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Sem vencedor claro, presidente de Israel busca acordo; partido árabe apoia rival de Netanyahu

O presidente de Israel, Isaac Herzog, iniciou nesta quarta-feira (4) consultas com os partidos eleitos e pediu compromisso das lideranças políticas para evitar um novo período de paralisia institucional. As eleições legislativas de 27 de outubro deixaram o país sem maioria clara no Parlamento e abriram uma disputa entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o líder centrista Gadi Eisenkot. As conversas ocorrem em meio a acusações de fraude eleitoral e ataques contra partidos árabes.

4 nov 2026 - 17h16
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Resumo
As eleições em Israel terminaram em impasse, sem que Benjamin Netanyahu ou o opositor Gadi Eisenkot obtivessem maioria no Parlamento. Diante do cenário, o presidente Isaac Herzog iniciou consultas para articular um governo negociado. Os partidos árabes surgem como peças-chave ao apoiar Eisenkot, o que gerou duras reações e acusações infundadas de fraude por parte de Netanyahu. A Justiça Eleitoral descartou irregularidades na votação, enquanto a oposição tenta pôr fim à liderança do atual premiê.

O pleito realizado em 27 de outubro em Israel não produziu um vencedor incontestável. O campo liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu conquistou 53 das 120 cadeiras do Parlamento israelense, a Knesset. Já o principal bloco de oposição, liderado pelo ex-chefe militar e dirigente centrista Gadi Eisenkot, obteve 48 assentos. Nenhum dos dois alcançou os 61 deputados necessários para governar sozinho.

O principal rival do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Gadi Eisenkot, comprometeu-se nesta quarta-feira (4) a "renovar e fortalecer as relações" com os Estados Unidos caso consiga formar governo após as negociações abertas na sequência das eleições legislativas em Israel.

"Sob minha liderança, renovaremos e fortaleceremos essa parceria e consolidaremos as bases bipartidárias que durante muito tempo a sustentaram", escreveu Eisenkot na rede X, após a derrota dos republicanos nas eleições legislativas norte-americanas.

O líder centrista acrescentou que está "ansioso para trabalhar de maneira construtiva com o presidente Donald Trump" para "reforçar a estabilidade regional". Mas o impasse continua.

O problema surge em um contexto sensível para Israel. Além das divisões internas, o país continua envolvido em uma região marcada por forte instabilidade ligada aos conflitos no Oriente Médio e às discussões sobre uma possível ampliação das operações militares contra o Irã, defendidas por Netanyahu.

Ao iniciar as consultas com os dirigentes partidários, Herzog fez um apelo público para que as lideranças abandonem parte das promessas de campanha e busquem uma solução negociada. "Na realidade atual, sem um vencedor evidente depois das eleições, peço originalidade e criatividade, coragem e boa vontade", afirmou o presidente.

As reuniões começaram nesta quarta-feira e serão retomadas na quinta-feira (5). Ao final do processo, Herzog terá até 11 de novembro para escolher o parlamentar que receberá a missão de tentar formar uma coalizão de governo. O presidente também advertiu que os líderes políticos "devem compreender que não poderão cumprir todos os seus compromissos e todas as suas promessas" eleitorais.

Partidos árabes ganham peso decisivo nas negociações

Os resultados transformaram os partidos árabes em peças centrais para qualquer tentativa de formação de maioria parlamentar. Juntas, estas siglasconquistaram 19 cadeiras, seu melhor desempenho em anos, tornando-se potenciais fiadoras de uma coalizão alternativa ao governo de Netanyahu.

No papel, a matemática parlamentar parece favorecer uma solução. Somados, os partidos do bloco de Gadi Eisenkot e as legendas árabes alcançariam 67 deputados, número confortável para controlar a Knesset.

Um dos principais partidos árabes, o Raam, que conquistou oito cadeiras, anunciou ainda nesta quarta-feira que recomendará Eisenkot para o cargo de primeiro-ministro durante as consultas com Herzog.

Na prática, porém, a construção dessa maioria está longe de ser simples.

Diversos líderes do bloco oposicionista resistem à perspectiva de trabalhar diretamente com partidos árabes, reflexo das profundas divisões da sociedade israelense desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.

Os cidadãos árabes de Israel representam cerca de 20% da população do país. Embora possuam cidadania israelense e representação parlamentar, frequentemente ocupam posição delicada no debate político nacional, especialmente em períodos de conflito.

Para parte do eleitorado judeu, uma aproximação com legendas árabes continua sendo um tema sensível.

Netanyahu intensifica ataques contra legendas árabes

Benjamin Netanyahu tem explorado esse tema desde a divulgação dos resultados eleitorais. Em sucessivas publicações nas redes sociais, o primeiro-ministro passou a acusar os partidos árabes de representarem uma ameaça ao país, classificando essas legendas como "apoiadoras de terroristas" e afirmando que elas buscariam "islamizar Israel".

Os partidos árabes rejeitam as acusações e respondem classificando o discurso do premiê como racista. O confronto político ganhou intensidade com a multiplicação de denúncias de fraude eleitoral feitas pelo campo de Netanyahu.

Aliados do primeiro-ministro afirmam, sem apresentar provas, que partidos árabes teriam comprado votos com recursos provenientes do Catar. As acusações provocaram forte reação entre autoridades responsáveis pelo processo eleitoral.

Nesta quarta-feira, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, uma das principais figuras da extrema direita israelense, elevou ainda mais o tom ao defender que o serviço de segurança interna do país, o Shin Bet, interrogue dirigentes dos partidos árabes. Ben Gvir chegou a pedir a prisão dos líderes dessas legendas para interrogatórios conduzidos pelo órgão de inteligência.

Justiça eleitoral rejeita acusações de fraude

As denúncias apresentadas pelo campo governista foram contestadas pelas autoridades eleitorais. O presidente da Comissão Eleitoral israelense, o juiz Noam Sohlberg, alertou para o "perigo real" representado pelas tentativas de lançar dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral.

Após uma série de verificações, a comissão anunciou nesta quarta-feira que não encontrou irregularidades capazes de comprometer o resultado da votação.

Segundo o órgão, as auditorias realizadas não identificaram "nenhuma irregularidade ou prova indicando que a integridade das eleições tenha sido comprometida ou que os resultados tenham sido alterados".

Isaac Herzog também se manifestou contra os ataques dirigidos à minoria árabe israelense. O presidente condenou o que classificou como "comportamentos grosseiros e declarações racistas" contra a comunidade. As declarações refletem a preocupação crescente das instituições israelenses com o aumento da polarização política desde a divulgação dos resultados.

Oposição quer encerrar era Netanyahu

Enquanto as negociações avançam, a oposição procura transformar o resultado eleitoral em um debate mais amplo sobre o futuro político do país.

O líder de centro-esquerda Yaïr Golan, dirigente do partido Os Democratas e integrante do bloco liderado por Gadi Eisenkot, afirmou que chegou o momento de encerrar a era Netanyahu. Segundo ele, a permanência do primeiro-ministro no poder tornou-se "perigosa para Israel".

Golan argumenta que a continuidade do atual governo pode aumentar o isolamento internacional do país e expor Israel a futuras sanções externas. O dirigente relacionou essa preocupação ao resultado das eleições legislativas dos Estados Unidos, nas quais os democratas conquistaram o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado.

A vitória democrata é observada com atenção em Israel porque parte do partido passou a adotar posições mais críticas à condução da guerra na Faixa de Gaza e ao elevado número de vítimas civis registradas no conflito.

Durante décadas, o apoio norte-americano a Israel foi um dos poucos temas capazes de reunir amplo consenso entre democratas e republicanos. Nos últimos anos, porém, esse consenso passou a apresentar fissuras, especialmente entre setores progressistas do Partido Democrata.

Com AFP

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