. O menino se virou e foi embora em silêncio."

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade