Quem era Daniel Siad, recrutador de modelos de Epstein encontrado morto em Paris
Daniel Siad foi encontrado morto em casa nos subúrbios de Paris. O recrutador de modelos tinha vínculos com o criminoso sexual Jeffrey Epstein, encontrado morto na cela em 2019.
Um recrutador de modelos vinculado ao criminoso sexual Jeffrey Epstein foi encontrado morto na última segunda-feira (20/7), em Colombes, no subúrbio a noroeste de Paris.
O Ministério Público de Nanterre informou à BBC que o corpo de Daniel Siad, de 69 anos, foi encontrado em sua casa, e que "uma investigação para determinar a causa da morte foi aberta". Uma autópsia será realizada.
O nome de Siad apareceu milhares de vezes nos documentos relacionados ao caso Epstein divulgados pelo governo dos Estados Unidos.
Anteriormente, ele havia negado ter qualquer conhecimento sobre os casos envolvendo o financista.
Em uma entrevista recente à BBC, Anya (nome fictício usado para preservar sua segurança), uma das vítimas de Epstein, contou que foi Siad quem a apresentou ao bilionário americano.
"Foi uma armadilha completa", afirmou, descrevendo Siad como "um traficante profissional".
Em um e-mail enviado a Epstein e divulgado nos documentos do caso, Siad escreveu em inglês — com diversos erros de ortografia: "Nesse corre-corre, me sinto como um pescador: às vezes pesco rápido, outras vezes não pesco nada".
Antes da publicação de uma investigação da BBC sobre o caso, em 18 de julho, o advogado de Siad informou que seu cliente não comentaria o assunto.
Em uma entrevista recente à CNN, porém, Siad afirmou que desconhecia os abusos cometidos por Epstein.
"Eu confiava nele. Achava que aquele cara era um profissional", declarou.
'É tarde demais'
O próprio Siad foi alvo de várias denúncias na França, incluindo acusações de estupro. A primeira delas foi apresentada em fevereiro.
Em diversas entrevistas recentes à imprensa, ele negou ter cometido qualquer crime. Em maio, ao canal BFMTV, afirmou: "Nunca estuprei ninguém na minha vida".
Os advogados da ex-modelo que apresentou a primeira denúncia disseram estar "chocados" com a morte de Siad.
"Não temos palavras para descrever a raiva e a tristeza que sentimos", declararam, lamentando que suas clientes "agora serão privadas de um julgamento criminal".
Os advogados afirmaram sentir "uma enorme revolta contra o Ministério Público de Paris", que, segundo eles, "anunciou em fevereiro que abriria uma investigação sobre possíveis cúmplices franceses de Jeffrey Epstein".
Eles acusaram a promotoria de uma inação "escandalosa" que, na avaliação deles, "demonstra o desprezo das autoridades públicas pelas vítimas de crimes sexuais, mesmo quando esses crimes estão ligados à rede de tráfico de pessoas criada por Epstein e seus cúmplices".
A BBC procurou o Ministério Público para obter um posicionamento.
Outra ex-modelo que prestou depoimento à polícia em junho como parte da investigação sobre Siad, disse à BBC que a morte dele significa que qualquer informação que ele pudesse ter sobre Epstein agora foi perdida.
"Um elo importante da cadeia acaba de desaparecer no ar, sem que sequer tenha havido a oportunidade de recuperar as informações que Daniel Siad poderia ter, já que ele nunca chegou a ser interrogado", afirmou.
"Se perdeu tempo demais... e essa é mais uma forma de fazer com que as pistas esfriem. Espero que não tenhamos que esperar outros sete anos para que a casa dele seja revistada, embora eu ache que agora já seja tarde demais."
Anne-Claire Le Jeune, advogada que representa seis mulheres que apresentaram denúncias contra Siad, afirmou que as vítimas tiveram a justiça negada.
"Minhas clientes encontraram forças para romper um silêncio particularmente pesado, devido aos vínculos de Daniel Siad com Jeffrey Epstein", disse ela. "Elas enfrentaram cada etapa do processo com uma coragem extraordinária."
E acrescentou: "É profundamente lamentável que a lentidão da investigação tenha o levado à morte antes mesmo que ele pudesse ser interrogado ou colocado sob custódia policial, privando assim as vítimas de uma etapa crucial em busca pela verdade e pela justiça."
Outro colaborador de Epstein, o agente de modelos francês Jean-Luc Brunel, foi encontrado morto por enforcamento em sua cela em uma prisão de Paris, em 2022.
Brunel, de 76 anos, estava detido havia mais de um ano enquanto era investigado por suspeitas de estupro de vulnerável e tráfico de menores para fins de exploração sexual. Ele negava ter cometido qualquer crime.
Brunel fundou a MC2 Model Management, uma agência de modelos que recebeu financiamento de Epstein. Ele era investigado sob suspeita de ter facilitado o transporte e o alojamento de meninas e mulheres jovens que estariam ligadas à rede de exploração sexual atribuída a Epstein.
Epstein, de 66 anos, morreu em 2019 em uma cela de uma prisão de Nova York enquanto aguardava julgamento federal por acusações relacionadas ao tráfico sexual.
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