Rússia tenta reverter crise demográfica enviando mulheres que não querem filhos ao psicólogo
Uma nova diretriz destinada a combater a crise demográfica na Rússia vai encaminhar mulheres que não desejam ter filhos para consultas com psicólogos. O objetivo é tentar convencê-las a mudar de ideia, diante da acentuada queda na taxa de natalidade do país, aponta um documento ao qual a AFP teve acesso nesta quinta-feira (19).
A queda na fertilidade tem sido uma das principais preocupações do presidente Vladimir Putin desde que chegou ao poder, há 25 anos. Para o Kremlin, o encolhimento da população russa é apresentado como uma questão de sobrevivência nacional. Em 2024, o governo já havia alertado que a Rússia enfrentaria a "extinção" se a taxa de natalidade não aumentasse.
A taxa de natalidade da Rússia é a menor dos últimos 200 anos, em torno de 1,4 filho por mulher, bem abaixo do limite de 2,1 que os demógrafos consideram necessário para estabilizar a população.
O problema se agravou após o início da ofensiva contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, que mobilizou centenas de milhares de jovens.
Homens também passam por exames
O Ministério da Saúde russo agora recomenda que os médicos encaminhem mulheres que não desejam ter filhos "para uma consulta com um psicólogo, com o objetivo de fomentar uma atitude positiva em relação à maternidade". Essas recomendações foram aprovadas no final de fevereiro, mas foram divulgadas nesta semana pela imprensa local.
Segundo o documento, os médicos devem convidar mulheres entre 18 e 49 anos para exames médicos anuais a fim de "avaliar sua saúde reprodutiva". Essas recomendações também incluem exames semelhantes para homens da mesma idade, mas exclusivamente para avaliar sua saúde física, sem envolver psicólogos.
Além disso, nos últimos anos, o país endureceu as leis sobre o aborto. Famílias numerosas são exaltadas na imprensa e se beneficiam de uma série de vantagens econômicas e sociais concedidas pelo Estado.
Rússia não é caso isolado
A situação observada na Rússia não é isolada: vários países enfrentam um declínio acentuado na natalidade, incluindo a França, que historicamente apresentou a taxa mais alta de nascimentos da Europa Ocidental. Hoje, entretanto, o país também registra queda, com 1,56 filho por mulher, após 1,61 em 2024, o nível mais baixo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Esse retrocesso faz parte de uma tendência de médio prazo, já que o índice vem diminuindo desde 2010, quando estava em 2,02 filhos por mulher na França.
Assim como ocorre no resto do mundo, essa redução francesa se insere em uma tendência mais ampla identificada por organismos internacionais, segundo a qual fatores como adiamento da maternidade, custos elevados de criação de filhos e mudanças sociais profundas explicam a diminuição da fecundidade em diversas regiões do mundo. De acordo com os demógrafos, as pessoas têm outras aspirações além de formar uma família, enfrentam dificuldades (como encontrar um trabalho estável e moradia) ou têm receios sobre como conciliar vida profissional e familiar, além de incertezas relacionadas à crise climática.
Confrontado ao problema, em 2024 o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou medidas para o que chamou de "rearmamento demográfico", suscitando uma forte polêmica. Uma consulta de prevenção deve fazer parte do plano de combate à "epidemia da infertilidade" anunciado pelo governo.
"Em um contexto geopolítico de multiplicação de guerras e nacionalismo, os seres humanos não podem ser vistos como armas", reagiu, à época, a deputada socialista Laurence Rossignol.
A Federação Nacional dos Centros de Informação sobre os Direitos das Mulheres e das Famílias denunciou uma política natalista na França contrária à autonomia das mulheres, "uma regressão política e social preocupante". "Deixem nossos úteros em paz", publicou no X a presidente da Fundação das Mulheres, Anne-Cécile Mailfert.
Desde fevereiro de 2026, o governo da França passou a enviar cartas a todos os jovens de 29 anos com orientações sobre fertilidade, riscos de infertilidade e opções como o congelamento de óvulos, com custos cobertos pela seguridade social dos 29 aos 37 anos.
Com AFP