Prédio incendiado, 270 presos: o que está por trás de dia de protestos na França
Neste sábado (17/10), diversas cidades francesas foram tomadas por milhares de manifestantes que pedem melhorias nos serviços públicos e se queixam do aumento no custo de vida
Mais de 270 pessoas foram detidas na França durante grandes protestos contra o aumento do custo de vida e a precarização do ensino. Liderados por estudantes, os atos mobilizaram sindicatos e coletes amarelos em cidades como Paris e Lyon, registrando saques, invasões e uso de gás lacrimogêneo pela polícia. O presidente Emmanuel Macron apelou pela calma, enquanto a classe política se divide entre acusações de oportunismo da oposição e alertas sobre uma crise profunda que pode redefinir o país.
Um posto de atendimento ao turista foi incendiado em Lyon, na França, em um dia marcado por grandes protestos no país contra a queda na qualidade do ensino e o aumento no custo de vida.
Mais de 270 pessoas foram detidas em todo o país neste sábado (17/10), enquanto uma manifestação de grande escala ocorre em Paris.
O Ministério do Interior da França condenou o que classificou como "atos de violência direcionados", e acusou alguns manifestantes de tentativas de saques e ataques à polícia.
Em Marselha, um grupo de manifestantes chegou a invadir a prefeitura, mas foi retirado pela polícia.
Em Paris, Bordeaux e Lyon, as forças de segurança usaram gás lacrimogêneo contra os manifestantes.
Em uma das manifestações, um grupo de jovens afirmou ao correspondente da BBC News que eles são "pacifistas" e que estão "apenas tentando promover mudanças".
Os episódios ocorrem após três semanas de protestos liderados por estudantes em todo o país, com apelos para que sindicatos de trabalhadores e integrantes do movimento dos "coletes amarelos" se juntem às manifestações.
O presidente francês, Emmanuel Macron, pediu "calma" e instou os manifestantes a demonstrarem "respeito pelas pessoas e pelo patrimônio".
Os protestos representam algo mais profundo para a França?
Para Hugh Schofield, correspondente da BBC News em Paris, a pergunta que precisa ser feita sobre os protestos na França é a seguinte: trata-se apenas de apenas mais uma manifestação, algo que acontece com frequência no país, ou há algo mais profundo e significativo acontecendo?
Segundo ele, em um certo nível, o movimento assemelha-se muito ao que já ocorreu tantas vezes na França: a causa, a marcha, a destruição, o gás lacrimogêneo, as prisões, as denúncias de brutalidade policial...
Segundo o correspondente, essas cenas culminam num ato final que se desenrola quando todos sentem que já basta.
"Praticamente todo outono, surge na França alguma questão que segue esse mesmo padrão", escreve Schofield.
"Mas será que agora há algo diferente? Algo capaz de transformar o período de 2026-2027 em um daqueles momentos que marcam uma época — como maio de 1968, a Comuna de Paris de 1870 ou as revoluções sociais de 1848 por toda a Europa —, ocasiões em que os protestos realmente trouxeram mudanças?", questiona ele.
Existem argumentos sólidos que sustentam essa visão, observa o jornalista.
"Há a incapacidade de ação do governo centrista francês. Há o experimento fracassado de uma década de 'macronismo' radical. Há uma desilusão generalizada com a política tal como a conhecíamos."
"Há a crise da dívida, que, segundo analistas sérios, poderia levar a França a um calote. Há o empobrecimento provocado pela inflação."
"Há a ascensão dos extremos. Há uma guerra na Europa. Há a figura de Trump. E há as eleições presidenciais francesas, marcadas para abril/maio."
"O mundo está muito instável. As coisas estão mudando", conclui Schofield.
'Pacifistas' que estão 'apenas tentando promover mudanças': estudantes compartilham suas visões sobre os protestos em Paris
A BBC News conversou com alguns manifestantes nas ruas de Paris.
Estar nas manifestações é "muito importante", disse um estudante, ao explicar que não são apenas alunos que foram para as ruas hoje, mas também os trabalhadores.
Após semanas de protestos estudantis, o movimento dos chamados "coletes amarelos" e sindicatos uniram forças com os jovens em uma manifestação mais ampla contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos.
"Todas as gerações" estão nas ruas hoje para expor problemas, afirmou um segundo estudante à BBC.
"Isso realmente nos dá força para continuar e sermos ouvidos pelo governo", acrescentou ele.
Outro manifestante disse estar "lutando contra a ascensão de políticas extremistas".
"É impossível viver nessa situação", avalia ele.
Um quarto participante do prostesto descreveu o grupo como "pacifista".
"Estamos simplesmente cansados de tudo isso. Só tentamos fazer com que as coisas mudem, mas nada avança", declarou ele.
No meio da entrevista para a BBC News, os estudantes tiveram que cobrir a boca, à medida que mais uma rodada de gás lacrimogêneo foi lançada por policiais nas proximidades.
'A violência precisa acabar': as declarações dos políticos franceses
O presidente francês, Emmanuel Macron, pediu "calma" antes dos protestos deste sábado (17/10).
Ele afirmou acreditar no direito de manifestação, mas apelou aos manifestantes para que demonstrem "respeito pelas pessoas e pelo patrimônio".
No início desta semana, a porta-voz do governo declarou que Macron teme que preocupações "legítimas" estejam sendo "exploradas" por forças políticas.
O ministro Sébastien Lecornu sugeriu, também nesta semana, que a indignação dos estudantes estaria sendo manipulada pelo partido de esquerda francês "A França Insubmissa", liderado por Jean-Luc Mélenchon.
"Membros deste partido estão instrumentalizando o movimento estudantil do ensino médio para obter vantagem eleitoral", afirmou Lecornu na quarta-feira (14/10), acusando-os de incentivar os protestos.
Após visitar uma escola que sofreu atos de vandalismo na quinta-feira (15/10), o ministro da Educação, Édouard Geffray, apelou aos manifestantes, e afirmou que "a violência precisa acabar" e que "apenas o diálogo" poderá resolver a questão.
Jordan Bardella, presidente do partido de direita radical "Reunião Nacional", declarou estar "preocupado" com os protestos — segundo comentários citados pela imprensa francesa —, e classificou a situação como uma "oportunidade para uma França caótica se unir em torno de Jean-Luc Mélenchon".
Neste sábado (17/10), Mélenchon se manifestou em postagens no X.
Ele escreveu: "Enquanto os canais de notícias nos inundam com imagens de violência em dezenas de cidades, tudo se desenrola com calma, com dezenas de milhares de pessoas mobilizadas com calma. Dois mundos, duas realidades."
"Em Paris, uma densa procissão desfila calmamente há uma hora ao longo do Boulevard Magenta. Jovem, ativa, inundada de cartazes feitos à mão", observou ele, numa postagem subsequente.
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